Críticas por Pablo Villaça

Poster: Janis: Little Girl Blue
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
07/07/2016 27/11/2015
Distribuidora
Zeta Filmes

 

 

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Janis: Little Girl Blue
Janis: Little Girl Blue

Janis: Little Girl Blue

Dirigido por Amy Berg.

Quando tinha 19 anos de idade, Janis Joplin foi nomeada “o homem mais feio do campus” por seus colegas de faculdade – uma daquelas “brincadeiras” adolescentes cruéis típicas de uma mentalidade masculina insegura que encontra, na humilhação do próximo, a própria afirmação. Porém, se para seus autores a “piada” logo se tornaria um ponto distante na memória, para Joplin ela certamente representou um daqueles cortes profundos que, associados à sua autoimagem já abalada, só são cicatrizados – se forem – com um tratamento baseado em muito e constante afeto.

Nascida e criada em Port Arthur, uma cidade sulista dos Estados Unidos (e, portanto, conservadora), Janis desde cedo se viu atacada por aqueles que supostamente deveriam ser seus pares ao se posicionar contra a política de segregação racial – e, sentindo-se distante do (impossível) ideal de beleza que via nas revistas, enxergava no espelho uma adolescente acima do peso e com a pele coberta de espinhas. Esta imagem frágil, claro, não é a que normalmente associamos à cantora de voz poderosa e de incrível presença de palco, ainda que explique parte do sentimento de isolamento e inadequação que tornaria o álcool e as drogas uma fuga atraente.

Não que Janis: Little Girl Blue procure “decifrar” a artista e o que estava por trás dos vícios que resultariam em sua morte – afinal, ao contrário de um personagem da ficção que esconde um único trauma passado que responderá todas as perguntas ao seu respeito, Joplin era uma mulher complexa que combinava doçura e rebeldia, força e vulnerabilidade, independência e carência, além de inúmeras outras contradições aparentes que a tornavam tão fascinante. Aliás, assim como Amy, que ajudava a desfazer a percepção de Winehouse (outro talento destruído aos 27 anos) como a caricatura vendida pela mídia, este documentário também revela diversas facetas pouco conhecidas de sua personagem-título – muitas daquelas importantes para a compreensão das dores e fragilidades que se manifestariam em suas músicas e performances.

Melancólico desde os primeiros minutos ao trazer um trecho de uma carta escrita por Janis no qual comenta ter passado por seu 27º. aniversário (e que sabemos ter sido seu último), Little Girl Blue aponta, em seu título, a natureza triste da cantora e, claro, sua atração pelo gênero musical do qual se tornaria uma representante excepcional. Neste sentido, o fato de o filme logo trazer um depoimento no qual ela esclarece considerar a música uma ótima maneira de compartilhar sentimentos é uma decisão inteligente, já que passaremos os próximos 100 minutos descobrindo incidentes que claramente moldaram a percepção da intérprete a respeito do amor e da dor e frustração que este pode trazer consigo.

Bem estruturado com relação à sua cronologia, o longa é didático também ao ilustrar como Joplin foi de cantora de bar ao estrelato – e, como não poderia deixar de ser, sua participação (ao lado da banda Big Brother and the Holding Company) no Festival Monterey Pop, em 67, ganha destaque nesta trajetória, trazendo inclusive uma entrevista com o lendário documentarista D.A. Pennebaker, que, aos 90 anos de idade, relembra sua preocupação em incluir, no filme que fez sobre o evento, a reação de Cass Elliot (outra que partiu precocemente) diante da performance intensa e inesquecível de Janis - um momento que a diretora Amy Berg apropriadamente resgata. Ao mesmo tempo, Berg não negligencia as influências da fabulosa Odetta e de Otis Redding (mais um morto ainda jovem) sobre o estilo de Janis não só na música, mas no estilo adotado sobre o palco.

Repleto de “figurações” célebres – algo inevitável em um registro sobre a cena musical do período -, Little Girl Blue é enriquecido ainda pelo que expõe sobre a admiração de Janis por Bob Dylan e sobre sua relação com o Grateful Dead, além de incluir vislumbres de ícones como Jimi Hendrix (sim, também falecido aos 27), The Who e de eventos que viriam a atingir status míticos, como Woodstock e a tour no Canadá feita a bordo de um trem que carregava Joplin, o Grateful Dead, The Band e outros. (Há um documentário fabuloso especificamente sobre esta tour: Festival Express, de 2003.)

Contando com excelentes imagens de arquivo, entrevistas, áudios, fotos e trechos de cartas escritas por Janis, Little Girl Blue oferece ao espectador – entre outras preciosidades – passagens dos bastidores da gravação de Summertime, revelando, por exemplo, as discussões dos músicos acerca de versões diferentes de certos acordes e as reações da vocalista ao ouvir o que acabara de gravar. Este equilíbrio entre instantes intimistas e outros mais “públicos” refletem a experiência e o talento de Amy Berg, não só diretora do brilhante Livrai-nos do Mal, mas também produtora do importante Bhutto.

Com isso, esta obra gradualmente transforma JANIS JOPLIN, um dos símbolos da contracultura norte-americana dos anos 60, em Janis, um ser humano com inquietações, sonhos e medos com os quais todos podemos nos identificar. Esta Janis, que franze as sobrancelhas não só ao cantar, mas ao expor suas opiniões em entrevistas, formando uma expressão de sofrimento quase constante que pode ser lida como um mero maneirismo, mas também como um reflexo de seu tumulto interno, é uma criatura talvez mais fascinante que a JANIS que todos pensamos conhecer – e se a analisarmos sob estes termos, até mesmo a natureza única de sua voz, inquestionavelmente forte e poderosa mas com uma rouquidão que parece denunciar estar prestes a se partir, surge como uma síntese das duas personas e que também passa pelas contradições de uma sociedade que, sexista, limita mesmo que sutilmente sua liberdade pessoal. “Quando o show termina, os caras da banda voltam pro hotel com garotas enquanto eu volto sozinha”, ela diz, expondo o tipo de moralismo estúpido que não só a tornava prisioneira de convenções ultrapassadas como ainda reforçava a solidão que tanto a angustiava.

Pontuando a projeção com breves flashes de trilhos sendo percorridos, Little Girl Blue constantemente lembra o espectador de estar contando uma história que rapidamente se aproxima de seu desfecho – e que, neste caso, a estação final seria alcançada cedo demais. Assim, ao vermos as amigas de infância ou a irmã caçula de Joplin, já senhoras, pensamos imediatamente em todas as décadas que esta deixou de experimentar, tornando-se impossível, também, não contrastar aqueles cabelos grisalhos e aquelas rugas à imagem da cantora, para sempre congelada na juventude.

E quando ouvimos a narração de outra carta de Janis, enviada após a ascensão de sua banda à fama, sua celebração inspira, paradoxalmente, tristeza: “Finalmente, algo vai dar certo pra mim”, ela escreve. Janis Joplin tinha, então, 25 anos e apenas mais dois para viver.

07 de Julho de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.