Poster: A Chegada

 

 

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Banner: A Chegada

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
24/11/2016 11/11/2016
Sony

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Denis Villeneuve. Roteiro de Eric Heisserer. Com: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O’Brien, Tzi Ma, Max Walker, Abigail Pniowsky, Julia Scarlett Dan, Jadyn Malone, Carmela Nossa Guizzo.

Há amores tão imensos que insistimos em vivê-los mesmo sabendo que a experiência resultará inevitavelmente em dor. Não há razão que explique nossa decisão de abraçá-los e o fascinante é que, mesmo que houvesse, não a ouviríamos. São amores tão fortes que parecem existir fora do tempo: não nos lembramos de como éramos antes deles e nem conseguimos nos imaginar como seríamos (ou seremos) depois.

A Chegada é um filme que compreende isso e que também reconhece como a ficção científica frequentemente se ocupa com questões imateriais demais para a Ciência e palpáveis demais para que soem como Fantasia – o que torna significativo como a combinação de ambas acaba por se mostrar tão apta a produzir respostas incrivelmente complexas. Algumas das reflexões mais instigantes sobre a natureza da perda e da morte vieram deste gênero, já que, em última análise, obras como 2001, Solaris e Contato lidam com nossa finitude e a daqueles que amamos – e também com nossa relação com estas. (E, sim, estou colocando o novo trabalho de Denis Villeneuve na mesma categoria destes clássicos.)

Mas as similaridades entre estes longas vão além, já que também giram em torno de histórias sobre avanços tecnológicos e contatos alienígenas que, de maneira direta ou indireta, tentam solucionar filosoficamente o próprio conceito de Morte. Aliás, se pensarmos bem, é apenas natural que frequentemente a Arte imagine esta resposta partindo de fora, de outras civilizações, já que certamente não se encontra aqui - embora, claro, há quem a busque em Deus, na Filosofia ou na Psicanálise, enquanto alguns apenas aceitam a realidade de que ela simplesmente não existe.

Se estou fazendo com que A Chegada soe tematicamente denso, é porque ele é. Melancólico desde os primeiros segundos, o filme, adaptado de um conto de Ted Chiang por Eric Heisserer, tem início com uma sequência que rivaliza com a de Up ao trazer a Dra. Louise Banks (Adams) pegando a filha recém-nascida pela primeira vez e ao percorrer, através de rápidas elipses, alguns de seus momentos com a garota até a morte desta ainda na adolescência. Quando reencontramos a linguista, esta cruza a tela com um ar distante e entristecido, ignorando até mesmo o agrupamento de seus alunos diante das telas de tevê que exibem as imagens de doze naves alienígenas que se posicionaram em diversos cantos do planeta. No entanto, seu interesse acaba sendo despertado de vez quando é chamada para tentar traduzir as mensagens dos visitantes, ganhando, na tarefa, a companhia do físico Ian Donnelly (Renner), também convocado pelo coronel Weber (Whitaker) e, como ela, monitorado de perto por um agente da CIA (Stuhlbarg).

Adotando uma abordagem científica, mas também repleta de sensibilidade, Louise reconhece que, antes de ser um meio de comunicação, a linguagem era uma forma de expressão artística, um modo de expressar graficamente sentimentos e ideias abstratas. Assim, ao se ver diante de seres cuja linguagem escrita não é uma mera representação da falada, expandindo-a além dos fonemas (imaginem uma versão extrema do kanji do japonês contemporâneo), a protagonista se torna compreensivelmente fascinada – uma reação que se torna ainda maior quando ela se dá conta de que os alienígenas se expressam de maneira não-linear. Por outro lado, a linguista aponta os riscos inerentes a cada modo diferente de abordar a comunicação, salientando, por exemplo, como a utilização do mahjong pelos chineses pode criar uma lógica de confronto onde deveria existir a colaboração e também como termos similares podem provocar interpretações diversas segundo o contexto do tradutor, como as palavras “arma” e “ferramenta” (aliás, se este aspecto de A Chegada despertar seu interesse, assista ao documentário Is the Man Who Is Tall Happy?).

Infelizmente, o contexto retratado pelo roteiro é o de pavor diante do desconhecido – e o filme compreende que, diante do medo, a reação de boa parte da humanidade é a agressão. Não é à toa que Louise pensa nos problemas à sua frente em termos de linguagem, enquanto seus superiores os avaliam seguindo a lógica da guerra. Neste sentido, diga-se de passagem, Villeneuve é hábil ao construir uma forte atmosfera de tensão através dos movimentos de câmera deliberadamente lentos, do tom de voz sempre baixo de seus personagens e mesmo do silêncio absoluto. Por outro lado, ele evoca a reação maravilhada de Ian ao trazer um plano-detalhe de sua mão tocando a superfície irregular da nave ou ao contrastar seu sorriso de antecipação pelo encontro com os visitantes à respiração pesada e ansiosa de Louise. Para completar, o cineasta cria uma lógica visual sutil ao executar tilts (movimentos de câmera verticais, como um aceno positivo de cabeça) que vão em direções opostas dependendo do que enfocam: de cima para baixo nos cenários terráqueos e de baixo para cima quando no interior da nave alienígena, contrapondo as formas de cada um de enxergar o mundo.

Porém, a estratégia narrativa mais inteligente de Villeneuve reside em associar o ponto de vista do espectador ao de Louise. Para isso, o diretor investe num desenho de som centrado na percepção subjetiva da protagonista: quando ela se encontra num helicóptero, a mixagem é dominada pelo ruído do motor até que ela coloque os fones de ouvido; ao vestir o macacão contra radiação, tudo se torna abafado; e assim por diante. E mais: se inicialmente só vemos os aliens à distância, finalmente conseguimos observar detalhes de sua anatomia quando a personagem se aproxima deles – e o efeito de identificação acaba sendo complementado pelo uso pontual das câmeras subjetivas. E por que isto é tão importante? Porque, depois de ancorados a ela, somos mergulhados ao seu lado nas memórias da filha que começam a inundá-la cada vez mais depois de estabelecer contato com as criaturas, o que é fundamental para a estrutura do longa.

E são nestas lembranças tão fluidas que A Chegada completa sua reflexão sobre a natureza de nossas existências através da justaposição de momentos profundamente contrastantes, mas também similares: aqui, Louise põe Hannah para dormir e, ali, cobre com carinho seu corpo morto; numa noite, se deita ao lado da filha adormecida e, em outra, do lado de seu cadáver. Se em nossas vidas estamos presos ao tempo e à sua ordem, em nossas memórias somos livres – uma liberdade refletida na própria linguagem do Cinema, já que a montagem, mesmo caminhando em uma única direção (do início ao fim do filme), pode executar diversas manobras cronológicas entre estes extremos, conseguindo terminar exatamente onde começou, se assim desejar. Esta estrutura circular, que Villeneuve compreende tão bem, encontra eco também na irracionalidade de nossos sentimentos, já que, não raro, percorremos caminhos que já conhecemos enquanto buscamos preencher vazios que jamais desaparecerão justamente porque agora sabemos o calor que experimentamos quando havíamos conseguido preenchê-los.

E por que teimamos, então? Porque há amores tão imensos que insistimos em vivê-los mesmo sabendo que a experiência resultará inevitavelmente em dor.

06 de Outubro de 2016

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Comente!

  • Renato Rodrigues de Moraes em 20/01/2017 às 18:33

    Pablo parabéns pelo lindo texto. Suas palavras deixam o filme mais belo do que já é.

  • isaac junior em 13/12/2016 às 10:40

    Quero citar o que o Renato escreveu: “Tão lindos seríamos, se, ao menos por uma vida, vivêssemos como as rosas.”
    Renato, a historia das rosas muito me emocionou, realmente somos muito imediatistas em nossa vidas e passamos por ela, sem ao menos nos dar conta de tudo de bom que já vivemos e quem nos tornamos ao passar do tempo. Filmes como esse nos fazem pensar e refletir, acho que essa é uma das funções da arte, refletir o melhor do homem no homem, mesmo quando não buscamos, mas temos isso em nós. O filme é inteligente, complexo e angustiante, me imaginei no lugar dela, uma pessoa contra o mundo, quando todos queriam buscar na luta a resposta, ela lutava por entender os visitantes. Ótimo filme. Diferente do que eu esperava o filme me surpreendeu.

  • Hélio Craveiro Pessoa Júnior em 10/12/2016 às 13:16

    pq os alienigenas não salvaram alguns segundos antes os cientistas a ponto de conseguir fugir em segurança? qual a intencao do general ter passado as ultimas palavras da mulher para a cientista? um jogo de alguem que aprendeu a linguagem dos visitantes ou de um humano comum que consegue prever o que sua mulher falaria na última hora?

  • HUASCAR AUGUSTO VITORINO em 09/12/2016 às 22:45

    Porque há amores tão imensos que insistimos em vivê-los mesmo sabendo que a experiência resultará inevitavelmente em dor. Porque é com o amor que aprendemos? Porque segundo algumas doutrinas esotéricas só existe uma lei no ápice da evolução, amar! Porque segundo a física quântica o tempo é uma medida humana e por isso passível de estar equivocada? Excelente filme, brilhante crítica, obrigado Pablo.

  • Cello em 05/12/2016 às 10:21

    Tô fora! se sim nota e 10, no mínimo 5 ou 6?

  • Flavia Leticia em 28/11/2016 às 02:31

    Belissimo! Sai emocionadissima, muito reflexivo!

  • Marcelo Pereira em 25/11/2016 às 21:27

    Minha primeira impressão do filme, ao ver o drama da protagonista com a morte prematura da filha, era de que seria um filme que recorreria apelativamente ao drama pessoal para dar carisma à personagem. Mas a conclusão do roteiro é tão espetacular, ao chegar à conclusão que é o começo e o fim da crítica do Pablo, que eu saí do filme absolutamente embasbacado. E é ótimo quando você começa uma experiência cinematográfica com uma impressão ruim e é surpreendido positivamente.

  • MARINA OLIVEIRA em 25/11/2016 às 10:23

    Estou ansiosíssima para assistir!

  • Rafael Ferreira em 19/10/2016 às 10:30

    "e o filme compreende que, diante do medo, a reação de boa parte da humanidade é a agressão" Essa é a natureza animal, principalmente dos predadores diante de uma "ameaça" (desconhecido). Sendo assim fico em dúvida se o "Infelizmente" para o contexto do roteiro seja por causa do uso desse artifício como desculpa em vários outros filmes ou se isso foi considerado uma estupidez por parte dos roteiristas?

  • Reinaldo Damião em 16/10/2016 às 13:42

    Pablo, a experiência de ler suas criticas é única! Nós agradecemos! Abraços.

  • Pedro Henrique Cavernaz Guimarães Bastos Ehler em 10/10/2016 às 19:52

    Parece que chegará aos cinemas em 9 de fevereiro de 2017.

  • Roberto em 08/10/2016 às 19:41

    Que texto lindo!! Tenho que ver logo.

  • Débora em 07/10/2016 às 20:33

    O problema de ler suas críticas é que a gente quer assistir o filme imediatamente!

  • Reinaldo Melo em 07/10/2016 às 11:13

    Este filme estreia, hoje, mesmo? Não estou encontrando nada de horário.

  • Renato em 07/10/2016 às 11:01

    A idéia do fim é apenas o começo de uma nova preocupação. Por que será.....? Por que será que, quando nos deparamos com uma situação real e verdadeira em nossa frente, nos projetamos tão à frente, como visionários de um contexto que, ainda nem ao menos aconteceu? Tentando imaginar quais serão as possíveis configurações para tal ...- o futuro não é algo previsível e muito menos configurável.
    Esta idéia do fim é a problemática do meio...todo o início (todo e qualquer um), de qualquer situação, está sujeito à uma expectativa de um final! Por que será.....? Por que será que a noção de tempo se perde e se dissipa num simples e frágil sopro de dúvida o qual nos permitimos deixar levar, quando nos apegamos ao presente com o medo do fim.....Por que não pensarmos de outra forma?
    Por que não conseguimos entender que a vida, como realidade inquestionável que é, nos proporciona oportunidades a cada dia de olha-la de outra forma? Ora, de tão indecifrável que esta vida se apresenta, não teria solução mais fácil e eficiente: Não nos preocupemos!!! Não sabemos o que acontecerá mesmo!!! – diriam os mais práticos (e talvez ET´s). Mas, nós, “serezinhos” humanos tão indecifráveis e não tanto inquestionáveis quanto à vida, preferimos a sujeição às expectativas à praticidade da realidade sufocante!
    Parei para pensar em tudo isso quando tentei entender um certo questionamento em que me deparei noutro dia em que ouvi uma pessoa perguntando-me se deveria colocar água no vasinho de rosas colombianas que houvera ganhado para que elas não morressem...eram três as rosas.
    Eu até entendia a preocupação dela, as rosas eram muito bonitas realmente, e ela dizia que não queria que as rosas morressem porque eram lindas e gostava delas...e eu tentei ser prático ao dizer que elas morreriam de qualquer forma, pois rosas são rosas....e que belas rosas...e além de belas...também eram práticas. Viveram seus últimos momentos realizando uma função alheia à suas existências sem nenhum questionamento. Mas estavam lá...realizando o papel de iniciar a demonstração de um sentimento. E lá ficaram, por uma semana, simbolizando este sentimento. E lá mesmo, murcharam, até morrerem sem ao menos saber o que representavam...sem saber qual o futuro construíram, qual participação efetiva tiveram neste futuro e se é que ele existe. E isso, as lhe tornaram ainda mais lindas que a função estética a qual representavam! Não precisavam saber nada disso, apenas estavam lá!
    Começar a pensar no fim, é começar a morrer aos pouquinhos...é alimentar o final que, mesmo que certamente inevitável, nos incomoda. E já que o fim é inevitável, deixemos de encara-lo com fragilidade, privações e este incômodo...porque mais certo que a inevitabilidade do fim, é o fato de que enquanto estivermos vivos ainda teremos a oportunidade de simbolizar essa vida apenas vivendo-a! E durante esta vivência...muitas rosas ainda passarão por nós para simbolizar muitos e muitos momentos, bem como novos inícios de sentimentos ainda maiores, que estaremos sujeitos a sentir bem como sermos motivo para que alguém sinta!

    “Tão lindos seríamos, se, ao menos por uma vida, vivêssemos como as rosas.”

  • Aniello em 07/10/2016 às 10:16

    Depois de uma crítica destas, vou ter que conferir o filme hoje mesmo.

 

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