Quão fortes são os princípios de um homem? Em meio ao desemprego que acometia a Itália do pós-guerra, um homem é posto ao teste ao ter a bicicleta, seu instrumento de trabalho, roubada. A partir do incidente, o filme acompanha um dia na vida do sujeito, que, ao lado do filho, passa um domingo percorrendo as ruas de Roma em busca de sua bicicleta ao mesmo tempo em precisa confrontar o choque de suas convicções com a realidade.
Baseado no romance homônimo Luigi Bartolini (que não li), Ladrões de Bicicletas possui um roteiro de caráter parabólico, cuja estrutura narrativa, apesar de simples (note-se o infeliz apelo a acasos a fim de poupar a narrativa de maiores elaborações), é carregada de fortes passagens e rimas narrativas, além de subtexto religioso. A partir das dificuldades que Antonio e o pequeno Bruno enfrentam em busca da bicicleta, o longa apresenta o público a um mundo hostil, que parece conspirar a favor da má sorte de um homem. Uma das maiores qualidades da obra está em seu elenco, que, apesar de formado por atores na época amadores, está ótimo em cena, ressaltando também a habilidade de De Sicca como diretor de atores. Lianella Carell, que interpreta Maria, confere à personagem atraente postura e iniciativa; seus belos olhos tornando palavras redundantes. Já Enzo Staiola faz de Bruno o braço direito do pai, não medindo esforços no melhor papel de adjuvante. É tocante observar sua dedicação ao pai, constantemente mirando seu rosto.
Lamberto Maggiorani interpreta o honesto Antonio, um colador de cartazes recém empregado que tem a bicicleta roubada logo no primeiro dia de trabalho. Se a principio Antonio recorre ao bom senso para reaver sua bicicleta, seja prestando queixa na polícia ou visitando mercados de bicicletas, este logo cede lugar à urgência, que o leva a suspender suas crenças e convicções em favor da necessidade. Em apenas seu primeiro filme, Maggiorani oferece marcante atuação, que, apesar de comedida, revela com ardor todo o desespero e vergonha por que passa sua personagem. Desde sua voz hesitante, até seu olhar que parece fixar o nada, encontramos em Antonio um homem jogado ao limite, dividido entre quem é e o que pode ser.
Apesar de todas as suas qualidades neo-realistas, é interessante a presença de metalinguagem na obra, que surge sob a forma de um cartaz de Rita Hayworth que Antonio colava justamente no momento em que é roubado. Discreta, a referência salienta com elegância a diferença existente entre o universo estilizado da Hollywood da época e aquele de uma Roma pobre, habitada por personagens mundanos absorvidos em seus pequenos dramas. “Nada. Apenas uma bicicleta.”
De Sicca conduz a narrativa com segurança entre as suas diversas mudanças de tom, conferindo-a ainda uma bela fotografia urbana e um uso comedido da bela trilha sonora. Destaca-se também à atenção do diretor aos detalhes: desde a ferradura pendurada atrás da porta do apartamento de uma dona-de-casa supersticiosa, De Sicca também é cuidadoso ao exibir o péssimo trabalho do inexperiente Antonio ao colar seu primeiro cartaz (ou um dos primeiros).
Uma das obras máximas do neo-realismo, a beleza poética de Ladrões de Bicicletas atinge seu ápice no momento em que é justamente quando Antonio passa por cima de seus princípios em que ele encontra a sorte, no momento de maior necessidade, sob a forma da compaixão de um estranho. Sem condenar ou desculpar Antonio, o filme destaca o caráter cíclico da criminalidade, e revela que, às vezes, a sorte pode nos ser negada ainda que apenas para nos lembrar de quem realmente somos.
Antonio Junior
Rio de janeiro, 18 de agosto de 2009