Críticas por Pablo Villaça

Poster: Cegonhas
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
22/09/2016 23/09/2016
Distribuidora
Warner

 

 


Cegonhas
Storks

Cegonhas

Dirigido por Nicholas Stoller e Doug Sweetland. Roteiro de Nicholas Stoller. Com as vozes de Andy Samberg, Katie Crown, Kelsey Grammer, Jennifer Aniston, Ty Burrell, Anton Starkman, Keegan-Michael Key, Jordan Peele, Stephen Kramer Glickman, Awkwafina, Christopher Nicholas Smith e Danny Trejo.

É bem simples saber se alguém irá apreciar o humor nonsense e frenético de Cegonhas: o espectador em questão é fã dos curtas de Chuck Jones? Se for, será inevitável a admiração por este trabalho do diretor e roteirista Nicholas Stoller, que, depois de construir uma carreira escrevendo (As Loucuras de Dick & Jane, Sim, Senhor) e/ou dirigindo (Ressaca de Amor, Vizinhos) comédias live action, faz sua estreia no comando de animações ao lado do co-diretor Doug Sweetland, que, por sua vez, tem um currículo invejável repleto de títulos da Pixar.

Aliás, assim como tantos sucessos do estúdio de John Lasseter, Cegonhas parte de uma premissa simples: e se estas aves realmente tivessem como função entregar bebês aos seus pais humanos? E o que aconteceria se uma destas crianças não fosse entregue? Pois este é o caso de Tulipa, que acabou crescendo em meio às cegonhas, tornando-se uma presença desastrada no imenso depósito que agora abriga os produtos carregados pelos bichos, que abandonaram o ramo de baby delivery e passaram a trabalhar para uma empresa claramente inspirada na Amazon. Porém, quando um novo bebê é criado por acidente em resposta ao pedido do garotinho Nate, que deseja um irmão por ver-se solitário ao lado dos pais workaholics, Tulipa assume a tarefa de levá-lo até seu lar, sendo acompanhada por Junior, cegonha que se encontra prestes a assumir a chefia da corporação. A missão, porém, representa uma ameaça para os objetivos do executivo Hunter, que decide impedir a dupla. (Ou seja: assim como a refilmagem de Sete Homens e um Destino, que estreou nos cinemas brasileiros na mesma semana que esta animação, o longa traz como vilão um símbolo do capitalismo descontrolado, destrutivo – algo que, como apontei na crítica daquela produção, tornou-se comum após a crise de 2008.)  

Quase sabotado por um primeiro ato problemático que se perde ao buscar estabelecer os três personagens principais e suas histórias pregressas (Junior, Tulipa e Nate), Cegonhas melhora consideravelmente ao abraçar a estrutura de road movie, que lhe permite saltar de um incidente a outro sem ter que voltar a se preocupar com a exposição de elementos da trama. Além disso, a proposta do filme fica bem mais clara a partir deste instante, quando abraça de vez o nonsense na construção de suas gags, investindo em passagens que abandonam a história principal com o objetivo de buscar piadas surpreendentes – como, por exemplo, no instante em que o pombo Toady descobre uma pista do paradeiro dos heróis e se imagina protagonizando a abertura de sua própria série no estilo C.S.I. Da mesma maneira, a alcateia liderada pelos lobos Alpha e Beta basicamente rouba a cena sempre que aparece, já que demonstra a habilidade de se organizar para formar qualquer estrutura necessária (e eu não me espantaria caso os personagens repetissem a trajetória dos pinguins de Madagascar e passassem a estrelar suas próprias produções).

Mantendo o quadro sempre em movimento, mesmo quando se concentra em momentos supostamente mais calmos, Stoller confere energia constante à narrativa, investindo também numa montagem dinâmica que frequentemente revela piadas inesperadamente através de cortes súbitos. Assim, Cegonhas jamais se preocupa em manter uma coerência de espaço ou tempo, impedindo que tenhamos uma ideia clara de quantos dias se passaram ou da distância aproximada percorrida pelos personagens – mas se isto normalmente seria um defeito narrativo, aqui assume a natureza de virtude, já que acaba por contribuir para a insanidade que domina a atmosfera da obra.

Esta velocidade, claro, não impede que a produção revele cuidado com seus elementos visuais – e, de fato, o trabalho de animação feito pelo recém-inaugurado Warner Animation Group (que estreou com o ótimo Uma Aventura Lego) é admirável: os personagens são extremamente expressivos facial e corporalmente, o design de produção cria um universo vívido e interessante e detalhes como o corte militar de Hunter ou os olhos completamente brancos dos pinguins indicam a compreensão dos realizadores sobre como elementos sutis podem fazer toda a diferença. Para completar, o longa sabe que conta com uma arma poderosa para conquistar o público e a emprega muito bem: os bebês, com seus olhos grandes e gritinhos adoráveis.

Encontrando espaço para fazer uma boa (mesmo que óbvia) referência a O Silêncio dos Inocentes, Cegonhas traz ainda sequências que, por si só, já garantem o sucesso cômico do projeto – como aquela envolvendo a dificuldade das aves diante de vidros e, claro, a briga que ocorre num silêncio imposto pelo receio de despertar uma criança.

Progressivo ao trazer – mesmo que brevemente – casais de todos os tipos recebendo seus bebês (tanto em suas orientações sexuais quanto em suas etnias), Cegonhas comprova como lutar contra os avanços da sociedade é tarefa destinada ao fracasso. E, ainda mais importante, ilustra como o conceito de família está infinitamente mais ligado ao afeto do que ao gênero de seus integrantes.

24 de Setembro de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.