Poster: Black Mirror - Terceira Temporada

 

 

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Banner: Black Mirror - Terceira Temporada

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
22/10/2016 22/10/2016
Netflix

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Joe Wright, Dan Trachtenberg, James Watkins, Owen Harris, Jakob Verbruggen e James Hawes. Roteiros de Rashida Jones, Michael Schur, William Bridges e Charlie Brooker. Com: Bryce Dallas Howard, Alice Eve, Demetri Goritsas, James Norton, Alan Ritchson, Cherry Jones, Wyatt Russell, Hannah John-Kamen, Wunmi Mosaku, Ken Yamamura, Alex Lawther, Jerome Flynn, Natasha Little, Gugu Mbatha-Raw, Mackenzie Davis, Gavin Stenhouse, Raymond McAnally, Malachi Kirby, Sarah Snook, Madeline Brewer, Michael Kelly, Kelly Macdonald, Faye Marsay, Duncan Pow, Charles Babalola, Elizabeth Berrington e Benedict Wong. 

Em 1986, eu era um moleque de 12 anos de idade quando assisti a Aliens, O Resgate e me vi empolgado com a cena em que o personagem de Paul Reiser faz uma videochamada para a tenente Ellen Ripley de Sigourney Weaver. Em retrospecto, parece uma bobagem, eu sei, mas a ideia de duas pessoas conversando em vídeo em tempo real foi algo que estimulou minha imaginação (eu ainda não havia visto Blade Runner). Assim, confesso que até hoje, sempre que uso o Skype ou o Facetime, sinto certo assombro diante dos avanços tecnológicos que testemunhamos. Esta sensação é algo que vi manifestada no sexto e último episódio da terceira temporada de Black Mirror, quando a detetive vivida por Kelly Macdonald, surpresa diante de certa invenção, comenta: “Nunca esperei me pegar vivendo no futuro, mas aqui estou eu”.

Criada pelo britânico Charlie Brooker, Black Mirror é uma série que compreende como o mundo mudou rapidamente nos últimos vinte e poucos anos ao passar pelas revoluções proporcionadas pela popularização do computador pessoal, da Internet e, mais recentemente, dos smartphones. No entanto, o interesse de Brooker não se concentra na tecnologia em si, mas em seu efeito sobre o indivíduo e a sociedade – e, portanto, como as melhores ficções científicas, emprega estas inovações, reais ou (ainda) imaginárias, para investigar a condição humana.

Com um título que remete às telas dos dispositivos eletrônicos aos quais dedicamos parte cada vez maior de nosso tempo, Black Mirror adota o formato de antologia para investigar as mais diversas facetas de nosso envolvimento com nossos aparelhos e as relações que construímos/desenvolvemos/destruímos através destes - além da autoimagem que estas interações geram em cada um de nós. Para isso, a série muitas vezes precisa apenas expandir conceitos já presentes em nosso cotidiano, como as redes sociais, a realidade virtual ou os drones.

Pense, por exemplo, em quantas vezes você já se viu cercado(a) por pessoas que, com as cabeças tombadas sobre seus telefones, rolavam as timelines do Facebook ou do Instagram distribuindo likes automáticos para fotos e posts que mal chegavam a registrar conscientemente, num gesto automático de aprovação sem significado, como uma versão virtual do “Hum-hum” que tantas vezes emitimos sem sequer notar as palavras às quais estamos reagindo. Parte da motivação para estas “curtidas” vazias, instantâneas, reside num componente claramente narcisístico; na presunção de que nossa aprovação é importante para os demais, como se todos prendessem a respiração à espera do nosso clique magnânimo.

Em Perdedores (Nosedive), primeiro episódio desta temporada, Black Mirror leva isto ao extremo, concebendo um mundo no qual likes e curtidas não são somente indicativos de popularidade, mas do valor de cada um na sociedade. Desta maneira, quando Lacie Pound (Howard) solta uma de suas risadas artificiais (uma construção fantástica da atriz), estas não buscam reconhecer a graça de algo, visando apenas criar uma persona simpática que atraia boas reações e, consequentemente, boas notas. Para os homens e mulheres que povoam o episódio, cada interação representa uma oportunidade de subir em um palco atrás de aplausos e as experiências do dia-a-dia só ganham sentido como performances para o consumo alheio: um prato apetitoso vale menos por seu gosto do que por sua fotogenia e uma prosaica ida ao parque se torna simplesmente uma estratégia de autodivulgação; quem somos importa menos do que a imagem que projetamos.

Somos avatares de nós mesmos; nossos nomes de batismo substituídos por @s e nossas identidades resumidas a breves bios e a links para os perfis que mantemos na outra rede social.

A natureza virtual de nossas identidades é também a base do belo episódio San Junipero, que, de um ponto de vista estrutural, tem início de forma inesperada ao situar sua ação não no futuro, mas no passado, enfocando a jovem e tímida Yorkie (Davis), que, visitando a cidade do título, conhece a vivaz Kelly (Mbatha-Raw). Aos poucos, à medida que compreendemos mais aquele universo, a surpresa cede lugar à melancolia (não se preocupem, não há spoilers) – e ainda que constatemos rapidamente o duplo sentido de vários diálogos (não é tão difícil), o que interessa de fato são, mais uma vez, as relações forjadas entre as personagens, as escolhas que estas fazem e as reflexões despertadas a respeito da autenticidade de experiências que vivemos remotamente. Aliás, esta diferença entre o real e o ilusório representa o centro de outro episódio, Versão de Testes (Playtest), que gira em torno de Cooper (Russell, que se destacou no recente Jovens, Loucos e Mais Rebeldes), um norte-americano que, viajando pela Europa, aceita participar da avaliação de um novo jogo de realidade virtual, criando uma incerteza constante no espectador acerca do que está testemunhando – uma dualidade muito bem ressaltada por planos que criam rimas visuais interessantes (como os dois nos quais a câmera, situada no alto de uma escadaria, enfoca Cooper no andar inferior). Mesmo instigante, este é, ao lado de Cala a Boca e Dança (Shut Up and Dance), um dos episódios menos ambiciosos de um ponto de vista temático – e este último só ganha força mesmo graças à revelação final, que usa nossa tendência a avaliar alguém pela aparência para criar um choque curioso.

Odiados pela Nação (Hated in the Nation), último e mais longo episódio da temporada, vai na direção contrária e encaixa, em seus 90 minutos, várias discussões relevantes na atualidade, desde a insistência do Estado em monitorar seus cidadãos (como escancarou Edward Snowden) até a crueldade fomentada pelo anonimato proporcionado pela Internet. Aqui, as investigadoras interpretadas por Kelly Macdonald (com seu adorável sotaque escocês) e Faye Marsay buscam desvendar por que e como alguns indivíduos massacrados nas redes sociais vêm morrendo de forma inexplicável. Com esta premissa, Black Mirror discute a aparente necessidade da Internet de eleger novas polêmicas e novos vilões com uma frequência alarmante – um fenômeno que o excelente jornalista britânico Jon Ronson explorou em seu livro “So You’ve Been Publicly Shamed” e que a série potencializa ao apontar os efeitos nocivos reais (mesmo que aqui imensamente exagerados) provocados pelos linchamentos virtuais destinados a qualquer um que cometa o menor erro de julgamento.

De todo modo, por mais que tenha apreciado todos os episódios discutidos acima, foi mesmo o quinto, Engenharia Reversa (Men Against Fire), que mais me instigou ao reconhecer não só a empatia natural de nossa espécie como também as condições necessárias para anulá-la. Quando nascemos, não trazemos preconceitos ou sentimentos de superioridade; estes surgem à medida que os adultos que nos cercam poluem nossas mentes com suas certezas tolas acerca do próximo – certezas normalmente motivadas apenas pelo que é “diferente”.

Assim, quando alguém agride um homossexual, faz um discurso racista ou diminui todo muçulmano à condição de terrorista, a violência ali representada é, em última análise, uma manifestação de medo que, por sua vez, tem origem na falta de empatia diante da diferença. Sob esta ótica, o soldado Stripe (Kirby), ao ser enviado para eliminar “baratas”, está simplesmente agindo sob a motivação do discurso de ódio empregado para desumanizar o oponente: neste aspecto, os grunhidos dos monstros deformados que o sujeito persegue poderiam ceder lugar perfeitamente a um  “Allahu akbar”.

Aliás, frequentemente cedem. Se o passageiro de um avião exige a retirada de um muçulmano do voo, assim age por encarar o outro como um sub-humano, como um integrante de outra espécie – e uma evidência disso é perceber como, de certo modo, os somalis de Falcão Negro em Perigo, os negros de O Nascimento de uma Nação e os vietnamitas de Os Boinas Verdes poderiam ser facilmente substituídos por hordas de zumbis sem afetar a dinâmica daqueles longas. Não é à toa, tampouco, que Stripe e seus companheiros não sentem cheiro nem ouvem boa parte dos sons do ambiente, já que o ódio sufoca os sentidos, distanciando-nos dos alvos de nossa intolerância e anulando aquilo que poderia nos lembrar de que somos semelhantes.

É por isso, também, que a propaganda é fundamental na guerra: se enxergamos os inimigos como aberrações, destruí-los passa a ser tarefa similar ao ato de esmagar um inseto, enquanto as notícias acerca desta destruição chocam menos do que aliviam. A mesma repulsa devotada aqui às “baratas” é devotada cotidianamente, em nosso mundo, a grupos que são resumidos a substantivos como “refugiados”, “gays” ou “favelados” – e se há quem veja com indiferença a foto de um garotinho sírio ensanguentado ou reaja à execução de um menino de dez anos com um “viva a PM!”, é porque a empatia, esta qualidade que nos faz humanos, há muito deixou de existir em seu cotidiano.

Empatia que, felizmente, não falta a Black Mirror.

23 de Outubro de 2016

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Comente!

  • MARINA OLIVEIRA em 01/11/2016 às 08:51

    Gostei demais dessa temporada. Fiquei com receio quando vi o número de episódios pois sempre atribuí o sucesso da série, dentre muitos feitos, ao fato de sempre ter poucos episódios muito bem dirigidos e roteirizados. Para mim a concisão da série era a fórmula de sua qualidade.
    Felizmente estive errada esse tempo todo. A gama de temas a serem abordados é interminável. Adorei a crítica. Vamos esperar por mais no ano que vem com toda certeza.

  • Marcos Davi Gonçalves de Oliveira em 31/10/2016 às 20:27

    Pablo, você acha que seriados, no geral, são arte? Ou só algumas séries acabam escapando e indo ao encontro da arte, como Breaking Bad.

  • THIAGO LUCIO OLIVEIRA DA SILVA em 24/10/2016 às 06:44

    Essa série é ótima mesmo. Intrigante e instigante desde a primeira temporada, mas essa terceira é a mais homogênea. Confesso que não dou tanto crédito para o episódio militar, pois do ponto de vista narrativo algumas analogias são óbvias, previsíveis e conta com uma carga alta de diálogos expositivos, mas ainda assim o efeito da crítica é devastador... Meus preferidos é o da Bryce, San Junipero e Odiados Pela Nação.

    BLACK MIRROR - 3ª TEMPORADA

    Depois de duas temporadas intrigantes e inquietantes, embora irregulares, “Black Mirror” alcança um nível extraordinário de criatividade, sofisticação e de qualidade em sua terceira temporada. A série criada por Charlie Brooker (e mais uma vez roteirizada pelo mesmo) alcança o seu mais alto nível de maturidade e relevância artística já que lança um olhar bastante peculiar sobre a sociedade e o mundo que estamos construindo para as novas gerações e para tudo aquilo que a tecnologia pode servir com um alcance inimaginável, seja para o bem, seja para o mal, no alcance de um clique ou como uma arma.

    Dirigido por Joe Wright (“Orgulho e Preconceito”, “Desejo e Reparação”), o primeiro episódio entitulado “Perdedor” acompanha a jovem Lacie (Bryce Dallas Howard), em um futuro não muito distante, em que a qualidade das relações sociais é medida através das qualificações que as outras pessoas lhe dão através do uso de um aplicativo de rede social que lhe concede notas ao seu comportamento. Através de um belíssimo trabalho de fotografia que explora tons de cores leves e uma direção de arte meticulosa e minimalista, auxiliada por efeitos especiais discretos e funcionais, o episódio funciona como uma alegoria da nossa atual sociedade que parece viver em função do status. O status social virou o novo capital, a nova moeda de troca dessa sociedade moderna e as pessoas são classificadas de acordo com o número de estrelas que conquistou ao longo da vida, indo de 0 a 5 estrelas. Essa classificação é o que permite que pessoas acessem determinados andares de um prédio, entrem em estabelecimentos e/ou tenham acessos a melhores serviços, logo para que Lacie adquira uma residência melhor para viver, já que o contrato de aluguel da casa que divide com o irmão está prestes a vencer, ela precisa aumentar a nota do seu status e a oportunidade de ser dama de honra de uma velha amiga da infância (Alice Eve, ótima), extremamente popular entre os mais populares, pode ser a sua chance de ouro. A jornada trágica de Lacie permite que gradativamente ela se distancie cada vez mais do seu objetivo inicial, porém é justamente esse martírio que vai tornando-a mais humana, mais transparente, sem a necessidade de utilizar máscaras e/ou se sustentar através de falsas impressões ou das opiniões de terceiros. Funcionando também como uma alegoria sobre as classes sociais, o roteiro escrito por Brooker ao lado de Rashida Jones e Michael Schur se mostra muito bem equilibrado pela direção sóbria de Wright que faz com que o episódio trace um arco dramático cínico, sensível e complexo extremamente competente e contundente, além de trazer uma atuação extraordinária por parte de Bryce Dallas Howard que sustenta a doçura, a insegurança e a revolta da sua personagem com uma condução dramática impecável, delicada, sensível, arrebatadora, avassaladora. É com louvor um dos pontos mais altos da sua carreira, afinal demonstra o seu brilhantismo como atriz em um episódio que beira a perfeição estética e narrativa. (9.5/10)

    O segundo episódio explora a catarse através do suspense e do terror. Em “Versão de Testes”, Cooper (Wyatt Russel, filho de Kurt Russel e Goldie Hawn), um jovem viajante americano, aceita participar de um novo tipo de jogo interativo que explora o conceito de realidade virtual e acaba sendo desafiado a enfrentar um universo em que ele já não consegue mais distinguir o que é realidade ou não. Aqui, a narrativa demora a engrenar já que o roteiro antes de colocar o personagem dentro do jogo precisa estabelecer o “background” do personagem, entenda-se o seu repertório de viagens, a sua interação com uma jovem inglesa e até mesmo o seu passado traumático para que sejam devidamente explorados na realidade virtual. O personagem participa de três testes e cada um deles leva ao outro, porém o principal se passa dentro de uma casa abandonada onde ele irá lidar com seus próprios medos, sejam aqueles mais corriqueiros até outros com maior complexidade e carga emocional. Wyatt Russel demonstra ser um jovem ator bastante esforçado, ainda mais que ele acaba tendo que lidar com o fato de que seu personagem passa boa parte do episódio sozinho e precisa se comunicar e/ou descrever o que está acontecendo em cena, o que acaba sendo uma “muleta narrativa” limitada e em certos momentos cansativa. De qualquer forma, o episódio dirigido pelo competente Dan Trachtenberg (“Rua Cloverfield, 10”) não vai muito além do que sugere a premissa e mesmo sem alcançar nenhuma nota acima da média cumpre o seu propósito de maneira regular e moderada, mesmo que o seu clímax queira se favorecer de reviravoltas que realcem certa criatividade, mas que na verdade tornam a experiência apenas levemente curiosa e facilmente descartável. (6.5/10)

    “Cala a Boca e Dance” é o terceiro episódio da temporada apresenta em sua narrativa um jogo mórbido e doentio que envolve uma série de personagens em uma rede de chantagens, forçando-os a realizarem uma série de tarefas sob a ameaça de que seus podres sejam revelados na Internet. O centro da narrativa é Kenny (Alex Lawter), um jovem introspectivo que passa a ser ameaçado depois que um vírus invade o seu computador e os “hackers” ameaçam divulgar um vídeo dele se masturbando na frente do computador. Sem ser absurdamente criativa, a trama avança e outros personagens igualmente ameaçados vão sendo apresentados e as tarefas vão se tornando mais críticas, especialmente para Kenny e Hector (Jerome Flynn), um homem de família que marcou um encontro com uma prostituta sem saber que estava sendo enganado. O maior apelo deste episódio é fazer com que o espectador compartilhe da tensão e do desespero vivido pelos personagens, estabelecendo uma natural relação de empatia para em seguida se ver confrontado com esse sentimento a partir do momento que os segredos de cada um deles veem à tona. Quem são as verdadeiras vítimas? Até que ponto a tortura psicológica é justificável? Será que em determinado momento não é o próprio espectador que passa a assumir a posição de inquisidor e/ou se colocar na pele do chantagista? Entre as atuações, o principal destaque fica por conta da corajosa performance de Alex Lawter que emociona e chama a atenção pela sua entrega e intensidade dramática, mesmo que o jovem ator cometa alguns excessos que às vezes deixam o personagem um pouco fora do tom. Já Jerome Flynn parece pouco à vontade em cena com uma atuação irregular e limitada, sendo facilmente eclipsado pelo jovem companheiro de cena. É um episódio eficiente, dinâmico, com certa dose de ação e cinismo e uma resolução satisfatória. (7.0/10)

    O quarto episódio é um dos mais emocionais da temporada e apresenta uma versão lúdica e poética sobre a passagem entre a vida e a morte. “San Junipero” inicia-se em meados da década de 80 e marca o primeiro encontro entre a jovem e recatada Yorkie (Mackenzie Davis) e a independente e descolada Kelly (Gugu Mbatha-Raw) na cidade que dá nome ao título do episódio. Em um primeiro momento, o episódio parece deslocada do universo de “Black Mirror”, porém gradativamente a narrativa vai dando pistas que geram certa incerteza quanto à verdadeira natureza do tempo em que a história transcorre já que vemos Yorkie em San Junipero em intervalos de uma semana, sem envelhecimento, mas em diferentes épocas, como indicam os cartazes dos filmes “Pânico” (1996) e “A Identidade Bourne” (2002), em busca de um reencontro com Kelly até que ela reaparece, mas extremamente arredia diante da possibilidade de se envolver novamente com Yorkie. E a partir daí o episódio apresenta o seu principal segredo que insere a narrativa definitivamente em um futuro que oferece uma nova perspectiva para a trama e para a vida das personagens. Charlie Brooker cria uma história de amor sensível e envolvente a partir da trajetória de duas mulheres marcadas por tragédias e a alternativa de futuro oferecida a elas tem uma marca melancólica, porém não deixa de oferecer um conceito intrigante e fascinante em sua complexidade, afinal envolve elementos éticos, morais e emocionais riquíssimos. Em termos narrativos, há como se discutir a escolha tão tardia de Yorkie, afinal a sua tragédia ocorreu há muito tempo, logo seu dilema seria evitável e/ou passível de algum tipo de antecipação, porém o apelo do episódio supera esse “furo”. Mackenize Davis oferece uma atuação doce e deslumbrante, conduzindo com suavidade e leveza uma personagem feminina marcada por uma influência repressiva dos pais, mas que gradativamente amadurece e vai se tornando cada vez mais fascinada por Kelly. Esse deslumbramento romântico é muito bem defendido pela jovem atriz além de revelar o tom sensível do trabalho de direção de Owen Harris que por sua vez poderia ser mais ousado nas sequências mais românticas e intensas do casal. A jornada dramática de Kelly também é um dos pontos altos da narrativa, afinal oferece uma reflexão sobre os diferentes tipos de decisão que as pessoas tendem a tomar diante do dilema estabelecido pela premissa futurista e sobre o trauma que pode provocar na vida das outras pessoas. Gugu Mbatha-Raw oferece um trabalho irregular na sua versão jovem, afinal funciona muito bem quando compõe Kelly como o interesse romântico e “sexy”, mas diante da catarse dramática que envolve a sua personagem, ela peca um pouco pela falta de sutileza, o que deixa a sua atuação um tanto quanto aborrecida. Ainda assim, em suas passagens no futuro, Mbatha-Raw se mostra muito segura e competente. O desfecho é extremamente envolvente e emocional, mas confesso que esperava que o episódio permitisse que acompanhássemos o ponto de vista de Kelly caso ela tivesse tomado outra decisão (com direito até mesmo a um duplo reencontro), porém essa versão seria mais adequada a uma versão espiritual de “Black Mirror”, o que não é o caso. Da maneira como foi encerrado, o episódio se mostra mais coerente com a proposta cínica e melancólica da série embora explore ao máximo o potencial romântico da premissa estabelecida. (9.0/10)

    Dirigido com eficiência por Jakob Verbruggen, “Reengenharia” é o episódio militar da temporada e apesar da sua alegoria ser óbvia e autoexplicativa, o apelo dele é suficientemente forte e contundente. Em um futuro impreciso, soldados são escalados para dizimar a ameaça de uma raça de seres que costuma ser denominada de “baratas”. Stripe (Malachi Kirby) é um jovem soldado em sua primeira missão que após contabilizar a morte de suas duas primeiras “baratas” acaba sofrendo os reflexos do que parece ser uma contaminação, porém é justamente a partir desse evento que ele passa a ver a realidade como ela é de verdade. A partir desse momento já é até possível se antecipar com relação à principal revelação da narrativa, porém a discussão que se estabelece a partir do encontro de Stripe e de uma barata assim como o dele com um terapeuta militar (Michael Kelly) permitem que se estabeleça um paralelo com os atuais processos migratórios, especialmente os que envolvem os países da Europa, a natureza da guerra e/ou de qualquer conflito armado com a devida demonização do inimigo e o próprio uso da tecnologia para fins militares que desvia os envolvidos cada vez mais da sua própria humanidade com propósitos seletivos. O roteiro tem alguns diálogos bastante expositivos, o que acaba prejudicando um pouco, porém o episódio é criativo em sua abordagem e corajoso em suas metáforas, logo não é à toa que cabe ao soldado negro o choque de consciência tão necessário ao conceito do episódio, afinal ele carrega o seu próprio histórico de discriminação. Malachi Kirby se mostra um jovem ator seguro e carismático, Michael Kelly empresta a sua gélida e marcante presença de cena com mais uma atuação impecável e Madeline Brewer também merece destaque na pele de Rainman, uma soldada sádica e que se torna a principal ameaça de Stripe. O melancólico desfecho é bastante simbólico diante da exposição do argumento apresentado neste eficiente episódio. (7.5/10)

    “Odiados Pela Nação” é o último episódio da temporada e potencializa o veneno das redes sociais em uma trama policial absurda, porém a construção da narrativa legitima a sua premissa e faz com que o anonimato, o abuso das ofensas feitas na Internet e a banalização das “hashtags” sejam levados às últimas consequências. A experiente investigadora Karin Parke (Kelly MacDonald) e a novata Chloe Blue Perrine (Faye Marsay) são envolvidas em uma série de assassinatos que, curiosamente, atingem pessoas que foram difamadas nas redes sociais através de uma “hashtag” específica, sendo que o modo operante do crime pode envolver uma importante empresa de tecnologia que criou um mecanismo para beneficiar o ecossistema do planeta, mas que pode ter sido facilmente “hackeada” por um novo tipo de criminoso: o assassino em série on-line. Dirigido por James Hawes, o episódio apresenta uma evolução investigativa bastante competente e que vai instigando gradativamente, logo cada um dos avanços vai tornando o cenário mais atraente e intrigante e quando a trama sugere seus pontos mais absurdos, amparados pela sua natureza tecnológica, a conexão já está para lá de estabelecida (e certamente você nunca mais verá um enxame da mesma forma). Assim como ocorre em todos os outros episódios de “Black Mirror”, não apenas nesta, mas em todas as temporadas, o futuro e as particularidades técnicas tornam-se críveis e palpáveis, pois são ilustradas dentro de um universo muito bem orquestrado, ou seja, compra-se a ideia por mais absurdo que seja o exercício de futurologia proposto pela narrativa, por mais que seja mais ficção do que ciências. Aqui não é diferente e o efeito é muito bem sustentado, especialmente por se tratar de uma trama investigativa policial, ainda assim algumas deduções óbvias demoram a serem confirmadas, como a lista final, por exemplo, enquanto outras facilmente apontadas são discutíveis, como a de uma localização por causa de uma “selfie”. Kelly MacDonald faz um trabalho discreto e competente, explorando de maneira sutil o cinismo da sua personagem, porém Faye Marsay revela-se a grande surpresa do elenco, oferecendo uma atuação segura e energética na pele da obstinada novata, especialista em tecnologia, cujo arco dramático é formidável do ponto de vista narrativo. Contando com um clímax tenso, nervoso e angustiante, “Odiados Pela Nação” deixa um recado triste, melancólico e arrebatador. (9.0/10)

    Ao final, a terceira temporada de “Black Mirror” deixa a nítida sensação de ser a mais homogênea entre todas as temporadas com um conjunto de episódios de ótima qualidade e que soube explorar, cada qual dentro da sua proposta, um conceito acerca da tecnologia que certamente diz muito sobre a maneira como o ser humano se relaciona com o mundo a sua volta através de uma visão aguçada, crítica e cínica.

    NOTA: 8.0/10

  • Silvana em 23/10/2016 às 12:01

    Não conhecia a série e vou buscá-la o mais rápido possível. A forma que vc a descreve desperta um desejo imediato. Mas o que mais chama a atenção é a profundidade de suas análises. Nunca canso de me surpreender!

 

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