Críticas por Pablo Villaça

Poster: La La Land: Cantando Estações
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
19/01/2017 09/01/2017
Distribuidora
Paris Filmes

 

 

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La La Land: Cantando Estações
La La Land

La La Land: Cantando Estações

Dirigido e roteirizado por Damien Chazelle. Com: Ryan Gosling, Emma Stone, Rosemarie DeWitt, J.K. Simmons, Finn Wittrock, John Legend, Tom Everett Scott.

La La Land está para os musicais clássicos de Hollywood assim como a trilogia O Hobbit está para O Senhor dos Anéis: você reconhece ótimos momentos, percebe que muitos destes vieram dos anteriores, sente certo prazer originado da nostalgia, mas, mesmo que admire a nova versão, sempre que a discute acaba usando uma variação da frase “Mas claro que nem se compara aos originais”. Sim, é um filme que provoca sua parcela de encantamento, mas esta acaba se parecendo com um doce cujo gosto desaparece logo depois de ser engolido e do qual começamos a nos esquecer com uma rapidez maior do que a esperada. Foi o que aconteceu comigo nas 24 horas seguintes à primeira vez em que o vi e que se tornou mais óbvio quando o revisitei.

Em intenção, La La Land é uma declaração de amor a um gênero que, depois de atingir seu auge nas décadas de 30 a 50, começou a se tornar uma relíquia a partir da de 60, cedeu lugar ao cinismo brilhante dos anos 70 e, desde então, passou a produzir apenas meia dúzia de títulos memoráveis por década – se muito. Mas não só: escrito e dirigido por Damien Chazelle, o longa é também um beijo de admiração em Los Angeles e na cultura hollywoodiana de modo geral, expressando afeto pelo trânsito de suas inúmeras rodovias, pela História da cidade e pelo esforço constante para ser “descoberto” por um grande estúdio. Girando em torno de Mia (Stone), uma jovem atriz aspirante a estrela, e de Sebastian (Gosling), que sonha em abrir seu próprio clube de jazz, este é o tipo de filme que traz um assistente de direção gritando “Check the gate!” depois que um diretor diz “Corta!” mesmo que há anos o digital tenha se tornado o padrão e que se mostra fascinado com Juventude Transviada mesmo aparentemente não entendendo sua mensagem. É o sentimento que importa, afinal.

Rodado em CinemaScope numa razão de aspecto de 2.55:1 (e orgulhoso disto), La La Land se apresenta como um espetáculo do início ao fim, caprichando no crescendo musical que antecede o surgimento do “The End” com o claro propósito de indicar (ou incitar) o momento dos aplausos. Esta artificialidade, contudo, faz parte da abordagem narrativa do projeto, que não só adota o realismo fantástico típico dos musicais como também se reconhece como exemplar do gênero e, portanto, seguidor de suas convenções. Assim, lá estão as cores básicas chapadas, os sentimentos que só podem ser expressados através de versos e os desejos que só conseguem ser manifestados apropriadamente pela dança. Não há nada de errado com isso, claro - a não ser pela impressão constante de que, no lugar de sua “alma”, o filme traz apenas um holograma de Fred Astaire e Ginger Rogers em O Picolino.

Reparem, por exemplo, quando Sebastian, com a expressão derrubada por ter que desperdiçar seu talento tocando melodias de Natal, se inclina sobre o piano: filmado em contraluz, o rapaz traz uma mecha de cabelo cuidadosamente solta diante da testa e que contrasta com o cuidadoso penteado, sugerindo o impulso de substituir o “Jingle Bells” por um “Sweet Lorraine” – e se a ideia por trás disso é a correta, a execução é estudada demais para fazer jus a um personagem apaixonado por um gênero musical construído a partir do improviso. Por outro lado – e sintomaticamente -, a obra demonstra bem mais espontaneidade ao retratar Mia em um teste, quando, mergulhada na emoção da personagem, é subitamente cortada pelo produtor mais interessado em pedir um sanduíche do que em apreciar o sentimento que tem diante de si. Seja como for, o diretor Damien Chazelle certamente demonstra uma clara coerência temática, já que, assim como em Whiplash, aqui a história basicamente é focada em indivíduos determinados a tudo para alcançar e preservar a excelência artística.

Emma Stone, em particular, se mostra especialmente eficaz como Mia, encarnando com sensibilidade suas inseguranças, suas paixões, seu idealismo e sua confusão com relação a Sebastian – e se há uma atriz que nasceu para vestir azul na tela grande, esta é Stone, cujos cabelos ruivos e imensos olhos verdes praticamente imploram pelo tom que completará a harmonia do trio. Aliás, o design de produção de David Wasco (que já foi colaborador recorrente de Tarantino e Wes Anderson) faz um trabalho admirável ao criar um universo de cores básicas e saturadas que realçam a magia da Hollywood filtrada por Chazelle – e percebam, por exemplo, como as cores dos vestidos de Mia e suas companheiras de apartamento não apenas brincam umas com as outras como enriquecem as paredes do imóvel (cada uma com a sua distinta) e da mobília e dos aparelhos domésticos (do sofá vermelho e branco ao secador rosa). Enquanto isso, a montagem de Tom Cross é hábil ao complementar as referências de época em alguns momentos (ao empregar lentas fusões, por exemplo) e ao exibir a energia de uma obra contemporânea em outros (como ao incluir os mesmos três rápidos cortes, que trazem planos-detalhe similares, ao iniciar as narrativas de Mia e Sebastian). Para completar, a estrutura geral da trama, dividida em estações que ironicamente jogam com o fato de o tempo em Los Angeles nunca mudar, funciona ao permitir que o espectador antecipe as batidas do roteiro.

Já a fotografia de Linus Sandgren oscila loucamente entre a inteligência e a obviedade: por um lado, é interessante como drena as cores de sua paleta em certas cenas que trazem os personagens caminhando por paisagens urbanas de Los Angeles à noite, como se naqueles instantes estivessem no mundo “real” e distantes da magia de Hollywood; por outro, a velha estratégia de mergulhar o cenário em sombras, deixando apenas o mocinho ou a mocinha sob um holofote a fim de salientar sua subjetividade, começa a irritar a partir da quarta ou quinta vez em que é utilizada ao longo dos 128 minutos de projeção. De todo modo, Sandgren e Chazelle concebem uma boa quantidade de imagens memoráveis – e minha favorita talvez seja aquela que traz Mia em seu vestido azul, emoldurada por neon vermelho, ao ouvir a música de Sebastian pela primeira vez.

Por falar em música, La La Land aqui demonstra uma fragilidade inesperada: para uma obra tão empenhada em fazer jus ao gênero, suas canções não são nada memoráveis – e a única que traz uma melodia minimamente envolvente, “City of Stars”, é repetida duzentas vezes, enjoando antes mesmo do “The End”. Os números de dança, por sua vez, jamais saem do básico, possivelmente refletindo as habilidades limitadas de Stone e Gosling, que, por melhores intérpretes que sejam, estão a anos-luz de Gene Kelly, Fred Astaire, Ginger Rogers, Danny Kaye, Bob Fosse, Donald O’Connor ou Cyd Charisse. Sim, Damien Chazelle acerta ao empregar longos planos abertos e conjuntos que permitem que vejamos a dupla da cabeça aos pés e executando seus passos sem cortes – o que faz jus aos clássicos -, mas o que os mestres do gênero faziam era bem mais do que dançar sem cortes; suas coreografias elaboradas praticamente levavam o próprio espectador a ficar sem fôlego enquanto admirava a energia, a inventividade e a audácia daqueles movimentos. Pensem em Astaire dançando pelas paredes em Núpcias Reais, em Kelly flutuando sobre patins em Dançando nas Nuvens (ou em O’Connor sapateando com patins em É Deste que Eu Gosto) ou mesmo (para citar um exemplo recente) no número protagonizado por Channing Tatum em Ave, César! – e agora comparem-nos ao modesto sapateado da principal cena de La La Land e facilmente perceberão o que falta ao filme.

Aliás, mesmo a sequência mais ambiciosa do projeto (aquela que o abre, passando-se no meio do tráfego de Los Angeles) é prejudicada pela decisão de Chazelle de rodá-la essencialmente através de quadros mais fechados, indo na contramão do restante da narrativa – e quando finalmente vemos a extensão da fila de carros, no desfecho da dança, a reação é ao mesmo tempo de admiração por sua escala e de frustração por esta só ter ficado clara quando todos já voltavam aos seus veículos. Da mesma maneira, a romântica cena no Observatório Griffith é evocativa, claro, mas sua lógica remete diretamente ao instante em Cantando na Chuva no qual Gene Kelly prepara o cenário, a luz e até o vento antes de se declarar para Debbie Reynolds. E aí voltamos à questão inicial: mesmo em seus melhores momentos, La La Land nos remete a outros de filmes melhores.

O que nos traz ao desfecho, que absorve e reflete o do magistral Os Guarda-Chuvas do Amor, mas que, ao contrário daquele, não faz jus ao drama e à (doce) amargura que busca despertar, já que seu roteiro basicamente não trazia qualquer obstáculo real no caminho dos personagens principais – basta constatar como seus conflitos são primordialmente auto impostos. Não que no processo o cineasta não alcance resultados pontualmente comoventes, pois alcança: a imagem de um teatro semivazio e que ainda assim traz uma poltrona reservada, por exemplo, é de partir o coração. Na maior parte do tempo, porém, o filme parece estar seguindo a máxima de Sebastian quando afirma que quaisquer falhas podem ser contornadas pela nostalgia.

Ora, a nostalgia é eficaz e o passado indubitavelmente tem suas vantagens dramáticas (o vinil, ao contrário de um mp3 player, pode parar de tocar num momento crucial), mas não podemos ignorar que há algo de certeiro na observação feita pelo personagem de John Legend, que é retratado como o mais próximo que a obra tem de um “vilão”: valorizar os clássicos é importante, mas também é preciso tentar revolucioná-los.

Algo que La La Land jamais busca fazer. Para Chazelle, o passado sempre terá textura de Super 8, o que é romântico, admito, mas também excessivamente convencional.

17 de Janeiro de 2017

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Assista também ao comentário em vídeo feito logo após a sessão (quando o gosto do doce ainda não havia passado):

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.