Críticas por Pablo Villaça

Poster: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
07/07/2016 Unknown
Distribuidora
Elo Company

 

 

Publicidade


Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil

Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil

Dirigido por Belisario Franca. Roteiro de Belisario Franca e Bianca Lenti.

Posicionado há mais de oito décadas no pavimento à frente de um velho casarão, o tijolo coberto de lodo e musgo é cuidadosamente retirado pelo velho fazendeiro, que, com sua longa barba branca trançada, foi o responsável pela estranha descoberta que levou o professor até ali. Raspando a lama da parte posterior da peça, o sujeito revela, sem floreios, o símbolo escavado na superfície: uma suástica. Se estivéssemos numa antiga propriedade na Alemanha, não haveria surpresa, mas a construção se encontra em uma fazenda no interior de São Paulo. Que contexto explicaria a presença do símbolo nazista?

Esta foi exatamente a pergunta feita pelo professor Sidney Aguilar ao ser levado até ali graças à informação de uma aluna do ensino médio – um questionamento que o conduziria à tese que, por sua vez, serviu de base para este ótimo documentário dirigido por Belisario Franca. Curioso acerca dos tais tijolos, o professor chegou ao município de Campina do Monte Alegre determinado a questionar os locais sobre os símbolos – algo que o conduziu à descoberta de uma estranha transferência de 50 garotos negros de um orfanato do Rio de Janeiro para uma fazenda situada na região no início da década de 30. Pertencente à influente família Rocha Miranda, a propriedade era administrada por quatro irmãos: um nazista e três integralistas. Era a conexão que ele buscava.

Aquele era um período sombrio na História do planeta: movimentos de extrema direita avançavam pela Europa, Hitler aproveitava a depressão econômica na Alemanha pós-Primeira Guerra para despertar o sentimento nacionalista dos cidadãos e o Brasil se entregava de tal maneira às abomináveis teorias da eugenia que a Constituição de 1934 chegava a incluí-las como um dos baluartes da educação no país – e é chocante que, em 1941, ainda estivéssemos de tal forma mergulhados na ignorância que uma “campanha pela defesa da raça” (que visava selecionar bebês “perfeitos”) era algo visto com absoluta naturalidade. Por outro lado, o que esperar de uma nação que, depois de se tornar a última do Ocidente a abolir a escravidão, havia libertado seus escravos apenas oficialmente, já que, na prática, continuava a mantê-los excluídos da sociedade?

O Brasil tem essa característica trágica de salvar explorando”, diz um sociólogo em certo ponto da projeção ao apontar um costume que, nascido ainda na época da escravatura, acabou se mantendo vivo até o século 21 ao envolver uma elite que, batendo nas próprias costas por sentir-se benevolente ao resgatar crianças de uma vida humilde, faz esta “caridade” em troca dos serviços domésticos prestados. Esta cultura de exploração, por sinal, é algo que Menino 23 denuncia com propriedade não só ao fornecer contexto histórico, mas também ao trazer ricos depoimentos de sociólogos, cientistas políticos e historiadores.

E é por isto que é tão importante conhecermos nossa História: sem ela, encaramos nossa sociedade e suas injustiças com um imediatismo egoísta e míope: "para que cotas raciais", perguntam alguns, "se eu nunca fui dono de escravo? Por que eu deveria ser prejudicado pelas ações de três gerações anteriores à minha?" Ora, este não é um jogo de soma zero: corrigir erros do passado não implica em causar novos no presente. Há um motivo para que cerca de 75% da população mais pobre do Brasil seja composta por negros e que estes, por outro lado, sejam maioria entre a população carcerária. Se considerarmos que na década de 40 ainda era aceitável falar sobre a “superioridade” dos brancos, não há como ignorar que 70 anos não chegam nem perto do tempo necessário para corrigir séculos de opressão.

Dito isso, Menino 23 é um filme que consegue deixar tudo isso claro sem soar como pregação ou entediar: além de jamais deixar de ser instigante, o longa ainda é beneficiado por uma estratégia narrativa eficiente ao trazer flashes que ilustram passagens da história daqueles garotos explorados pelos Rocha Miranda principalmente através da atmosfera que sugerem – e, neste aspecto, a ótima fotografia é fundamental ao criar imagens evocativas que, por vezes, soam como verdadeiros pesadelos, refletindo as experiências dos dois personagens principais (nonagenários que fizeram parte do grupo de 50 meninos vitimados, incluindo, claro, o que dá título ao projeto). Em certo momento, por exemplo, vemos um plano que traz crianças atrás de uma cerca de arame farpado, sugerindo o autêntico campo de trabalhos forçados nos quais viviam, ao passo que, em outro, um garoto negro surge envolvido por uma escuridão sufocante.

Os dois sobreviventes presentes no documentário, aliás, representam um contraste curioso por lidarem com seus traumas de maneiras diametralmente opostas: enquanto um faz piadas ou tenta tratar tudo que viveu como algo inevitável (“E assim é a vida”, diz, embora saiba que poderia ser bem diferente), o outro por vezes se recusa a responder perguntas que o fazem recordar a infância infeliz. Além disso, há um terceiro elemento que, já falecido, passou a vida sendo chamado de “Dois” – até mesmo pela esposa e pelo filho -, incorporando à sua existência a despersonalização cruel imposta pelo processo no qual foi vendido como um animal.

O mais triste – e esta provavelmente é uma palavra fraca para expressar a realidade – é que pouco mudou desde então. Mesmo em 2016, temos uma elite que se sente ofendida diante da possibilidade de qualquer reparação, chegando ao ponto de acusar de “racismo” aqueles que apontam a insistente supremacia caucasiana entre os poderosos. “A elite brasileira é brilhante”, diz uma historiadora, em certo momento da narrativa. “Ela não cede nada, nunca cedeu e ainda está acima da Justiça”. Exagero? Então acompanhe o noticiário com alguma isenção e veja se manterá esta opinião.

Assim, quando o menino do título, agora um senhor cheio de cicatrizes emocionais, relembra o dia no qual foi subitamente atirado de volta ao mundo por ter se tornado um risco para seus “donos”, é impossível não reconhecer que a pergunta que fez então – “Que será que vai acontecer com ‘nóis’?” – traria uma resposta que, décadas depois, ainda denunciaria nosso atraso enquanto espécie.

09 de Julho de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.