Críticas por Pablo Villaça

Poster: Julieta
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
07/07/2016 08/04/2016
Distribuidora
Universal

 

 

Publicidade


Julieta
Julieta

Julieta

Dirigido e roteirizado por Pedro Almodóvar. Com: Adriana Ugarte, Emma Suárez, Inma Cuesta, Michelle Jenner, Daniel Grao, Darío Grandinetti, Nathalie Poza, Blanca Parés, Priscilla Delgado e Rossy de Palma.

Quando inspirado a se desafiar, o cineasta Pedro Almodóvar é capaz de criar experiências únicas como A Pele que Habito, Volver, Má Educação e Fale com Ela (para ficar apenas em sua produção do século 21); já quando no “piloto automático”, ele se contenta em tentar despistar a fragilidade das histórias mais preguiçosas através de seu apuro estético, criando atrocidades como Os Amantes Passageiros e Abraços Partidos ou tolices esquecíveis como este seu recente Julieta.

Baseado em alguns contos da escritora canadense Alice Munro, o roteiro do próprio Almodóvar é falho a ponto de construir a história a partir de uma pergunta que, se recebe alguma resposta, esta é um ridículo “porque sim” – e este ainda é um tropeço menor se comparado à ideia de estruturar a narrativa em torno da redação de uma carta na qual a protagonista relata para a filha uma penca de fatos que esta já conhece e que, portanto, tem seu propósito expositivo escancarado. Os fatos, diga-se de passagem, são essencialmente desinteressantes: Julieta (Ugarte na juventude; Suárez na meia-idade) se envolve com o pescador Xoan (Grao), tem uma filha com este (Delgado na adolescência; Parés quando adulta), e... algumas coisas acontecem. Nada de fabuloso – ainda que o filme tente fazer parecer que sim ao insistir num clima de suspense ressaltado por uma trilha de Alberto Iglesias claramente inspirada na de Um Corpo que Cai.

Visualmente, como já seria de se esperar, Julieta é eficiente: já abrindo a projeção num plano-detalhe de um vestido intensamente vermelho, Almodóvar logo monta a lógica de suas cores, trazendo a personagem-título envolvida em azul até conhecer o amado, que a “infecta” com suas roupas vermelhas (e que passam a dominar o design de produção, pintando carros, roupas, paredes, unhas e o escambau) – e as homenagens ao clássico de Hitchcock continuam não só neste esquema visual, mas também ao trazer Ava (Cuesta), melhor amiga de Xoan, usando os mesmos amarelos que Barbara Bel Geddes, melhor amiga do personagem de James Stewart, usava em Um Corpo que Cai.

Mas as comparações com aquele clássico param por aí, já que a trama deste longa abusa de clichês que incomodariam até numa telenovela: personagens se encontram acidentalmente no meio da rua em momentos-chave (com direito a closes que as trazem dizendo “Bea!”, “Julieta!”); o pobre “mocinho” é casado com uma mulher que se encontra em coma há cinco anos; amantes de coração partido entram em estado catatônico e precisam ser banhadas; e – o mais insuportável – a estratégia recorrente do roteiro para preencher lacunas e avançar a história são diálogos que começam com frases como “Você precisa saber de algo...”; “Nunca te contei isso, mas é hora...”; “Naquele dia, sem que você soubesse...” e por aí afora. Além disso, a recorrência de mães, esposas e amantes gravemente doentes poderia ser até interpretada como uma rima temática, mas soa mesmo como pura convenção melodramática.

Fortalecido (na medida do possível) pelas boas atuações de Ugarte e Suárez (além de uma pequena e divertida participação de Rossy de Palma), Julieta simplesmente espera que aceitemos mudanças bruscas na personalidade de seus personagens (como aquela que subitamente se torna fanática religiosa), atira revelações aleatoriamente ao longo da projeção, esquecendo-as em seguida (como certo romance lésbico) e empurra “resoluções” artificiais que tampouco convencem.

Caso tivesse sido dirigido por alguém chamado José da Silva, Julieta seria visto como uma besteira descartável; como tem “grife”, porém, é colocado numa passarela que seria melhor ocupada por obras realmente dignas do espaço.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.

18 de Maio de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.