Roma, Cidade Aberta

Roma, Cidade Aberta (1945)

Roma, Città Aperta

Direção: Roberto Rosselini 

Roteiro: Sergio Amidei, Federico Fellini, Alberto Consiglio

Elenco: Aldo Fabrizi, Anna Magnani, Harry Feist, Marcello Pagliero, Maria Michi, Francesco Grandjacquet, Giovanna Galletti, Carla Rovere, Nando Bruno, Ákos Tolnayanda

Em setembro de 1943, a Itália se tornou um estado dividido. Mussolini encontrava-se refugiado no norte do país, ocupado pelo exército nazista, onde fundou a República Social Italiana, ao passo que o novo governo italiano havia banido o Partido Fascista e concluído um armistício com os Aliados, declarando em seguida guerra à Alemanha. Roma permaneceu sob domínio alemão por nove meses, sob a condição de “cidade aberta”.

Nesse período, a resistência italiana, movimento armado de oposição ao fascismo e à ocupação nazista, desempenhou papel fundamental na luta pela cidade, culminando na sua libertação após a chegada das forças aliadas em junho de 1944. É nesse cenário de luta e morte que se situa uma das obras mais famosas do neo-realismo italiano, Roma, Cidade Aberta.

Filmado logo após a libertação de Roma, o longa foca no drama de suas personagens ao mesmo tempo em que acompanha os movimentos da resistência. Desde o primeiro instante, a narrativa é carregada de um tom de urgência (embora este seja mitigado vez ou outra por instantes de alívio cômico) que Rossellini sustenta muito bem, ao mesmo tempo em que cria tanto momentos de tensão como de alta carga dramática (que vêm a se combinar nas duas grandes sequências do filme - inconfundíveis). Outro mérito do diretor está na simplicidade do registro dos acontecimentos ao invés de uma abordagem mais elaborada, o que confere ao filme uma qualidade mais documental (ainda que só um pouco) que bem se alinha à natureza da obra.

No entanto, o ponto alto de Roma, Cidade Aberta reside em seu casal de protagonistas: Dom Pietro e Pina, interpretados com maestria por Aldo Fabrizi e Anna Magnani. Fabrizi confere à Dom Pietro, padre católico que não mede esforços em sua colaboração à resistência, mesmo que representada por partigiani comunistas, excepcional verossimilhança (como no manusear de seus óculos, por exemplo), além de fazer de sua interpretação serena um contra-ponto ao caos que cerca o padre. Já Magnani, prestes a despontar como uma das maiores atrizes de todos os tempos, entrega uma atuação poderosa, fazendo de Pina o símbolo do povo italiano ante as dificuldades da ocupação. A cena em que se “confessa” à Dom Pietro é particularmente marcante. Note-se, por exemplo, a naturalidade com que  os dois fazem breves e espontâneas paradas em seu caminho em determinados pontos do diálogo, retomando então a caminhada. Fantástico.

Mesmo que poucos, os pontos fracos da obra comprometem significativamente seu resultado final. Além de maniqueísta, o roteiro apela ainda para resoluções artificiais, sejam de caráter narrativo (como o reencontro de Manfredi e Marina) ou puramente dramático (como o aparente terror dos militares nazistas ante a um Dom Pietro enfurecido). Diga-se de passagem, Marina surge mais como um mero instrumento narrativo do que como uma pessoa “real”, embora o roteiro ainda tente apresentá-la como uma personagem ambígua. Ademais, fora a presença incômoda de um estereótipo na forma de um desertor histérico, a atuação afetada de Harry Feist, como o major Bergmann, em muito enfraquece a autenticidade da obra.

Quanto ao maniqueísmo com que tanto alemães quanto italianos são retratados, embora o filme procure amenizá-lo, seja por meio de Marina, ou através de um oficial nazista, estas tentativas surgem por demais forçadas, se apresentando ainda como mais um dos problemas do longa. Destaque para o oficial alemão, cujas lamúrias anti-nazistas mais soam como um discurso aborrecido do que como o desabafo de um bêbado arrependido.

Embora mais por apelo cultural do que por mérito artístico, a obra atravessa os anos como um dos exemplares máximos do neo-realismo italiano. Dizem que o cinema espelha a história da humanidade; poucas foram as vezes em que ele a refletiu com tanta força como em Roma, Cidade Aberta. 

Antonio Junior

Rio de Janeiro, 6 de julho de 2009

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Posted by: Antonio Junior
Posted on: 7/18/2009 at 8:45 AM
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