Críticas por Pablo Villaça

Poster: Sing Street
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
17/12/2016 17/03/2016
Distribuidora

 

 

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Sing Street
Sing Street

Sing Street

Dirigido e roteirizado por John Carney. Com: Ferdia Walsh-Peelo, Lucy Boynton, Jack Reynor, Mark McKenna, Maria Doyle Kennedy, Aidan Gillen, Ian Kenny, Ben Carolan, Percy Chamburuka, Karl Rice, Conor Hamilton, Kelly Thornton, Lydia McGuinness, Marcella Plunkett, Vera Nwabuwe e Don Wycherley.

A música e a Arte podem desempenhar múltiplos e importantes papeis em nossas vidas. Quando Sing Street tem início, por exemplo, o adolescente Conor emprega seu violão para abafar os sons das brigas entre seus pais; quando chega ao fim, porém, o jovem já transformou suas canções em seu norte pessoal, crescendo e abrindo-se para o mundo graças ao impulso criativo que passa a dividir com aqueles que o cercam.

Este não é, claro, um conceito novo para o cineasta John Carney, que em seu magistral Apenas uma Vez e no subestimado Mesmo Se Nada Der Certo enfocava justamente pessoas que construíam relações significativas através da música e de sua criação. Este seu novo trabalho, contudo, soa mais autobiográfico do que os demais, já que aborda um período de sua juventude na Irlanda, em 1985, durante o qual as dificuldades econômicas enfrentadas pelo país levavam a uma emigração em massa da população, ao passo que os que ficavam para trás eram obrigados a fazer cortes significativos em seus padrões de vida – e é neste contexto que Conor (Walsh-Peelo) é forçado a mudar de escola, passando a estudar em uma instituição dirigida por padres católicos que o diretor realmente frequentou. Preso entre a agressividade dos bullies e o descaso dos professores (um deles chega a confundir a língua que deve ensinar aos alunos), o protagonista vê um ponto de luz ao se apaixonar por Raphina (Boynton), decidindo formar uma banda como desculpa para convidá-la a participar dos videoclipes resultantes.

Assim, de imediato Sing Street se revela tomado por uma nostalgia pelos amores da adolescência, pelas descobertas de novas possibilidades, pelas tardes passadas ao lado dos amigos enquanto todos dividem um lanche trazido pela mãe de um deles e até mesmo pelas dores provocadas pelas incertezas cada vez maiores que se apresentam. Portanto, é com afeto que o filme reconstrói aquela época, com suas jaquetas jeans, seus blazers três vezes maiores do que o ideal, seus penteados inacreditáveis e os óculos com armações gigantescas. Há certo humor em ver uma garota carregando um toca-fitas para poder ouvir uma canção na rua, é verdade, mas o longa não olha para o passado de cima para baixo, com arrogância. Em vez disso, a graça – e Sing Street é muito divertido – vem das atitudes dos personagens (como a autoconfiança descomunal do pequeno Darren) e de suas conversas (“Nenhuma mulher ama um homem que ouve Phil Collins”).

Esta leveza, por sua vez, torna-se mais eficiente pela dor sempre subjacente ao cotidiano de cada uma daquelas pessoas: Raphina, por exemplo, permite aos poucos que Conor (e o espectador) descubra detalhes de sua infância, sugerindo um quadro de horrores sem precisar descrevê-los, enquanto o agressivo Barry (Kenny), que tanto atormenta o protagonista, ganha contornos inesperados quando temos a oportunidade de vislumbrar um pouco de sua dinâmica familiar – e até mesmo o namorado de Raphina, que parece tão confiante ao volante de seu carro, expõe um lado patético ao deixar o motor morrer diante do rival.

Neste aspecto, nenhum personagem resume tão bem a proposta do filme quanto Brendan, irmão mais velho de Conor, que é vivido por Jack Reynor (um Seth Rogen mais doce) com sensibilidade ímpar. Buscando se estabelecer como uma espécie de mentor para o caçula, o sujeito divide com este suas percepções acerca da Música e do Amor, revelando um afeto que, mesmo jamais expressado verbalmente, pode ser sentido em cada uma das interações que testemunhamos – e, no entanto, não demoramos a perceber certo grau de desespero e frustração por baixo de seus conselhos, como se visse no adolescente muito daquilo que perdeu em si mesmo. Ao mesmo tempo, Carney jamais põe em dúvida a importância da relação entre os três irmãos (há também Ann, interpretada por Kelly Thornton), sendo particularmente tocante vê-los dançando no quarto durante mais uma das intermináveis discussões entre os pais, quando buscam se proteger mutuamente contra o inferno que se forma do outro lado da porta.

Porém, como já dito no início deste texto, se a música inicialmente é uma fuga, logo se converte em uma motivação constante – e vários dos melhores momentos de Sing Street surgem dos encontros da banda-título e, principalmente, da amizade entre Conor e Eamon (McKenna), que se torna o John Lennon de seu Paul McCartney, dividindo com ele o prazer motivado por cada nova composição à medida que vão saltando entre estilos e influências em busca de suas próprias identidades artísticas. Da mesma maneira, John Carney demonstra um cuidado particular ao sugerir a mudança gradual na maneira como Conor enxerga Raphina: se inicialmente a vê idealizada, como uma musa intocável, aos poucos passa a percebê-la como uma pessoa multidimensional e cujas imperfeições não a deixam menos apaixonante – e reparem como o cineasta ilustra este arco ao situar a garota, maquiadíssima, dois ou três degraus acima do rapaz em suas primeiras conversas, apenas para trazê-la para o chão, com o rosto lavado, à medida que fica mais “real”. Além disso, Carney também é presenteado pelo acaso, como podemos ver na cena em que Raphina fala sobre os pais, expondo como teve uma vida bem mais difícil do que imaginávamos, e uma folha solta pelo outono que se inicia cai em seu ombro, sendo removida pela moça e criando uma metáfora instantânea sobre como sua existência a obrigou a lidar com o que o destino depositou em suas costas.

Equilibrando-se entre o otimismo juvenil dos personagens e a dureza do mundo que os espera, Sing Street emociona, por exemplo, ao justapor a fantasia de Conor ao tentar recriar a sequência do baile de De Volta para o Futuro (incluindo as resoluções dos problemas de sua família) e a humilde e decepcionante realidade que tem diante de si – uma realidade que, aos poucos, também tenta convencer Raphina de que seu sonho de ser modelo logo terá que ceder lugar ao cotidiano de um emprego como balconista de lanchonete.

E o mais triste é constatarmos como nos adaptamos facilmente às decepções – algo que o filme aponta quando, depois de observar como sua mãe substitui o sonho de ir à Espanha por alguns minutos roubados de sol ao fim da tarde, o próprio Brendan parece seguir seu exemplo ao sentar-se nos degraus diante de casa, aparentemente resignado ao fato de que também não concretizará suas aspirações.

Não que isto torne Sing Street uma experiência pessimista ou deprimente, pois não torna. O  que por si só indica, de forma reconfortante, que algo do adolescente sonhador que foi ainda permanece vivo em seu diretor.

17 de Dezembro de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.