Poster: Ouija: Origem do Mal

 

 

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Banner: Ouija: Origem do Mal

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
22/10/2016 22/10/2016
Universal

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Mike Flanagan. Roteiro de Mike Flanagan e Jeff Howard. Com: Annalise Basso, Elizabeth Reaser, Lulu Wilson, Parker Mack, Doug Jones, Chelsea Gonzalez, John Prosky, Lin Shaye e Henry Thomas.

Se há algo que aprendi em 22 anos de profissão é que nunca devemos prejulgar um filme. Quando entro em uma sessão, evito quaisquer expectativas definidas; em vez disso, apenas torço para que o que verei seja bom. Este Ouija: Origem do Mal é um bom exemplo do acerto desta postura: embora seu predecessor de 2014 seja fraquíssimo, esta pré-continuação é um terror eficiente que, mesmo contando uma história cujo desfecho já conhecemos (ao menos, quem viu o original), mantém o espectador tenso desde os primeiros momentos de projeção.

Um dos motivos para esta melhora notável reside na substituição do responsável pelo projeto, que agora traz Mike Flanagan (diretor do também ótimo O Espelho) no lugar de Stiles White, que estreou como cineasta naquela produção e aparentemente desistiu da carreira depois disso. Experiente, mesmo que não à prova de tropeços (como comprova o mediano Hush, que também comandou este ano), Flanagan sabe quando seguir convenções do gênero, quando abandoná-las e quando subvertê-las. Assim, se a maioria dos diretores de terror investe pesadamente em acordes súbitos na trilha para provocar sustos, aqui o que vemos é uma aposta no silêncio quase absoluto – e alguns dos momentos mais eficazes da obra trazem apenas o tique-taque enervante de um relógio, ao passo que a trilha, quando finalmente é empregada, surge quando menos esperamos, adicionando, pelo contraste, um toque importante ao pavor vivido pelas personagens.

Aliás, o roteiro escrito pelo próprio cineasta ao lado de Jeff Howard é inteligente ao não se apressar, optando por apresentar com calma ao público a família que ancora a trama e suas circunstâncias pessoais e profissionais para só então, num crescendo constante, introduzir os elementos que as ameaçarão – e mesmo estes surgem de forma aparentemente benigna, ganhando contornos perigosos pouco a pouco. Desta maneira, quando os riscos se tornam reais, já conhecemos a viúva Alice Zander (Reaser) e suas filhas, a adolescente Lina (Basso) e a pequena Doris (Wilson), com as quais passamos a nos importar (e o filme merece créditos por oferecer uma indicação sutil do que está por vir ao enfocar as garotas vendo, na tevê, uma encenação do famoso caso envolvendo a norte-americana Lizzie Borden).

Do mesmo modo, Ouija: Origem do Mal não perde tempo com o tipo de muleta narrativa tão comum neste tipo de longa: a desconfiança dos demais personagens diante dos fatos narrados pela pessoa inicialmente ameaçada pelos espíritos. Aqui, os relatos de Doris são imediatamente aceitos por sua mãe e por sua irmã, permitindo ao diretor que construa a angústia daquelas pessoas não a partir da frustração diante do ceticismo alheio, mas da constatação de que, reconhecendo ou não a existência da ameaça, a família Zander não consegue contorná-la – e o perigo parece rondá-la a cada vez que Flanagan situa Alice, Lina ou Doris diante de aposentos que se estendem ao fundo do quadro, prolongando-se na escuridão meticulosamente preparada pelo diretor de fotografia Michael Fimognari (que já havia feito um trabalho excepcional em O Espelho). É interessante notar, também, como o realizador frequentemente traz alguém em primeiro plano enquanto, lá atrás, fora de foco, alguma ação ocorre sem ser notada ou mesmo ressaltada pela trilha, plantando a tensão com habilidade. Além disso, Flanagan demonstra seu talento ao se lembrar, por exemplo, do terror infantil diante do que pode estar ao pé da cama ou sob esta, ilustrando-o bem ao mover sua câmera lentamente em direção à beirada do colchão de Lina em certo instante da projeção.

Os quadros concebidos por ele, aliás, frequentemente cumprem com êxito suas funções sem que, para isso, precisem chamar a atenção para si mesmos, como no momento em que o jovem Mikey (Mack) visita a casa pela primeira vez e o cineasta inclui o teto baixo em sua composição, tornando-a sufocante, ou na cena em que este efeito é alcançado por um lustre situado sobre as cabeças dos personagens (mas um dos meus planos favoritos é aquele em que vemos Doris dando voz a um espírito enquanto, ao fundo e também em foco, sua irmã tenta atrair sua atenção sem reparar no que ocorre). Além disso, a fotografia é utilizada de forma excelente para retratar o espaço mental de Doris quando vemos a menina coberta de sombras e silêncio num close que, ao se abrir, passa a ser visto sob luzes quentes e sons ambientes que agora trazem a percepção das outras personagens, que falham em notar o que se passa com a garota.

Experiente como montador, Mike Flanagan sabe também como usar o corte ao seu favor ou o momento de adiá-lo: em certo ponto, por exemplo, ele subitamente corta, sem aviso (ou a dica sonora da trilha) para um close aterrorizante, ao passo que, em outro, mantém a câmera presa em Doris enquanto esta recita um longo monólogo sobre estrangulamento, potencializando o choque provocado por uma descrição tão detalhada sair da boca de uma criança.

Aliás, a pequena Lulu Wilson oferece uma performance memorável como Doris, devendo-se a ela várias das passagens mais arrepiantes de Origem do Mal – e o contraste entre sua voz frágil e o olhar cruel que é capaz de lançar aos demais é algo digno de aplausos. Enquanto isso, Elizabeth Reaser compõe Alice como uma mulher dividida entre a dedicação às filhas e a dor pela ausência do marido, ao passo que Annalise Basso evita transformar Lina numa caricatura da mocinha apavorada, fortalecendo-a justamente quando sua mãe parece enfraquecer. Para finalizar, Henry Thomas (para quem não se lembra, estamos falando do melhor amigo do E.T.) vive o padre Tom como um homem sensível e valente, ganhando até a oportunidade de homenagear o padre Merrin de Max von Sydow em seu momento mais icônico de O Exorcista ao se deter diante da casa da família Zander enquanto segura uma maleta.

Neste aspecto, a rápida brincadeira com aquele clássico acaba sendo mais do que apropriada quando percebemos, também, como Flanagan faz questão de incluir, de tempos em tempos, a “marca de cigarro” no canto superior direito do quadro que, no passado, marcava a transição entre rolos durante a projeção em película. Com isso, o cineasta parece afirmar que, mesmo rodado e projetado digitalmente, Origem do Mal reflete seu respeito pelos clássicos do gênero.

Um respeito que aqui se reflete na qualidade de seu trabalho.

Observação: há uma cena pós-créditos ligando esta pré-continuação ao filme de 2014.

21 de Outubro de 2016

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  • Lucas Fernandes de Albuquerque Lira em 02/11/2016 às 00:14

    O que faltou então para o 5 estrelas?

 

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