Críticas por Pablo Villaça

Poster: Procurando Dory
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
30/06/2016 17/06/2016
Distribuidora
Disney

 

 

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Procurando Dory
Finding Dory

Procurando Dory

Dirigido por Andrew Stanton. Roteiro de Andrew Stanton e Victoria Strouse. Com as vozes de Ellen DeGeneres, Albert Brooks, Ed O’Neill, Kaitlin Olson, Hayden Rolence, Ty Burrell, Diane Keaton, Eugene Levy, Sloane Murray, Idris Elba, Dominic West, Bob Peterson, Bill Hader, Kate McKinnon, Sigourney Weaver, John Ratzenberger, Willem Dafoe, Brad Garrett, Alisson Janney, Austin Pendleton, Stephen Root, Vicki Lewis.

Procurando Dory é mais uma destas continuações que, na realidade, são refilmagens disfarçadas: contando uma história praticamente idêntica à de Procurando Nemo, o novo trabalho da Pixar cria sequências parecidíssimas com as do original e repete piadas, conceitos e personagens, introduzindo alguns novos elementos para que a cópia não fique muito escancarada. No entanto, se isto traz uma sensação exagerada de déjà vu, por outro lado se beneficia da familiaridade que sentimos relacionada a uma experiência que já era essencialmente agradável.

Nos treze anos que separam as duas produções (no universo dos personagens, apenas um ano se passou, já que peixes infelizmente não têm vida tão longa), a cirurgião-patela Dory, com seu problema de perda memória recente, se transformou numa das personagens mais queridas da Pixar/Disney e, assim, era até previsível que viesse a ser promovida de coadjuvante a protagonista de seu próprio filme. Com isso, o roteiro escrito por Victoria Strouse ao lado do diretor Andrew Stanton (também responsável pelo anterior e por Wall-E e John Carter) agora a traz em busca de seus pais, dos quais ela naturalmente havia esquecido – e a sequência inicial desta obra acompanha Dory da infância até o momento em que esbarra em Marlin enquanto este nadava atrás do filho. Acompanhada pela dupla de peixes-palhaço, a personagem-título atravessa o oceano até ser capturada pelos funcionários de um Instituto de Biologia Marinha por culpa de Marília Gabriela (ou Sigourney Weaver, no original em inglês). Nem perguntem.

Isto já traz um problema central a ser enfrentado pelos realizadores, mas que, de certa forma, seria impossível evitar: a rigor, Marlin e Nemo nada têm a acrescentar a esta continuação. E, de fato, se removêssemos ambos da trama, praticamente nada seria alterado; em contrapartida, uma continuação de Procurando Nemo sem a dupla certamente deixaria os fãs frustrados – e o fracasso de Stanton e Strouse em encontrar uma função para pai e filho indica, no mínimo, certa preguiça. Para piorar, o principal arco do original era precisamente a mudança experimentada por Marlin, que, inicialmente paranoico com a segurança do filho, finalmente aprendia a relaxar – e vê-lo retornar à mesma dinâmica de tensão quase desfaz sua trajetória no primeiro longa. (Já Nemo aqui serve apenas para ilustrar como Dory ganhou uma nova família, o que não exigiria sua presença ao longo de toda a jornada.) Além disso, a “obrigação” de agradar ao público leva a participações especiais da tartaruga Crush, do tio Raia e de versões recauchutadas dos demais coadjuvantes de Nemo: se antes tínhamos as gaivotas, aqui temos as mobelhas-do-pacífico (a divertida Becky, em especial); se lá Dory conseguia a ajuda de uma baleia, aqui consegue de outra (e também de um tubarão-baleia); se Nemo era auxiliado pelos experientes peixes do aquário, aqui a voz da experiência é a do polvo Hank; e assim por diante.

Hank, diga-se de passagem, é o coadjuvante-candidato-a-futuro-protagonista da vez: dono de um passado traumático (ele tem apenas sete tentáculos), o animal percorre o arco mais óbvio da narrativa, iniciando-a como uma personalidade avessa à companhia e ao mar e encerrando... bom, vocês podem imaginar. Já Dory basicamente segue o clássico padrão de desenvolvimento que gira em torno de um objetivo (encontrar os pais), ao passo que os demais servem meramente de pano de fundo. O drama da protagonista, por sinal, é perfeito para envolver os espectadores mais jovens, já que o conceito de perder-se dos pais é algo que certamente encontra eco nos receios deste público. Já os mais velhos, desta vez, não têm muito ao que se prender a não ser à beleza dos cenários e a algumas piadinhas mais inspiradas.

E como mencionei o design de produção, é forçoso reconhecer a riqueza estética alcançada pelo trabalho da equipe da Pixar: os personagens se mostram expressivos sem que para isto precisem ser excessivamente antropomorfizados; o Instituto Marinho traz sempre uma surpresa agradável a cada novo ambiente; a paleta de cores é rica e intensa (sendo um prazer constatar como, por exemplo, Dory, Marlin e Nemo mudam apropriadamente de cor dependendo da luz – ou falta de – que é vista em cada lugar); e a qualidade da animação é o que poderíamos esperar do estúdio (notem, por exemplo, como os movimentos das barbatanas de Dory parecem com batidas ansiosas na cabeça enquanto ela se esforça para lembrar-se de algo). Além disso, embora a esta altura já estejamos acostumados aos espetáculos visuais da Pixar, é importante lembrar como o simples fato de ambientar sua trama sob a água é um desafio em si mesmo, sendo superado de forma ainda mais espetacular do que no original.

Mais eficiente também é a montagem: se em meu texto sobre Procurando Nemo observei que a narrativa soava episódica, dependendo excessivamente de fades para saltar de um personagem a outro, aqui estas transições são feitas de maneira bem mais fluida (com o perdão do trocadilho) e orgânica. Por outro lado, a dependência excessiva dos convenientes flashbacks que trazem de volta as memórias da heroína quando estas se mostram mais necessárias é um pouco decepcionante. Para completar, se no primeiro longa as ações dos animais eram relativamente plausíveis por mais extremas que fossem, aqui o roteiro abandona qualquer tentativa de resolver os problemas com o mínimo de verossimilhança – e o clímax da projeção, em particular, é absurdo demais, não se encaixando na lógica estabelecida em Nemo.

Ainda assim, Procurando Dory é suficientemente simpático e divertido para fazer jus ao anterior, merecendo créditos também por trazer tantos personagens superando deficiências físicas e/ou mentais (Dory, Nemo, Hank, Destiny, Bailey) sem que estes seus problemas sejam usados para draminhas tolos ou para fazer pregações artificiais de autoajuda.

Esperemos agora por Procurando Hank.

Observação: há uma cena bastante importante após os créditos finais.

30 de Junho de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.