Críticas por Pablo Villaça

Poster: Um Limite Entre Nós
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
06/02/2017 25/12/2016
Distribuidora

 

 

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Um Limite Entre Nós
Fences

Um Limite Entre Nós

Dirigido por Denzel Washington. Roteiro de August Wilson. Com: Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby, Saniyya Sidney e Mykelti Williamson.

Uma das diferenças básicas entre o Teatro e o Cinema é o foco que o primeiro mantém nos diálogos enquanto o segundo se concentra na ação. Se as montagens teatrais frequentemente transformam eventos importantes em relatos – até mesmo pela limitação física do palco -, as produções cinematográficas tendem a seguir a máxima do “não conte; mostre”. Mesmo longas que poderiam parecer teatrais, como 12 Homens e uma Sentença, podem ganhar uma natureza mais dinâmica graças à maneira como a narrativa é desenvolvida através das cores, enquadramentos, movimentos de câmera, montagem e tantos outros recursos. Infelizmente, Um Limite Entre Nós não é um destes filmes; do início ao fim, a origem teatral do roteiro adaptado por August Wilson a partir de sua própria peça é impossível de ser negada. E, com isso, o projeto passa a depender quase exclusivamente da força de suas atuações e da complexidade dos personagens.

Ambientada na década de 50, a história acompanha o lixeiro Troy Maxson (Washington), que está farto de ver negros esvaziando os lixos enquanto os brancos são encarregados de dirigir os caminhões. Aliás, Troy está farto de muita coisa – e não para de falar sobre todas elas, seja em monólogos dirigidos à Morte, em casos compartilhados com o amigo Bono (Henderson) ou em discussões com a esposa Rose (Davis). Uma das principais frustrações do sujeito reside no fato de jamais ter podido jogar baseball profissionalmente, o que agora o leva a proibir o filho mais jovem, Cory (Adepo), de aceitar uma oferta de bolsa de uma universidade em troca de jogar futebol americano. Reprovando também o estilo de vida como músico do filho mais velho, Lyons (Hornsby), o protagonista tenta cuidar de seu irmão Gabriel (Williamson), que passou a apresentar distúrbios psiquiátricos após se ferir na Segunda Guerra e cuja indenização Troy utilizou para comprar a casa na qual vive hoje, o que o enche de culpa.

Certamente beneficiados pela montagem deste mesmo texto na Broadway que estrelaram há alguns anos, Denzel Washington e Viola Davis forjam uma dinâmica entre seus personagens que ancora a obra em uma base de humanidade que permanece convincente mesmo quando o universo ao redor deles soa como um cenário artificial: notem, por exemplo, o instante em que Troy conversa com a esposa enquanto prepara cereais e Rose, sem parecer pensar no que está fazendo, abre a geladeira e lhe entrega uma vasilha de leite; ou reparem, em outro ponto, como o sujeito conversa de maneira repleta de energia e a companheira percebe que sua postura é fruto da ansiedade em função de um problema no trabalho. Davis, por sinal, encarna Rose como uma mulher habituada às instabilidades emocionais do marido e às suas falhas por também amar profundamente suas virtudes.

Já Stephen Henderson, como Bono, tem a habilidade notável de olhar para Troy ao mesmo tempo com afeto e reprovação: se sabe que este foi praticamente salvo ao conhecer Rose e se sente feliz por ele, Bono também ressente o fato de o amigo arriscar aquela felicidade por não valorizá-la completamente. Enquanto isso, Russell Hornsby retrata Lyons como um homem que se recusa a abandonar a música, mas não consegue evitar o desejo de despertar orgulho no pai – e a cena em que insiste para que este vá vê-lo tocar é comovente. E se Jovan Adepo tem a oportunidade de desenhar um arco para Cory, que vai do puro receio à firmeza, Mykelti Williamson faz um bom trabalho como Gabriel, embora seja impossível não pensar que ele está interpretando uma versão do Bubba de Forrest Gump.

E há Denzel Washington como Troy Maxston. Um dos atores mais talentosos de sua geração – e também um dos mais carismáticos -, Washington abraça as contradições do protagonista com convicção: quando Troy conta suas várias histórias, sua energia é tamanha que compreendemos por que ninguém se atreve a interrompê-lo por já conhecê-las; da mesma forma, quando expressa seu amor por Rose, sua imensa ternura contrasta brutalmente com os modos rígidos que assume ao falar de seu passado ou ao brigar com os filhos. Amargo por acreditar que não teve a chance de se destacar no baseball em função de puro racismo, Troy nem sequer cogita admitir que isto pode ter ocorrido por causa de sua idade ou de algum outro fator, já que seu modo padrão de lidar com contratempos é culpando o mundo. Por outro lado, ele não apenas se recrimina por ter comprado sua casa com a indenização do irmão como também se sente responsável por todos ao seu redor – e é uma pena, portanto, que ele manifeste esta responsabilidade não através do carinho (com exceção de Rose), mas do suporte financeiro, acreditando que colocar o pão diário na mesa é o que basta, sendo o resto (como qualquer gesto de delicadeza) uma exigência absurda.

Mas se Washington faz um trabalho excepcional como ator, sua performance como diretor é no mínimo insuficiente para contornar os obstáculos de uma adaptação teatral. Desde o primeiro minuto de projeção, Um Limite Entre Nós é estruturado em torno de longas cenas carregadas de diálogos - e os esforços do cineasta para tentar conferir energia à narrativa através de movimentos de câmera aleatórios (como travellings circulares) e da decupagem que subitamente salta para closes sem justificativa dramática jamais alcançam o resultado almejado de nos fazer esquecer que aquelas conversas foram planejadas para o palco. Aliás, Washington também evita interferências não-diegéticas em boa parte do tempo a fim de conferir realismo ao longa, empregando a trilha sonora composta por Marcelo Zarvos pela primeira vez depois de quase uma hora de projeção. Em contrapartida, ele não resiste a simbolismos óbvios, embaraçando-se particularmente com o plano no qual vemos uma rosa cair lentamente da mão de Rose (pois é) e descer pela cerca no fim do quintal.

A insistência de Um Limite Entre Nós em apostar em símbolos e metáforas, vale apontar, faz jus à de seu protagonista, que parece encontrar um paralelo com o baseball ao discutir quase qualquer assunto – e se o título original, Fences (Cercas), escancara a multiplicidade de funções que August Wilson planeja para o que Troy constrói nos limites do quintal, estas ficam ainda mais transparentes quando basicamente explicadas pelos personagens: Rose ora para que Jesus faça um cercado em torno de sua família, Troy ordena que a Morte permaneça fora de sua propriedade e Cory se nega a ajudar o pai a estabelecer os limites que tanto deseja. Contudo, mesmo que estes esforços poéticos sejam exagerados, resta o fato de que Wilson era obviamente talentoso com as palavras (ele morreu em 2005), bastando ouvir o monólogo de Rose em certo ponto para constatar isto: “Eu me plantei dentro de você e esperei germinar. E não levei 18 anos para perceber que o solo era árido e pedregoso e que jamais algo nasceria ali.” Lindo demais.

Desafiando o público a acompanhar por mais de duas horas um protagonista imperfeito, frequentemente frustrante e sempre ressentido, Um Limite Entre Nós pinta um retrato difícil de um homem incapaz de reconhecer o que de bom possui e que, no processo, impede que aqueles ao seu redor tampouco o façam.

6 de Fevereiro de 2017

 

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.