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Cinema em Cena


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Psicopata Americano   
American Psycho

Direção: Mary Harron
Roteiro: Mary Harron
Elenco: Christian Bale (Patrick Bateman), Willem Dafoe (Donald Kimball), Chloë Sevigny (Jean), Reese Witherspoon (Evelyn Williams), Jared Leto (Paul Allen), Josh Lucas (Craig McDermott), Justin Theroux (Timothy Bryce), Bill Sage (David Van Patten)

Sinopse: Serial Killer se divide em duas personalidades: um homem de vida comum que trabalha no Wall Street e um brutal assassino.

Estréia:        17/7/2001 (Brasil)

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Dirigido por Mary Harron. Com: Christian Bale, Willem Dafoe, Chloë Sevigny, Cara Seymour, Samantha Mathis, Jared Leto, Matt Ross e Reese Witherspoon.

Muitas pessoas têm associado a temática de Psicopata Americano à mentalidade individualista que caracterizou a sociedade norte-americana nos anos 80. Talvez seja mais confortável pensar desta maneira; no entanto, a verdade é bem diferente: este filme (e seu perturbado protagonista) poderia perfeitamente ter sua ação situada nos dias de hoje - e poderia se passar não apenas nos EUA, mas em praticamente qualquer outro país.

A (triste) verdade é que vivemos em um mundo cada vez mais dominado pelo conceito do `eu` - e que, por ser assim, é propício para o cultivo de todos os vícios narcisistas imagináveis. A idéia de competição jamais foi tão praticada como nos dias de hoje, e a própria Internet contribuiu para isso - nada mais natural em uma realidade na qual fortunas são feitas e perdidas da noite para o dia. Assim, é compreensível que os personagens principais desta nova economia (ou seja, qualquer pessoa entre 15 e 70 anos de idade) muitas vezes se encontrem `perdidos`, sem referência. Aliás, há uma cena em Psicopata Americano que ilustra isso com perfeição: sentados em uma imponente sala-de-reunião, vários jovens executivos (os chamados yuppies) comparam seus cartões-de-visita com absoluta arrogância (a metáfora fálica é óbvia).

Em um mundo onde o poder chega antes da maturidade, são detalhes superficiais como este que contam - assim como saber quem possui o carro mais caro; o apartamento melhor localizado; e por aí afora. Com o decorrer do tempo, estas pessoas atingem uma total ilusão de grandeza e onipotência. Como disse Tom Wolfe em seu excepcional livro A Fogueira das Vaidades, eles são `Mestres do Universo`. Mas não se iluda: pessoas assim não são encontradas somente nas diretorias das grandes corporações; exemplos mais próximos podem ser facilmente citados: de imediato, lembro-me dos quatro rapazes de Brasília que atearam fogo em um mendigo, numa demonstração de total desprezo pelos meros `mortais`.

E assim chegamos a Patrick Bateman, o protagonista de Psicopata Americano (interpretado de maneira brilhante por Christian Bale): habituado a ser um destes `Mestres do Universo`, o bem-sucedido (financeiramente) rapaz possui um traço de caráter que o torna ainda mais temível: sede de reconhecimento. Para Bateman, de nada vale ser `dono do mundo` se as outras pessoas não sabem disso: ele quer ser apreciado, admirado (não é à toa que ele adora quando alguém lhe pergunta sua profissão). Seu apartamento, curiosamente desprovido de decorações rebuscadas ou objetos pessoais (como fotos de família), é um claro reflexo de sua falta de personalidade: o sujeito brilha com luz artificial, e sua aparência bem-tratada não encontra ressonância em seu caráter.

E é aí que o filme nos surpreende (atenção: o restante deste texto revelará detalhes sobre a trama de Psicopata Americano): ao descobrirmos que toda a história foi narrada a partir do ponto-de-vista do personagem, descortinamos uma realidade bem mais plausível (e patética) do que os `banhos de sangue` que Bateman promove ao ser confrontado por seus adversários. Na verdade, o rapaz não passa de um sujeito inseguro que projeta todas as suas fantasias de sucesso em um mundo imaginário no qual é o Senhor Supremo. Se na `vida real` ele apaga-se (não é à toa que várias pessoas o confundem com um colega), em seu universo particular ele é capaz de realizar atos extremos. Sua covardia, no entanto, permanece latente e acaba materializando-se em seus confrontos com o detetive (possivelmente imaginário) vivido por Willem Dafoe: este é, durante um certo tempo, seu último limite moral; a lembrança de que há regras que devem ser respeitadas.

Do ponto de vista narrativo, a diretora Mary Harron desempenha admiravelmente bem seu papel, criando um encadeamento lógico que, analisado em retrospecto, expõe a linha de raciocínio de Bateman (os méritos também cabem ao roteiro, co-escrito por Harron e Guinevere Turner): em certo momento, o rapaz assiste a um filme pornográfico (envolvendo lésbicas) e, pouco depois, se imagina torturando prostitutas (durante um ménage à trois); mais tarde, uma exibição de O Massacre da Serra Elétrica é seguida por um acontecimento semelhante em suas ilusões. Além disso, ao conferir tons farsescos a certas cenas, Harron salienta o ridículo do personagem ao mesmo tempo em que torna a experiência menos grotesca para os espectadores mais sensíveis (a cena do `estrangulamento` no banheiro me vem à mente).

Bateman é, portanto, o tipo de serial killer com quem o público de hoje talvez tenha maiores chances de se identificar: seus crimes são ilusórios e atuam como válvulas-de-escape para suas frustrações. Quem nunca imaginou estar se vingando de um desafeto? É claro que as fantasias de Bateman atingem um grau extremo (eu, particularmente, jamais me imaginei aplicando um golpe de machadinha em alguém), mas isso é outra história, já que este personagem obviamente possui graves distúrbios de personalidade (o que torna tudo real para ele). O fato é que todos possuímos (e precisamos de) uma espécie de `demônio interior` que sublime nossas maiores ansiedades - o que me faz lembrar de uma frase que alguém me disse com relação a Clube da Luta: `Dentro de cada Edward Norton pacífico e sociável há um Brad Pitt rebelde e destrutivo querendo emergir`.

E é esta complexidade que nos torna humanos.
``

20 de Fevereiro de 2001



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