Em 1947, dois anos após a queda do Terceiro Reich, as cicatrizes que a sua guerra trouxera à Alemanha eram ainda bem visíveis. A baixa atividade econômica do país, aliada ainda aos preços controlados, tornava freqüentes a falta de alimentos e demais bens, garantindo à sua população uma vida difícil. Em Berlim, destruída em função dos confrontos com o Exército Vermelho, uma criança luta para salvar sua família da miséria. Na última parte do que ficou conhecido como sua trilogia da guerra (precedida por Roma, Cidade Aberta e Paisà), Rossellini deixa o berço do neo-realismo italiano e passa para o outro lado a fim de registrar a vida em Berlim.
Escrito por Rossellini com a colaboração de, entre outros, Sergio Amidei, um dos maiores roteiristas que a Itália já teve e importante figura do movimento neo-realista, o roteiro de Alemanha Ano Zero revela um país em reconstrução, tentando (re)encontrar sua identidade em meio ao controle dos Aliados. Ainda que os diálogos não sejam particularmente um ponto-alto, soando formulaicos em boa parte das vezes, o roteiro figura como um dos melhores do período, apresentando uma narrativa bem amarrada e personagens bem elaboradas.
Os irmãos Eva e Karl-Heinz, por exemplo, são personagens bastante interessantes, quase tanto quanto Edmund, a protagonista. Ao passo que Eva dedica todo o seu tempo a amenizar as carências pelas quais sua família passa, sua força de vontade a levará apenas tão longe quanto suas convicções a permitirem, não estando disposta a negá-las nem mesmo por seus entes mais queridos. Ainda, é admirável sua dedicação e perseverança. Já Karl-Heinz figura no pólo oposto ao de sua irmã, se recusando a colaborar com o sustento da casa. Embora considere o motivo para sua inércia válido, não é sem dor que observa o sofrimento da família, se privando tão bem quanto pode do pouco que têm. O instante em que recusa fumar um cigarro que lhe é oferecido é particularmente belo.
Edmund, por sua vez, interpretado por Edmund Moeschke, surge como uma versão mirim de Eva. Porém, ao contrário desta, o inocente Edmund é guiado pelo id, não traçando limites para seus atos. É tocante observar o garoto lutando para superar as limitações da própria infância, ainda que sem percebê-lo. Em um mundo onde a miséria se tornou elemento comum à vida, Edmund não encontra maiores obstáculos para a criminalidade, nem mesmo por parte de sua família. No entanto, é justamente após cometer seu crime máximo, o que permitiria sua "volta à infância", que Edmund percebe ter ido longe demais para salvar sua família; longe demais para salvar-se a si mesmo. A cena em que é marginalizado por crianças que brincam é especialmente marcante. Além do Rubicon, não resta mais nada por que lutar ou sonhar.
No entanto, todas as qualidades do roteiro não são suficientes para ofuscar o grande problema da obra: a direção de Rossellini.
A começar pelos fraquíssimos atores, em sua maior parte amadores (ou simplesmente não-atores, ao que parece), é difícil acreditar que o visto em cena corresponda ao melhor que um diretor - qualquer diretor - seria capaz de tirar do elenco. A falta de preparo dos atores não se reflete apenas em sua ausência de credibilidade, mas se estende também à carência de qualquer noção de timming; esta ainda ressaltada pela decisão equivocada de Rossellini em trabalhar com longas tomadas. As performances se dão no pior estilo teatral, e são vários os momentos em que se é possível notar os atores antecipando os movimentos uns dos outros. É importante destacar, no entanto, o trabalho de Erich Gühne, que, a cargo do senhor Enning, é o único que se sai convincente em seu papel.
Infelizmente, o mau trabalho de Rossellini não se limita apenas ao desempenho de seu elenco. A mise-en-scène, por exemplo, surge artificial ao longo de toda a obra, seja por meio do posicionamento de figurantes e atores, que posam para a câmera, ou simplesmente pelo fato do elenco ficar passeado arbitrariamente pelos cenários apenas tentar conferir ritmo às cenas. Dessa forma, a cena em que Eva e Karl-Heinz conversam no banheiro concatena tudo que há de errado com a obra, respondendo pelo o que é possivelmente o pior momento do filme (ou de todo o movimento). Todos esses equívocos salientados, vale repetir, pelo insistente uso de tomadas longas.
A displicência da direção fica bem clara na cena em que, ao se preparar para atravessar uma rua, Edmund caminha arbitrariamente ao longo da calçada parando justamente sobre uma marcação no chão (a qual já vinha mirando ao longo de seu caminho), no centro do quadro, onde se detém enquanto espera um caminhão de carvão passar. A falha de Rossellini fica ainda mais evidente em função do mau desempenho de Moeschke. Naturalmente, esta pequena gafe não passaria de um pecadilho não fosse o fato de mancadas de natureza semelhante serem cometidas ao longo de toda a obra, comprometendo significativamente a experiência do espectador.
Como tantas faltas passaram pelo crivo de Rossellini fica aberto a debate. Naturalmente, as baixas verbas com que os filmes da época eram feitos explicam muita coisa, como o curto tempo disponível para a realização da fotografia principal (o que se reflete, por exemplo, na opção/necessidade de trabalhar com longas tomadas) e o emprego em larga escala de atores amadores. Porém, é importante destacar que tais adversidades não advogam a favor de Rossellini uma vez que trabalhar dentro de limitações faz parte do trabalho de todo o diretor, cabendo à sua perseverança e competência encontrar soluções para contornar quaisquer obstáculos que comprometam a qualidade do trabalho a ser feito.
Por fim, cabe um comentário em relação ao voice over no início do filme, que salienta a intenção do diretor em registrar a vida em Berlim da maneira mais objetiva e fiel possível a fim de mobilizar seu público para a situação desesperada do país. Ora, tendo em vista a natureza da obra, tal recurso surge irrelevante tanto para fins narrativos quanto sociais, servindo unicamente para ressaltar a figura do cineasta compromissado com a sociedade que Rossellini tanto gostava de promover e a própria ignorância do cineasta quanto à importante lição que Visconti aprendera na realização de A Terra Treme; aquela de que não se poder ser objetivo na arte.
Ficando para a história como um tropeço do neo-realismo italiano e um ponto-baixo na ilustre carreira de Rossellini, Alemanha Ano Zero figura como mais um infeliz exemplar do descompasso entre roteiro e direção. No entanto, fica para a obra um prêmio de consolação pelo cumprimento de seu papel social, mostrando da forma mais pungente que o Terceiro Reich, embora derrubado, ainda colecionava corpos na Europa.
Antonio Junior
Rio de Janeiro, 3 de outubro de 2009
* Com esta crítica, encerro minha participação no Entrada Franca este ano. Pretendo retornar com mais algumas críticas em algum momento em 2010. Espero que a leitura de meus textos tenha sido tão boa quanto a experiência de escrevê-los. Até algum dia, continuem escrevendo.