Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Chegada
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
24/11/2016 11/11/2016
Distribuidora
Sony

 

 


A Chegada
Arrival

A Chegada

Dirigido por Denis Villeneuve. Roteiro de Eric Heisserer. Com: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O’Brien, Tzi Ma, Max Walker, Abigail Pniowsky, Julia Scarlett Dan, Jadyn Malone, Carmela Nossa Guizzo.

Há amores tão imensos que insistimos em vivê-los mesmo sabendo que a experiência resultará inevitavelmente em dor. Não há razão que explique nossa decisão de abraçá-los e o fascinante é que, mesmo que houvesse, não a ouviríamos. São amores tão fortes que parecem existir fora do tempo: não nos lembramos de como éramos antes deles e nem conseguimos nos imaginar como seríamos (ou seremos) depois.

A Chegada é um filme que compreende isso e que também reconhece como a ficção científica frequentemente se ocupa com questões imateriais demais para a Ciência e palpáveis demais para que soem como Fantasia – o que torna significativo como a combinação de ambas acaba por se mostrar tão apta a produzir respostas incrivelmente complexas. Algumas das reflexões mais instigantes sobre a natureza da perda e da morte vieram deste gênero, já que, em última análise, obras como 2001, Solaris e Contato lidam com nossa finitude e a daqueles que amamos – e também com nossa relação com estas. (E, sim, estou colocando o novo trabalho de Denis Villeneuve na mesma categoria destes clássicos.)

Mas as similaridades entre estes longas vão além, já que também giram em torno de histórias sobre avanços tecnológicos e contatos alienígenas que, de maneira direta ou indireta, tentam solucionar filosoficamente o próprio conceito de Morte. Aliás, se pensarmos bem, é apenas natural que frequentemente a Arte imagine esta resposta partindo de fora, de outras civilizações, já que certamente não se encontra aqui - embora, claro, há quem a busque em Deus, na Filosofia ou na Psicanálise, enquanto alguns apenas aceitam a realidade de que ela simplesmente não existe.

Se estou fazendo com que A Chegada soe tematicamente denso, é porque ele é. Melancólico desde os primeiros segundos, o filme, adaptado de um conto de Ted Chiang por Eric Heisserer, tem início com uma sequência que rivaliza com a de Up ao trazer a Dra. Louise Banks (Adams) pegando a filha recém-nascida pela primeira vez e ao percorrer, através de rápidas elipses, alguns de seus momentos com a garota até a morte desta ainda na adolescência. Quando reencontramos a linguista, esta cruza a tela com um ar distante e entristecido, ignorando até mesmo o agrupamento de seus alunos diante das telas de tevê que exibem as imagens de doze naves alienígenas que se posicionaram em diversos cantos do planeta. No entanto, seu interesse acaba sendo despertado de vez quando é chamada para tentar traduzir as mensagens dos visitantes, ganhando, na tarefa, a companhia do físico Ian Donnelly (Renner), também convocado pelo coronel Weber (Whitaker) e, como ela, monitorado de perto por um agente da CIA (Stuhlbarg).

Adotando uma abordagem científica, mas também repleta de sensibilidade, Louise reconhece que, antes de ser um meio de comunicação, a linguagem era uma forma de expressão artística, um modo de expressar graficamente sentimentos e ideias abstratas. Assim, ao se ver diante de seres cuja linguagem escrita não é uma mera representação da falada, expandindo-a além dos fonemas (imaginem uma versão extrema do kanji do japonês contemporâneo), a protagonista se torna compreensivelmente fascinada – uma reação que se torna ainda maior quando ela se dá conta de que os alienígenas se expressam de maneira não-linear. Por outro lado, a linguista aponta os riscos inerentes a cada modo diferente de abordar a comunicação, salientando, por exemplo, como a utilização do mahjong pelos chineses pode criar uma lógica de confronto onde deveria existir a colaboração e também como termos similares podem provocar interpretações diversas segundo o contexto do tradutor, como as palavras “arma” e “ferramenta” (aliás, se este aspecto de A Chegada despertar seu interesse, assista ao documentário Is the Man Who Is Tall Happy?).

Infelizmente, o contexto retratado pelo roteiro é o de pavor diante do desconhecido – e o filme compreende que, diante do medo, a reação de boa parte da humanidade é a agressão. Não é à toa que Louise pensa nos problemas à sua frente em termos de linguagem, enquanto seus superiores os avaliam seguindo a lógica da guerra. Neste sentido, diga-se de passagem, Villeneuve é hábil ao construir uma forte atmosfera de tensão através dos movimentos de câmera deliberadamente lentos, do tom de voz sempre baixo de seus personagens e mesmo do silêncio absoluto. Por outro lado, ele evoca a reação maravilhada de Ian ao trazer um plano-detalhe de sua mão tocando a superfície irregular da nave ou ao contrastar seu sorriso de antecipação pelo encontro com os visitantes à respiração pesada e ansiosa de Louise. Para completar, o cineasta cria uma lógica visual sutil ao executar tilts (movimentos de câmera verticais, como um aceno positivo de cabeça) que vão em direções opostas dependendo do que enfocam: de cima para baixo nos cenários terráqueos e de baixo para cima quando no interior da nave alienígena, contrapondo as formas de cada um de enxergar o mundo.

Porém, a estratégia narrativa mais inteligente de Villeneuve reside em associar o ponto de vista do espectador ao de Louise. Para isso, o diretor investe num desenho de som centrado na percepção subjetiva da protagonista: quando ela se encontra num helicóptero, a mixagem é dominada pelo ruído do motor até que ela coloque os fones de ouvido; ao vestir o macacão contra radiação, tudo se torna abafado; e assim por diante. E mais: se inicialmente só vemos os aliens à distância, finalmente conseguimos observar detalhes de sua anatomia quando a personagem se aproxima deles – e o efeito de identificação acaba sendo complementado pelo uso pontual das câmeras subjetivas. E por que isto é tão importante? Porque, depois de ancorados a ela, somos mergulhados ao seu lado nas memórias da filha que começam a inundá-la cada vez mais depois de estabelecer contato com as criaturas, o que é fundamental para a estrutura do longa.

E são nestas lembranças tão fluidas que A Chegada completa sua reflexão sobre a natureza de nossas existências através da justaposição de momentos profundamente contrastantes, mas também similares: aqui, Louise põe Hannah para dormir e, ali, cobre com carinho seu corpo morto; numa noite, se deita ao lado da filha adormecida e, em outra, do lado de seu cadáver. Se em nossas vidas estamos presos ao tempo e à sua ordem, em nossas memórias somos livres – uma liberdade refletida na própria linguagem do Cinema, já que a montagem, mesmo caminhando em uma única direção (do início ao fim do filme), pode executar diversas manobras cronológicas entre estes extremos, conseguindo terminar exatamente onde começou, se assim desejar. Esta estrutura circular, que Villeneuve compreende tão bem, encontra eco também na irracionalidade de nossos sentimentos, já que, não raro, percorremos caminhos que já conhecemos enquanto buscamos preencher vazios que jamais desaparecerão justamente porque agora sabemos o calor que experimentamos quando havíamos conseguido preenchê-los.

E por que teimamos, então? Porque há amores tão imensos que insistimos em vivê-los mesmo sabendo que a experiência resultará inevitavelmente em dor.

06 de Outubro de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.