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Cinema em Cena


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Tinha que Ser Você    (2009)
Last Chance Harvey

Direção: Joel Hopkins
Roteiro: Joel Hopkins
Elenco: James Brolin, Richard Schiff, Kathy Baker, Dustin Hoffman, Emma Thompson, Eileen Atkins

Sinopse: O nova-iorquino Harvey Shine está prestes a perder o emprego como escritor de `jingles`, mas precisa viajar para Londres, para o casamento de sua filha, prometendo que volta para uma importante reunião. Mas Harvey chega a Londres e vê que a sua filha escolheu o padrasto para a levá-la ao altar. Tentando esconder o seu enorme desapontamento, Harvey abandona o casamento antes do final, mas mesmo assim perde o avião, sua reunião e óbvio seu emprego. Afogando as mágoas no bar do aeroporto, Harvey conhece Kate, uma quarentona que só pensa em trabalho e tem uma vida amorosa nula. A nova amizade tem tudo para não dar certo, mas as vezes o destino nos surpreende.

Estréia: 16/1/2009 (Original)        19/6/2009 (Brasil)

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Tinha que Ser Você


Dirigido por Joel Hopkins. Com: Dustin Hoffman, Emma Thompson, Eileen Atkins, Kathy Baker, Liane Balaban, James Brolin, Richard Schiff, Bronagh Gallagher.

Tinha que Ser Você está longe de ser um filme perfeito. Na realidade, este segundo trabalho de Joel Hopkins na direção, realizado sete anos depois de sua estréia na função (em Entrando de Cabeça, de 2001), conta com graves problemas não só em seu roteiro (também de Hopkins), mas também em sua montagem e na tendência do cineasta em se entregar a convenções que apenas enfraquecem seu projeto. Ainda assim, o longa acaba conquistando graças à doçura de sua história e, principalmente, em função do carisma e do talento de seus sempre admiráveis protagonistas.

Acompanhando o surgimento de um romance entre dois indivíduos já amadurecidos e marcados pela vida, o filme poderia perfeitamente ser descrito como uma espécie de “Antes do Amanhecer versão meia-idade”, já que gira em torno de um norte-americano e de uma européia que, conhecendo-se por acaso, passam várias horas caminhando por uma cidade do Velho Continente enquanto conversam sobre os mais diversos assuntos. A diferença fundamental é que, se no trabalho de Richard Linklater tínhamos dois jovens cheios de esperança e ainda com uma visão otimista do futuro e do mundo, aqui o casal surge já repleto de cicatrizes emocionais que provocam um forte retraimento – e antes que possam sequer cogitar a possibilidade de um romance, o deprimido Harvey Shine (Hoffman) e a solitária Kate Walker (Thompson) devem enfrentar o pessimismo com que encaram a vida.

Com um primeiro ato voltado inteiramente à tarefa de estabelecer a solidão dos protagonistas, Tinha que Ser Você investe numa montagem paralela que ressalta as similaridades entre os personagens: visitando Londres para o casamento de sua única filha (fruto de um casamento fracassado e obviamente marcado por ressentimentos), Harvey jamais se sente à vontade ao lado da família – e seu distanciamento é retribuído pela noiva, que o fere profundamente ao informá-lo de que pedirá que o padrasto a leve ao altar. Enquanto isso, Kate se vê constrangida diante do homem claramente mais jovem que lhe é apresentado por uma colega de trabalho, sentindo-se ainda pior ao perceber como ele parece se interessar por outra garota que encontra no bar em que estão. Eficiente ainda que não muito elegante (as transições são freqüentemente abruptas, pecando peca falta de fluidez e organicidade), a montagem de Robin Sales preocupa-se principalmente em criar um vínculo narrativo entre Harvey e Kate, o que, apesar de óbvio, revela-se fundamental para o sucesso do filme.

Com foco constante nos diálogos, o longa explora fartamente as locações a fim de imprimir algum ritmo à narrativa, que, afinal, se resume basicamente ao encontro de duas pessoas que precisam desesperadamente estabelecer uma conexão com outro ser humano – e a felicidade que ambos sentem apenas por encontrarem, no outro, um reflexo de suas próprias ansiedades é algo palpável e fruto especialmente das sensíveis performances de Hoffman e Thompson. A direção de Hopkins, aliás, é hábil ao explorar o talento de seus intérpretes, oferecendo a eles momentos construídos especificamente para que se destaquem dramaticamente: Hoffman, por exemplo, se mostra profundamente tocante ao expressar o forte complexo de inferioridade de Harvey, que se julga não apenas um músico fracassado, mas um homem inadequado à própria família. Sentindo-se pouco confortável na própria pele, o sujeito parece quase aliviado ao finalmente constatar seu colapso profissional, como se estivesse exausto de tentar provar um valor que sabe não ter – e Hoffman se mostra especialmente brilhante na cena em que Harvey faz um constrangido discurso que, depois de um início trôpego e embaraçoso, gradualmente se revela uma confissão/pedido de desculpas/desabafo impactante e catártico. Da mesma maneira, Emma Thompson comprova sua inteligência como atriz ao encarnar Kate como uma mulher que raramente expressa seus desapontamentos, como se estes fossem a regra em sua existência – e quando ela tenta justificar o próprio comportamento, seu escudo emocional finalmente parece rachar diante da racionalização, expondo toda sua fragilidade em uma cena que amarra maravilhosamente bem o arco dramático da personagem.

Assim, é no mínimo decepcionante que o filme freqüentemente sinta a necessidade de se afastar destes dois magníficos intérpretes para se concentrar numa subtrama estúpida e dispensável envolvendo a mãe de Kate e um vizinho que insiste em fazer churrasco praticamente todo dia – e chega a ser constrangedor perceber como até mesmo a boa trilha de Dickon Hinchliffe naufraga ao tentar criar temas engraçadinhos que confiram um tom cômico a estas cenas. Além disso, a decisão de Hopkins de investir numa montagem patética que traz Kate experimentando vários vestidos é simplesmente inexplicável, já que, além de um clichê pavoroso, esta seqüência surge num momento em que os personagens estão supostamente apressados – e vê-los brincando enquanto Thompson surge usando roupas absurdas chega a ser doloroso. Como se não bastasse, os “desencontros” (ou “quase encontros”) de Harvey e Kate durante o primeiro ato se mostram igualmente descartáveis ao investirem numa mensagem boba e infantil sobre “destino” que em nada contribui para a narrativa.

Para sorte do diretor (e do espectador), porém, Tinha que Ser Você é suficientemente charmoso para dispensar até mesmo a apresentação de um conflito dramático mais forte, já que, graças a Hoffman e Thompson, a percepção excessivamente crítica que os personagens têm de si mesmos é o bastante para que torçamos para que Harvey e Kate descubram, um no outro, a compreensão e o apoio emocional que ambos claramente merecem.

20 de Junho de 2009

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