Críticas por Pablo Villaça

Poster: 3% - Primeira Temporada
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
25/11/2016 25/11/2016
Distribuidora
Netflix

 

 

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3% - Primeira Temporada
Três por cento - Primeira Temporada

3% - Primeira Temporada

Dirigido por César Charlone, Jotagá Crema, Daina Giannecchini e Dani Libardi. Roteiro de Pedro Aguilera, Cássio Koshikumo, Ivan Nakamura, Denis Nielsen e Jotagá Crema. Com: Bianca Comparato, João Miguel, Michel Gomes, Rodolfo Valente, Vaneza Oliveira, Viviane Porto, Mel Fronckowiak, Celso Frateschi, Luciana Paes, Zezé Motta e Sérgio Mamberti.

(O texto abaixo contém spoilers da primeira temporada da série.)

Quando escrevi sobre o piloto da série 3%, há nada menos do que cinco anos, comentei que se tratava de um projeto promissor que, apesar de alguns problemas, era instigante o bastante para despertar a vontade de acompanhar outros episódios. Pois agora que a Netflix produziu a criação de Pedro Aguilera (codirigida por Jotagá Crema, Dani Libardi, Daina Gianneccchini e ninguém menos do que o mestre César Charlone), é possível avaliar se eu estava certo em antecipar a continuação da história, que se passa num mundo distópico, dividido em “Lado de Cá” e “Lado de Lá” (ou Maralto), e que oferece uma única possibilidade para que os habitantes do lado miserável passem para o outro: um processo de seleção aplicado quando os indivíduos completam 20 anos de idade e que resultará na escolha de 3% destes para a viagem.

Pois bem: se, por um lado, alguns dos problemas que apontei no piloto (como a narração em off e a montagem da sequência envolvendo os cubos) foram eliminados na versão final, por outro, uma série de novos equívocos surgiram no lugar. E destes, o mais grave talvez seja a direção de elenco, já que até mesmo atores comprovadamente talentosos como João Miguel, Zezé Motta e Sérgio Mamberti surgem artificiais em cena – e não só na maneira pouco confortável com que recitam suas falas, mas também na composição dos personagens, que saltam de um sentimento a outro sem explicações aparentes.

Tomemos Mamberti como exemplo: vivendo o antigo responsável pelo processo agora comandado por Ezequiel (Miguel), ele é retratado como uma ameaça, enviando a espiã Aline (Porto) para encontrar falhas no trabalho de seu substituto. A mulher, contudo, desenvolve seus próprios objetivos, enviando um relatório positivo sobre o que testemunhou – e, em vez de mostrar-se surpreso ou ressentido, o sujeito continua a agir como se nada houvesse ocorrido, prosseguindo em conversas conspiratórias com sua antiga cúmplice. Aliás, a própria Aline vem a protagonizar um momento absurdo quando, ao ser acusada de assassinar um funcionário do Processo, pede para conversar com a viúva deste sob o pretexto de querer desculpar-se – e, inacreditavelmente, a outra aceita visitá-la, iniciando a conversa com um “Falaram que você queria me pedir desculpas” casual, como se sua interlocutora houvesse apenas derrubado uma taça de vinho em sua roupa ou a insultado acidentalmente.

Mas se um preparador de elenco competente como Sérgio Penna poderia certamente contribuir neste aspecto (aliás, deixo como dica para a segunda temporada), menos fáceis de corrigir são as trajetórias dos personagens concebidas pelo roteiro. Observem, por exemplo, Rafael (Valente): apresentado como um sujeito antipático, hostil e inescrupuloso - leia-se: uma caricatura -, ele subitamente se torna mais íntegro no meio da temporada, passando por uma alteração brusca que, visando torná-lo mais complexo, apenas ressalta a falta de sutileza do que viera antes. Para piorar, a eventual revelação sobre seus verdadeiros propósitos acaba por criar uma contradição ainda mais grave: se era um espião, por que ele antagonizava todos ao seu redor, chamando a atenção para si mesmo e aumentando suas chances de ser eliminado (como quase acontece nos episódios 2 e 7, quando ele depende de outros candidatos para seguir adiante)?

Este, diga-se de passagem, é um problema característico de roteiros que usam os personagens não como indivíduos, mas como mero recurso para avançar a trama: num momento, um candidato é retratado como um líder razoável e inteligente; segundos depois, como um assassino cruel disposto a liderar uma quadrilha improvisada. Da mesma forma, dois personagens que não haviam exibido qualquer interesse romântico um pelo outro subitamente se beijam quando a série parece sentir a necessidade de incluir um centro emocional na narrativa, o que combina com a maneira abrupta com que alianças e inimizades se formam ao longo da temporada – e quando um candidato diz a outro “Eu sinto que você é uma boa pessoa. Só você é que não acha”, minha reação imediata foi questionar como ele poderia dizer aquilo se mal conhecia o outro.

A falta de coerência se aplica também à lógica do Processo em si: em certo ponto, o grupo se apresenta para um novo teste e é recebido por uma funcionária que pergunta se “foram (vocês) que escolheram o candidato eliminado na prova anterior”, o que parece ignorar o fato de que todos os grupos haviam feito isso. E mais: se a primeira etapa do Processo, que envolvia entrevistas, havia introduzido a existência de uma tecnologia capaz de ler as reações dos candidatos (da ansiedade à “falta de autenticidade”, como aparece escrito em um monitor), por que o sistema não foi utilizado durante o interrogatório que visava identificar um assassino?

Enquanto isso, os quatro diretores, embora imprimam certa urgência à narrativa e consigam criar um universo suficientemente crível, pecam por demonstrar uma predileção por ângulos holandeses que rivaliza com aquela presente no atroz A Reconquista, mantendo os quadros inclinados com tamanha frequência que estes acabam perdendo qualquer função narrativa, servindo apenas para deixar o projeto esteticamente deselegante. E se eu poderia até ignorar o plano chupado de Lost que traz uma personagem surpresa diante da extensão de uma tubulação enquanto a câmera se afasta, encarando-o apenas como uma homenagem, o esforço passa a ser maior quando percebemos como a própria estrutura de parte dos episódios copia aquela empregada pela série de J.J. Abrams, chegando a incluir o ruído característico de “vuuuushh!” quando os flashbacks são introduzidos.

Já do ponto de vista temático, 3% denota uma confusão preocupante com relação ao que pretende dizer: de modo geral, é óbvio que a série busca fazer um comentário político acerca das desigualdades que criam um abismo entre as realidades de comunidades fisicamente contíguas, mas economicamente situadas em lados opostos da sociedade. Da mesma maneira, o Processo em si é apresentado como algo cruel e perverso que, durante boa parte do tempo, busca jogar seus participantes uns contra os outros, enfraquecendo-os – e é louvável que, apesar disso, a série não tente caracterizar os funcionários que nele trabalham como seres frios e sádicos, esforçando-se até mesmo para humanizá-los ao enfocá-los discutindo as provas, manifestando predileção por certos candidatos ou mesmo lamentando o sofrimento pelo qual estes passam.

Assim, considerando tudo isso, por que ao final da temporada o espectador encontra-se mais propenso a apreciar os responsáveis pelo Processo do que aqueles que participam da Causa e tentam criar uma sociedade mais justa? Uma coisa é o personagem de João Miguel acreditar naquilo que faz, discursando frequentemente sobre a beleza da “meritocracia” em torno da qual tudo ali gira; outra, completamente diferente, é não ser capaz de dizer se a série em si concorda com aquilo. A própria protagonista, vivida por Bianca Comparato, se revela uma figura não ambígua (o que poderia ser interessante), mas mal construída: se ela houvesse provocado a morte da amiga de infância no meio da temporada, quando já conhecíamos suas motivações e dores, por exemplo, sua atitude talvez fosse mais fácil de aceitar; como acontece no início, porém, a frieza de seu gesto acaba por estabelecer a base de nossa relação com a moça, que jamais recupera nossa confiança ou simpatia – e é curioso que sua tentativa de envenenar seu algoz desperte não nossa “torcida”, mas o desejo de que fracasse.

Não que isto indique, por comparação, uma riqueza maior na concepção do Ezequiel interpretado por João Miguel, que também exibe as mesmas inconsistências em suas ações, chegando a mandar torturar a (anti?-)heroína apenas para parecer horrorizado com o procedimento segundos depois – um sentimento que, por sua vez, logo cede lugar a outras demonstrações de crueldade. E por que Aline e seu superior soam como vilões se, a rigor, querem criar um Processo menos rigoroso que permita a transição de mais pessoas para o confortável Maralto?

Aliás, como diabos uma sociedade pode esperar evoluir – dos pontos de vista humano ou científico - se todos os seus membros mais jovens têm 20 anos de idade e cresceram sem estudos ou qualquer outro tipo de formação que os preparariam para que viessem a contribuir com o novo mundo que ocupam? E já que toquei nesta questão, como exatamente funciona a lógica do Processo na escolha destes novos membros? Como as provas que vemos ao longo da temporada servem para filtrar perfis “desejáveis”? Construir nove cubos em cinco minutos indica o quê? Que tipo de conclusão é possível tirar ao se provocar alucinações com gás ou ao encenar um mistério com manequins? (Principalmente em desafios envolvendo grupos.)

Nunca é bom sinal quando uma história, em vez de envolver, leva o espectador a questionar a coesão de seu universo ou de seus personagens. Sim, 3% pode melhorar em sua segunda temporada (que certamente verei), mas para isso será preciso que dedique atenção redobrada ao planejamento de sua narrativa.

E, claro, que contrate Sérgio Penna para trabalhar com seu elenco.

26 de Novembro de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.