Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Qualquer Custo
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
02/02/2017 12/08/2016
Distribuidora
California Filmes

 

 


A Qualquer Custo
Hell or High Water

A Qualquer Custo

Dirigido por David Mackenzie. Roteiro de Taylor Sheridan. Com: Chris Pine, Ben Foster, Gil Birmingham, Dale Dickey, Katy Mixon, Kevin Rankin, Taylor Sheridan, Margaret Bowman, Marin Ireland, John-Paul Howard e Jeff Bridges.

Filmes de gênero, por já virem com uma série de códigos e convenções embutidos, são veículos perfeitos para o subtexto: assim, é apenas natural que longas de terror usem seus vilões como armas de moralismo barato, que musicais empreguem o realismo mágico para ressaltar a beleza no cotidiano e que westerns abordem a aridez de pessoas cuja sobrevivência depende da reação violenta a um mundo geralmente hostil. Neste sentido, A Qualquer Custo pode até trazer a história de dois irmãos que passam a assaltar bancos no interior do Texas enquanto são perseguidos por uma dupla de policiais veteranos, mas esta é apenas a casca de uma narrativa que tem muito mais a dizer.

Observemos, por exemplo, como os dois homens da lei, o xerife Marcus Hamilton (Bridges) e seu assistente Alberto Parker (Birmingham), já incorporam, em suas etnias, um comentário histórico pertinente: um, branco; o outro, parte mexicano e parte indígena. Desta forma, quando nos lembramos de como os ianques tomaram as terras de ambos os povos dos quais Alberto descende, fica mais fácil compreender a amargura revelada quando este aponta a ironia sobre como agora chegou a vez de os netos dos colonos terem suas propriedades tomadas pelos bancos. Aliás, em maior ou menor grau, todos os personagens de A Qualquer Custo pertencem às classes massacradas pelas ações do “sistema” de modo geral; de tão acostumados à derrota, por exemplo, os irmãos Toby e Tanner Howard (Pine e Foster) praticamente iniciam suas ações antecipando o momento em que cairão – e o melhor que Marcus e Alberto podem esperar é a aposentadoria e uma morte natural.

Embalado pela bela e melancólica trilha de Nick Cave e Warren Ellis, este é um longa cuja adrenalina gerada por tiros e perseguições repousa sobre uma estrutura de tristeza e desesperança: a fotografia de Giles Nuttgens traz cores lavadas e poeirentas, os figurinos insistem em cobrir os anti-heróis de marrom e as locações expõem a miséria do interior dos Estados Unidos, com suas casas abandonadas e inúmeros outdoors anunciando empréstimos “fáceis” para uma população condenada a uma vida de dívidas. “Resistir só nos fazia apanhar mais”, diz Toby ao irmão sobre a violência doméstica à qual eram submetidos quando crianças – uma constatação que, contudo, também diz respeito a todo o restante de suas existências.

E é ao mergulhar o espectador na experiência destas pessoas que A Qualquer Custo se diferencia de tantos outros filmes similares, sugerindo sujeira e pobreza com os ruídos insistentes de moscas, apontando a frustração de cowboys que sabem ser anacronismos vivos enquanto conduzem seus rebanhos e mesmo extraindo um trágico humor da resistência de uma garçonete em entregar a gorjeta que recebeu, já que, mesmo sabendo se tratar de dinheiro roubado, precisa dele para pagar a hipoteca da casa que divide com o filho pequeno. Ao mesmo tempo, a obra explora a graça da típica cadência de fala texana e, como em Onde os Fracos Não Têm Vez (eu pagaria qualquer coisa para ver uma produção estrelada pelos xerifes de Tommy Lee Jones e Jeff Bridges), permite que personagens secundários tenham seus pequenos instantes de protagonismo que trazem cor à narrativa – e, entre estes, destaco a mal-humorada garçonete que pergunta o que seus clientes não vão pedir”.

Aliás, é importante reparar o carinho com que o diretor David Mackenzie olha para todos estes indivíduos, sejam eles “bandidos” ou “mocinhos”. Este carinho pode ser percebido quando a funcionária de um banco (a sempre excelente Dale Dickey) sugere de forma ácida que os ladrões desistam do assalto (“Até agora, vocês são culpados apenas de estupidez”), quando o xerife Marcus é visto caminhando de madrugada diante de seu hotel envolvido por um cobertor que parece se transformar numa capa e quando Tanner permite que o público (mas não seu irmão) note sua dor diante da morte da mãe.

Mackenzie e o roteirista Taylor Sheridan (Sicário), por sinal, também exibem um talento admirável para sugerir de maneira sutil e eficaz alguns elementos do passado de seus personagens, como o temperamento agressivo do pai dos irmãos Howard, a viuvez de Marcus ou o fato de Toby obviamente ter se tornado pai ainda adolescente (e também seu esforço para, ao contrário do homem que o criou, oferecer algo de positivo ao próprio filho). Além disso, o excelente elenco contribui imensamente ao oferecer texturas adicionais: reparem, por exemplo, como Toby e Tanner desviam o olhar no momento em que expressam o amor que sentem um pelo outro (naturalmente voltando ao modo “macho” logo em seguida e trocando um “Fuck you” seguido de risos) ou como o primeiro também evita olhar para o filho em pontos-chave da conversa que tem com este no quintal e logo constatarão como estamos lidando com indivíduos desabituados a manifestações de afeto. Enquanto isso, Jeff Bridges retrata Marcus como um homem sempre sem fôlego e com um ar cujo cansaço parece vir mais de tudo o que já viveu do que exatamente daquilo que está fazendo no momento. Empregando uma dicção que faz o Rooster Cogburn de Bravura Indômita soar como um ator shakespeariano, Bridges constrói o xerife através de gestos que sugerem anos e anos de experiência, desde o simples ato de pendurar o chapéu no pé ao sentar-se e cruzar as pernas até a maneira como consegue deixar uma testemunha à vontade durante um breve interrogatório.

Intenso e envolvente em seu universo de bigodes, chapéus, botas e sotaques, A Qualquer Custo é menos um filme sobre assaltantes e oficiais da lei e mais sobre como a natureza hereditária e autopropagante da miséria essencialmente condena seus personagens a uma encruzilhada cujos caminhos possíveis são igualmente terríveis: a certeza de uma vida tomada pela pobreza ou a forte possibilidade de uma morte ditada pela violência.

01 de Fevereiro de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.