Críticas por Pablo Villaça

Poster: Desaparecido - Um Grande Mistério
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
15/11/2016 12/03/1982
Distribuidora
Universal

 

 


Desaparecido - Um Grande Mistério
Missing

Desaparecido - Um Grande Mistério

Dirigido por Costa-Gavras. Roteiro de Costa-Gavras e Donald Stewart. Com: Jack Lemmon, Sissy Spacek, John Shea, Melanie Mayron, Charles Cioffi, David Clennon, Richard Venture, Jerry Hardin, Richard Bradford, John Doolitle, Joe Regalbuto, Keith Szarabajka, Janice Rule, Martin LaSalle.

Quando Desaparecido - Um Grande Mistério foi lançado, em 1982, o governo norte-americano tomou uma atitude raríssima, fazendo pronunciamentos públicos afirmando categoricamente que as acusações que o filme trazia eram falsas. As acusações, claro, diziam respeito ao papel que os Estados Unidos teriam desempenhado no golpe militar comandado por Pinochet no Chile, apenas nove anos antes, e na morte do jovem jornalista Charles Horman, que desapareceu logo nos primeiros dias da derrubada de Salvador Allende pelo exército. 

Baseado em um livro investigativo escrito por Thomas Hauser, esta produção dirigida pelo lendário Costa-Gavras (seu primeiro trabalho em Hollywood) acabou sendo processada - ao lado de Hauser - pelo embaixador norte-americano retratado na história, o que levou o filme a ser retirado de circulação de 1987 a 2006, quando o estúdio venceu o caso e o relançou. Pois se no início da década de 80 o diretor e o estúdio (na realidade, a MCA, que era dona da Universal) precisaram de coragem para enfrentar o governo, anos depois as acusações presentes na obra seriam praticamente todas confirmadas quando milhares de documentos até então sigilosos foram divulgados, apontando não só o apoio incondicional da CIA à ditadura de Pinochet, mas também seus esforços para impedir que Salvador Allende fosse eleito e, falhando nisso, para desestabilizar seu governo, contribuindo também com verbas milionárias para os militares nos dois anos anteriores ao golpe.

No entanto, Desaparecido não é apenas um filme político; é um drama que envolve o espectador através dos esforços feitos pelo pai e pela esposa de Charles para encontrá-lo em meio ao caos do pós-golpe e à frustração provocada pelas ações da embaixada norte-americana no Chile. Vivido por um de meus atores favoritos do Cinema, Jack Lemmon, o sr. Ed Horman é um homem conservador que encara a vida do filho e da nora na América Latina como uma manifestação de imaturidade e indolência - e, assim, ao se ver obrigado a viajar até Santiago em busca do rapaz (Shea), sua primeira reação é uma mistura de impaciência e frustração diante do que considera um mero inconveniente. Condicionado a respeitar as autoridades e a esperar o melhor de seu governo, Ed não compreende a hostilidade da nora, Beth (Spacek), ao conversar com os funcionários da embaixada, já que simplesmente não lhe ocorre que estes poderiam mentir para um cidadão do próprio país.

É aí que o talento de um Jack Lemmon se mostra instrumental: sem histrionismos ou longos monólogos dramáticos, ele vai gradualmente alterando a postura do personagem diante do que observa, manifestando estas pequenas mudanças através de um breve gaguejar aqui, de um olhar de espanto e confusão ali ou de um tom de voz subitamente mais severo acolá. Da mesma maneira, sua relação com a nora atravessa um rico e tocante arco dramático graças à dinâmica entre Lemmon e Spacek, que vai da hostilidade inicial (sugerindo anos de pequenos ressentimentos acumulados) à cumplicidade construída pelos obstáculos que enfrentam juntos, passando por um carinho genuíno que desenvolvem um pelo outro. Spacek, aliás, enriquece sua composição de forma inteligente: se inicialmente Beth é uma jovem amedrontada e até mesmo infantil em sua dependência do marido, aos poucos ganha uma força incontestável – e notem, por exemplo, como seus saltos de susto com cada disparo ouvido após o golpe logo cedem lugar a uma quase indiferença que denota seu costume com os tiroteios espalhados pela capital chilena.

Mas talvez o feito mais notável do longa seja o trabalho de reconstituição do Chile no pós-golpe feita por Costa-Gavras e sua equipe: usando o México como substituto do país que seguia comandado por Pinochet (e que baniria o filme durante todo o tempo em que esteve no poder), Desaparecido mergulha o espectador no massacre que se seguiria ao ataque ao Palácio de La Moneda em 11 de Setembro de 1973 e que resultaria no assassinato de mais de três mil pessoas. Dos tanques cruzando as ruas à presença opressiva de soldados armados em cada esquina, Costa-Gavras ilustra de forma chocante o pavor da população diante do toque de recolher e da visão recorrente de cadáveres ensanguentados espalhados pelas vias públicas. Além disso, o cineasta nos leva para o interior do Estádio Nacional, que os militares usariam para depositar milhares de presos, o que resulta em uma das cenas mais comoventes da obra: a tentativa esperançosa de Ed e Beth de encontrar Charles entre aquelas pessoas.

Aliás, a riqueza de detalhes na abordagem narrativa não para por aí: é fascinante, por exemplo, constatar como o ótimo roteiro de Costa-Gavras e Donald Stewart explica a presença do jovem casal e de seus amigos no Chile através de um comentário quase trivial sobre a admiração que estes tinham pelo que estava sendo construído ali por Allende; da mesma forma, em outro momento, um militar norte-americano observa como os “caminhoneiros foram os verdadeiros heróis” do golpe, numa menção breve e certeira acerca do locaute que precedeu a investida de Pinochet. São falas rápidas, que podem facilmente passar despercebidas, mas que comprovam a compreensão dos realizadores acerca do assunto que estão abordando – algo também demonstrado na cena em que Charles repara em uma festa que ocorre numa mansão e cujos participantes (visivelmente abastados) interrompem a dança, a conversa e a bebedeira para aplaudir um comboio militar que passa na rua. Para encerrar, o filme inclui até mesmo uma referência – igualmente sutil – à presença de torturadores brasileiros no Estádio Nacional quando ouvimos um oficial fazendo triagem de prisioneiros e falando em português.

Ao mesmo tempo, Costa-Gavras é capaz de criar imagens que angustiam mais pela sensação que evocam do que pelo revelam de um ponto de vista histórico – como o plano que, surgindo como um pesadelo desperto, acompanha um cavalo branco que galopa sozinho e assustado por uma avenida enquanto soldados em um jipe o perseguem disparando metralhadoras para o alto, numa representação simbólica bela e inspirada da barbárie ali ocorrida.

Resultado de uma profunda consciência política e da pura humanidade de seu diretor, Desaparecido é um filme que segue relevante 34 anos depois de seu lançamento e 43 anos depois dos eventos que retrata, sendo difícil imaginar que hoje em dia algum estúdio teria coragem de produzir algo similar e – ainda mais admirável – defendê-lo dos ataques do governo com tamanho empenho.

Pois foi graças a esta bravura que o Cinema, esta máquina de gerar empatia (como dizia o mestre Roger Ebert), permite que sintamos a força do olhar dolorido do personagem de Jack Lemmon à medida que se dá conta de que sua busca resultará em dor e que esta será o trágico reflexo de uma brutalidade ainda maior, mais desumana e tristemente real.

15 de Novembro de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.