Críticas por Pablo Villaça

Poster: Negócio das Arábias
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
04/08/2016 22/04/2016
Distribuidora
Mares/Alpha Filmes

 

 

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Negócio das Arábias
A Hologram for the King

Negócio das Arábias

Dirigido e roteirizado por Tom Tykwer. Com: Tom Hanks, Alexander Black, Sarita Choudhury, Sidse Babett Knudsen, Tracey Fairaway, Jane Perry, Lewis Rainer e Tom Skerritt.

Negócio das Arábias é um filme que começa como uma farsa sobre conflitos culturais, converte-se em uma alegoria sobre a desumanização do capitalismo e, então, gradual e delicadamente, chega ao seu desfecho como uma fábula romântica. Trata-se, portanto, de um exercício narrativo bem mais complexo do que a aparente simplicidade de sua história pode sugerir, aproveitando com imensa eficiência o carisma e a aura de “homem comum” que Tom Hanks consegue projetar de maneira tão natural.

Em sua superfície, o longa apenas acompanha os esforços de Alan Clay (Hanks), um vendedor norte-americano que viaja até a Arábia Saudita com o objetivo de fechar um acordo comercial com o rei daquele país para implantar um sistema de comunicação através de hologramas na colossal cidade que o monarca está erigindo no meio do deserto. Aos poucos, porém, o roteiro do diretor Tom Tykwer (inspirado em livro de Dave Eggers) revela estar menos preocupado com este fiapo de trama do que com uma investigação sobre as ansiedades, frustrações e inseguranças do protagonista, um angustiado homem de meia-idade que, divorciado, se esforça para conseguir algum recurso financeiro para arcar com os custos da faculdade de sua única filha (Fairaway). Sentindo-se um pai inadequado e carregando a culpa por ter sido o responsável por demitir 900 funcionários em seu emprego anterior, quando ajudou a planejar a mudança de uma fábrica de bicicletas para a China, Alan é um indivíduo solitário e perdido. E talvez um dos mais complexos personagens vividos por Hanks.

É interessante, por exemplo, reparar seu hábito de sempre iniciar uma conversa perguntando de que cidade vieram seus interlocutores, o que pode soar como um mero recurso para quebrar o gelo, mas que aponta seu interesse sobre as origens (e, consequentemente, a trajetória) daqueles que encontra – o que, por sua vez, revela muito sobre ele mesmo e sua incerteza acerca da própria jornada. Assim, é também perfeitamente apropriado que esta sua nova parada ocorra em um deserto e envolva uma cidade planejada no meio do nada.

Porque o que fica claro ao longo da projeção é que Negócio das Arábias é um filme que apenas parece ter uma narrativa objetiva, que enxerga os personagens de fora, já que na realidade é, na maior parte do tempo, uma representação subjetiva da percepção de Alan. Já em sua inesperada introdução, por exemplo, somos atirados em um sonho no qual o protagonista surge cantando “Once in a Lifetime”, do Talking Heads, enquanto sua casa, seus bens e sua família desaparecem subitamente, levando-o a questionar “How did I get here?” (“Como vim parar aqui?”), ilustrando imediatamente o significado explícito da obra, que, em última análise, é um estudo de personagem sobre alguém mergulhado em profunda crise existencial.

Assim, quando Tykwer frequentemente posiciona Hanks no canto dos quadros ou em sua metade inferior, o deslocamento e a vulnerabilidade de Alan se tornam patentes, ao passo que a repetição de planos (como o recepcionista do hotel cumprimentando-o todas as noites) e os cortes rápidos que ilustram suas ações (tomar banho, fazer a barba, enviar e-mail para a filha, beber, ligar para o pai, etc) demonstram a eficiência do cineasta em salientar não só a rotina que o protagonista vai estabelecendo no país, mas também seu isolamento cada vez maior. Da mesma maneira, a montagem de Alexander Berner é hábil ao revelar para o espectador o estado emocional e psicológico do personagem através de breves planos que, resultando em rápidos flashbacks, recuperam a pressão profissional ao mostrá-lo sendo encarado pelo patrão, sua culpa por demitir tantas pessoas ao trazê-lo prestes a fazê-lo, sua ligação com a filha ao vê-la dormindo ainda bebê e rindo ao seu lado num café da manhã e assim por diante. Esta confiança dos realizadores em sua capacidade de dizer muito com tão pouco é, diga-se de passagem, uma das maiores virtudes de Negócio das Arábias.

E já que mencionei o título em português, é preciso apontar como a tradução é pavorosa, ignorando completamente a beleza do original: A Hologram for the King. Pois o fato é que, além de explicitar o motivo que leva Alan à Arábia Saudita, este título ressalta a importância da tal tecnologia como símbolo para a narrativa – pois, assim como promete oferecer uma interação com a projeção de alguém à distância, o tal holograma é ao mesmo tempo uma metáfora da condição do protagonista (um homem que se transformou em uma casca vazia de quem era antes) e de sua dificuldade de estabelecer novas ligações emocionais (ele propositalmente afasta quem tenta tornar-se próximo). Desta forma, é natural que as cadeiras frequentemente se estraçalhem sob seu peso, negando-lhe apoio/suporte, e que um caroço enorme surja em suas costas, numa materialização grotesca de seus medos e traumas (algo que ele mesmo aponta ao insinuar que seu estado mental se alterou em função do lipoma).

O que consequentemente nos leva à figura responsável por remover o cisto e o peso que este simboliza: a médica Zahra Hakem (Choudhury). Em uma cultura dominada pelo sexismo – e a Arábia Saudita é um dos países mais retrógrados neste aspecto -, o encontro dos dois oferece a oportunidade para que Tykwer possa fazer comentários pertinentes sobre o reino (como ao abordar as execuções públicas e as leis de divórcio tremendamente injustas) ao mesmo tempo em que emprega aquelas questões como obstáculo dramático relevante para o romance recém-nascido. Aliás, é revigorante assistir a um filme que não se vê impelido em oferecer uma amante jovem para um protagonista de meia-idade, investindo, em vez disso, no encantamento que surge entre duas pessoas já maduras, divorciadas e com filhos grandes, que tampouco representam os ideais estéticos que normalmente dominam produções hollywoodianas – e a forma que os dois encontram para escapar do escrutínio dos vizinhos não só é divertida como resulta naquele que certamente é um dos planos mais bonitos de 2016: o primeiro beijo, sob a água, do casal.

Mesclando instantes de humor (geralmente envolvendo o motorista Youssef, vivido por Alexander Black) e outros que surpreendem pelo choque (os filipinos praticamente escravizados que são vistos no prédio que constroem), Negócio das... não, Um Holograma para o Rei é um filme sensível e adulto que, ao final, aponta como até mesmo um edifício incompleto, superficialmente caótico, pode abrigar um lar confortável e aconchegante.

Uma imagem que a obra retrata literalmente para, de forma lírica, sugerir que mesmo em meio às incertezas naturais que a vida traz podemos encontrar estrutura e alguma estabilidade. Basta que nos deixemos tocar.

6 de Agosto de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.