A Terra Treme (1948)
La Terra Trema: Episodio del Mare
Direção: Luchino Visconti
Roteiro: Luchino Visconti, Antonio Pietrangeli
Elenco: Antonio Arcidiacono, Nelluccia Giammona, Agnese Giammona, Lorenzo Valastro, Giuseppe Arcidiacono, Nicola Castorino, Rosario Galvagno, Raimondo Valastromai
Adaptado a partir de um romance de Giovanni Verga, Os Malavoglia (que não li), a obra narra a história de uma família de pobres pescadores de Acitrezza, uma pequena vila na costa leste da Cicília, em busca de um futuro melhor. Parcialmente financiado pelo partido comunista italiano, o longa expõe por meio da luta de classes as injustiças e a miséria supostamente geradas pelo capitalismo. Ou, conforme posto no letreiro de abertura, a história que o filme conta é a mesma que se renova há anos, em todos os países em que homens exploram outros homens.
Em apenas seu segundo longa como diretor, Visconti realiza um trabalho espetacular em A Terra Treme, conferindo à obra neo-realista um tom semi-documental ao representar os habitantes de Acitrezza por meio dos próprios habitantes de Acitrezza, de figurantes a protagonistas. Conforme já se havia observado em Obsessão (seu primeiro filme à cargo da direção), Visconti mantém aqui seu olhar aguçado para a composição de quadros, além de seu gosto por longas tomadas. E se no longa anterior a mise-en-scène figurou como um de seus pontos fracos, esta surge agora fantástica, muitas vezes ainda em comunhão com longas tomadas que culminam em belos quadros. Todos estes recursos encontram-se espalhados ao longo da obra, com os seus momentos mais interessantes ocorrendo justamente no retrato da dinâmica da casa da família Valastro.
Se Obsessão tinha na qualidade de seu elenco um de seus pontos altos, o mesmo não acontece em A Terra Treme. Ao optar pelo uso de moradores locais (creditados apenas como “pescatori siciliani”) ao invés de atores profissionais, Visconti compromete a obra. Ao passo que ganha no quesito realismo, tal decisão traz seus custos sobre o drama das personagens, o que prejudica consideravelmente o filme, que, no fim das contas, ainda é uma obra de ficção. Não que as interpretações sejam ruins, algumas são até bem razoáveis (destaque para Agnese Giammona, no papel de Lucia), mas no quadro geral, a carga dramática do longa acaba tolhida pelo alcance do elenco, principalmente na segunda metade. Apesar de um grande diretor de atores, Visconti não pode conseguir de seu elenco mais do que eles têm a oferecer.
Quanto ao roteiro, apesar de eficaz na caracterização das personagens e no retrato da desestruturação de uma família frente à miséria, ele peca em diversos aspectos. O primeiro deles, encontra-se em algumas pontas-soltas, seguido da omissão de determinadas questões apresentadas na narrativa. Por exemplo, qual é o destino de Lucia? Que impacto sua fuga tem sobre a família? A julgar pelo roteiro, nenhum.
No entanto, o maior problema da obra está na forma com que aborda a questão das diferenças entres as classes, representadas pelos pobres pescadores e pelos abastados mercadores. Revelando sua orientação política, o roteiro apela ao maniqueísmo ao apresentar os pescadores como impotentes vítimas das adversidades, enquanto que os mercadores são retratados como vilões inescrupulosos, responsáveis exclusivamente pela miséria dos pescadores. O roteiro tem ainda o seu viés coletivista enfatizando pelo emprego de voice over (v.o.) que, quando não está encarregado de distorcer a realidade do mercado e de seus agentes, se ocupa em repetir à exaustão falas de suas personagens, além de narrar o que acabou de ocorrer em cena (felizmente, estes aspectos ficam relegados principalmente à primeira metade do longa).
Ao descrever a relação dos pescadores com os mercadores como sendo de exploração, devido ao fato destes comprarem os peixes por preços muito baixos, a obra revela sua miopia, ou melhor, sua cegueira, em relação aos fundamentos da economia de mercado. Ora, ao serem dotados de livre-arbítrio, os agentes de mercado podem escolher com que atividade ocuparão seu tempo (ainda que as opções sejam relativamente limitadas). Deste modo, se o dia de trabalho dos pescadores é sofrido, começando antes mesmo da aurora, e o retorno financeiro baixo, eles são livres para procurar outra atividade que julgarem mais rentável. No entanto, se permanecem na pesca, tal é decisão deles, e a idéia de “exploração” cai por terra.
Quanto aos supostamente altos lucros que os mercadores auferem enquanto que os pescadores ganham tão pouco, o que a obra entende como uma injustiça, tal se dá simplesmente pelo poder de barganha que os poucos mercadores têm frente ao grande número de pescadores, aliado ainda à baixa elasticidade-preço da demanda no mercado de revenda. Percebe-se assim que os mercadores gozam de altos lucros não por serem desprovidos valores morais ou dotados de natureza vilanesca, mas apenas por aproveitarem as vantagens que o mercado de peixe de Acitrezza os oferece.
Ademais, há de se estranhar o fato de haver tantos homens engajados na pesca, apesar desta, conforme posto pela obra por meio de seu infame v.o., constituir doze horas de trabalho estafante e não prover o mínimo sequer para matar a fome. Fosse tal absurdo verdade, a inanição acabaria por acometer os pescadores mais fracos, de modo que os mercadores teriam de passar a pagar preços mais altos em virtude da menor oferta de peixe, melhorando assim a qualidade de vida dos pescadores restantes.
O v.o. encontra eco em ‘Ntoni, um ingênuo pescador que acredita ser dotado de visão iluminada ao descobrir que os mercadores necessitam dos pescadores para que possam realizar seus negócios. O que ‘Ntoni falha em perceber, no entanto, é que a recíproca também se aplica. E se a sua iniciativa para se tornar independente dos mercadores é louvável, sua falta de experiência, talvez aliada à uma dose de arrogância, acabam por minar seus planos e condená-lo junto com sua família a um futuro ainda mais amargo.
Prejudicado principalmente por abraçar uma missão panfletária, A Terra Treme escapa por pouco de ser apenas mais um filme-propaganda de uma ideologia política e socioeconômica fracassada (não que o sistema capitalista seja uma maravilha infalível, mas é o melhor que temos). Mas duvido que Visconti se importe.
Antonio Junior
Rio de Janeiro, 20 de julho de 2009
Be the first to rate this post
- Currently 0/5 Stars.
- 1
- 2
- 3
- 4
- 5