Críticas por Pablo Villaça

Poster: Sense8 - Primeira Temporada
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
13/11/2016 05/06/2015
Distribuidora
Netflix

 

 


Sense8 - Primeira Temporada
Sense8 - First Season

Sense8 - Primeira Temporada

Dirigido por Lany Wachowski, Lilly Wachowski, James McTeigue, Tom Tykwer. Com: Jamie Clayton, Brian J. Smith, Max Riemelt, Tuppence Middleton, Tina Desai, Doona Bae, Aml Ameen, Miguel Ángel Silvestre, Freema Agyeman, Alfonso Herrera, Terrence Mann, Eréndira Ibarra, Ness Bautista, Naveen Andrews e Daryl Hannah.

Uma das características mais importantes que temos, como humanos, é a capacidade de empatia. Sem esta, somos indivíduos isolados dentro de nossas próprias mentes e experiências – e até mesmo o amor será um sentimento de puro egoísmo, que importará apenas em função de como nos faz sentir, não de como estabelece uma ligação significativa com outra pessoa. Sem empatia, encaramos o diferente com medo e, consequentemente, hostilidade, já que tememos o que desconhecemos e odiamos experimentar temor. Sem empatia, o outro é apenas… “algo”. Um algo cujos sentimentos, cujas dores, amores, vivências, sonhos, medos e esperanças não importam, pois soam como conceitos apenas abstratos, distantes e irrelevantes. A falta de empatia está na raiz da homofobia, da misoginia, do racismo e do irmão destes, a sociopatia.

Um indivíduo sem empatia é um indivíduo que enxerga o restante do mundo como algo que só interessa como forma de viabilizar seus próprios interesses ou como obstáculos a estes (e que, portanto, devem ser destruídos).

O fato de ser homem cis hetero branco não deveria me impedir, contudo, de entender que uma mulher trans homo negra é minha semelhante. Somos irmãos de espécie. Quando choro por amor, sinto a dor que ela um dia já sentiu, sente ou sentirá. Quando temo a morte, divido isto com a humanidade.

Sense8 é uma série construída por, com e sobre empatia. Usa o verniz da ficção científica, o entretenimento da ação, o gancho do suspense e mesmo a leveza da comédia, mas por baixo de todas estas roupagens há a alma de artistas que querem levar o público a compreender que não apenas dividimos este planeta, mas que somos os outros. O assassinato de um homossexual por amar alguém que enxerga como pertencente ao mesmo gênero não é uma tragédia individual, mas de toda a humanidade. Uma mulher torturada por um parceiro abusivo é uma falha da espécie. Uma criança negra que cresce ciente de que tem muito mais chance de ser morta pela polícia do que uma caucasiana é uma ferida profunda e infeccionada em nossa evolução.

Em 2015, porém, temos deputados que constroem a carreira a partir do ódio que alimentam e estimulam contra minorias. Temos líderes religiosos que, em vez de pregarem o “amai ao próximo como ama a si mesmo”, preocupam-se apenas em acumular dízimos enquanto vomitam intolerância e espalham a ignorância como um vírus. Temos um congresso que não hesita em exigir investigação sobre o “sarcasmo contra a Igreja” ao mesmo tempo em que realiza sessões de reza numa casa legislativa que constitucionalmente deveria preservar a laicidade.

Mas ainda mais trágico: num mundo que estabeleceu conexões imediatas entre indivíduos espalhados por todo o planeta, vemos a mesma tecnologia que deveria nos aproximar sendo empregada para promover o dissenso e discursos de ódio que transformaram qualquer espaço de comentário na Internet em um esgoto no qual o veneno flutua livremente.

Aliás, não é difícil perceber como as irmãs Wachowski conceberam a ligação telepática entre seus oitos personagens principais como um eco da Internet e a perseguição que estes passam a sofrer como uma metáfora da intolerância, do preconceito e da ignorância destinados aos que julgamos diferentes. Não é à toa que Sense8 é uma das produções mais preocupadas com a diversidade que atingiram o grande público em um longo tempo: a galeria de indivíduos criada por seus realizadores não traz apenas caucasianos, negros, asiáticos; traz também personagens com diferentes identidades sexuais, étnicas e religiosas.

E que doem ou sorriem pelos mesmos motivos.

Adotando uma estrutura narrativa incrivelmente ambiciosa que se materializa especialmente na montagem brilhante que certamente exigiu uma preparação dificílima (mal consigo imaginar a complexidade do cronograma de filmagens), Sense8 traz conversas ambientadas simultaneamente em países diferentes e nas quais um plano pode ocorrer à noite em Seul e seu contraplano, durante o dia em Chicago – uma dinâmica que jamais soa confusa graças à clareza com que o conceito é desenvolvido. Além disso, os vários interlúdios musicais (e não só a trilha do projeto é belíssima, mas também as canções incidentais selecionadas para sequências-chave) são instrumentais ao ilustrarem a proximidade psicológica e emocional entre indivíduos com vivências tão diversas – e, claro, é emocionante perceber como todos atravessamos os mesmos dilemas por mais diferentes que nos julguemos. Aqui, um queniano sofre pela doença da mãe; ali, uma sul-coreana ressente o descaso do pai; acolá, uma indiana debate-se com relação à generosidade de um homem que merecia seu amor, mas que, por essas coisas da vida, não consegue despertá-lo. Em um instante, uma islandesa se droga para anestesiar perdas insuportáveis; em outro, uma norte-americana transforma a rejeição sofrida pela família, que não aceita sua identidade feminina, em combustível para seu ativismo a fim de ajudar a comunidade LGBT que a acolheu.

Enquanto desenvolve sua trama, expande seu conceito básico e investe no desenvolvimento de seus personagens de forma excepcional, Sense8 também se mostra uma série com um otimismo do qual eu gostaria de compartilhar, já que, entre outras coisas, parece acreditar que a dor experimentada por um homem ao se ver sem seu parceiro é algo que encontrará a simpatia do público em vez de despertar protestos de quem só aceita a validade do amor heteronormativo – um otimismo que as mensagens de ódio recebidas pela Netflix, responsável pelo projeto, já se encarregaram de provar incorreto. Aliás, se vivêssemos numa sociedade minimamente igualitária, uma atriz com a beleza, o talento e o carisma de Jamie Clayton chegaria ao fim de 2015 como a megaestrela que merece ser em vez de ser obrigada a dar repetidas entrevistas sobre por que seria capaz de interpretar qualquer tipo de personagem feminino se tivesse a oportunidade de fazê-lo.

Sense8 é, ao mesmo tempo, uma produção memorável e um atestado de como ainda somos atrasados. Mas é, também, um pequeno milagre apenas por existir e trazer personagens tão complexos, tão únicos, tão belos, tão… humanos.

E a falha de muitos em reconhecer a humanidade destes indivíduos é a maior justificativa para que uma travesti se represente crucificada – pois, como o personagem bíblico que interpreta, ela e todos que representa são vítimas constantes da ignorância, da crueldade e do desprezo daqueles que não hesitariam em eliminá-los se assim pudessem.

Mas não podem. E Sense8 é uma das provas de que, por mais destrutivos que sejam para evitar seu destino, os intolerantes estão fadados apenas ao desprezo da História.

11 de Junho de 2015

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.