Mutantes super poderosos e virtualmente invencíveis, militares enlouquecidos, experiências genéticas dolorosas e irreversíveis, traumas de infância mal resolvidos. Prato cheio para um herói com um fator de cura como o de Wolverine. Difícil mesmo é enfrentar a crise econômica, a pirataria e a gripe suína, ameaças mais reais, ainda que menos palpáveis, ao primeiro longa solo do personagem, X-MEN ORIGENS - WOLVERINE (X-MEN - ORIGINS: WOLVERINE, EUA, 2008), que chega aos cinemas brasileiros hoje e mundiais amanhã. Exceto no México, onde a epidemia suína conseguiu fechar os cinemas, logo agora, no início da temporada mais rentável do cinema norte-americano. Como se não bastasse, um mês antes o filme vazou para a internet, numa versão incompleta, o que não impediu que fosse baixada por milhares de pessoas ao redor do mundo.
Na verdade, chamá-lo de longa solo é forçar a barra, já que provavelmente tem mais mutantes – conhecidos e desconhecidos – na trama que todos os demais filmes dos X-Men juntos. A estratégia da Fox é simples: não só agradar aos fãs, que reconhecerão personagens queridos aqui e ali, como também prepará-los para futuros desdobramentos da série com estes personagens. Tudo isso utilizando a popularidade de Wolverine como chamariz.
Criado em 1974 pelo roteirista Len Wein, como um coadjuvante de uma história do Incrível Hulk, Wolverine é hoje, ao lado do Batman, o mais popular dos personagens de quadrinhos. É fácil detectar que seu aspecto sujo, suas ações violentas e politicamente incorretas são mais condizentes com esses tempos cínicos que o bom mocismo de um Superman, por exemplo. São as imperfeições de Wolverine que o definem. Este fuma, bebe, mata, canta a mulher alheia e se deixa levar pelo instinto mais do que é compatível com as noções de civilidade. Em suma, é um macho alfa como não se existe mais, que foi extinto pelo feminismo e pelas atuais realocações das obrigações conjugais. É um personagem com quem os homens gostariam de trocar de lugar e com o qual as mulheres não se importariam de ser subjugadas, pelo menos por alguns momentos. Como define bem sua colega de equipe compromissada Jean Grey (Famke Janssen) em X-MEN 2, as mulheres flertam com os bad boys (como Wolverine), mas se casam com os bons rapazes (como seu noivo Ciclope).
Em sua transição para a tela grande, muita dessa virilidade e macheza do personagem se perdeu. Nos quadrinhos, Wolverine é baixinho, feio e animalesco. Em troca, no cinema ganhou os contornos mais esguios, elegantes e acessíveis do galã Hugh Jackman. Por pouco a história não seria outra, já que o ator originalmente escolhido pelo cineasta Bryan Singer para o papel era o escocês Dougray Scott (da série DESPERATE HOUSEWIVES), que quebrou o braço na véspera das filmagens, cedendo lugar para o desconhecido australiano Jackman. Ex-ator de musicais de teatro, Jackman injetou vulnerabilidade, doçura e romantismo no personagem, e conseguiu agradar tanto aos fãs mais ferrenhos quanto ao grande público (feminino, inclusive) que nunca tinha ouvido falar em mutantes na vida. É um plus ele se parecer na série com um jovem Clint Eastwood, que já representou no passado essa idéia de masculinidade.
Se nos três filmes da série X-MEN Wolverine já era a figura proeminente, assumindo até mesmo o manto de líder que nunca teve nos quadrinhos, em X-MEN ORIGENS - WOLVERINE é realmente o dono da bola. O filme do sul-africano Gavin Hood (uma espécie de Tony Scott menos afetado, oscarizado por INFÂNCIA ROUBADA e autor do thriller político O SUSPEITO) acompanha a trajetória do herói desde a infância, no Canadá do final do século XIX. Isto mesmo. Wolverine, ou Logan, como é chamado pelos íntimos, tem mais de 120 anos, e seu botox natural é o fator de cura que configura seu principal poder mutante(os outros são os sentidos aguçados), responsável por retardar seu envelhecimento. Traumatizado por uma tragédia familiar e pela descoberta de seus poderes, Logan e seu meio irmão Victor, também mutante, fogem de casa, rodando o mundo em busca de aventuras. Na empolgante sequência de créditos iniciais, vemos Logan e Victor participando dos principais conflitos mundiais do século XX, da Primeira Guerra à Guerra do Vietnã, sempre sobrevivendo à morte certa graças à seus poderes mutantes, algo que mantém escondidos dos demais humanos. Vemos também Victor desenvolver ao longo dos anos um prazer cada vez maior em dilacerar tudo que encontra pela frente, afastando-se gradualmente, para o horror de Logan, da humanidade. É inevitável que acabem enfrentando um ao outro.
Se o filme permanecesse neste embate, ganharia um lastro dramático que se esvai na medida em que são introduzidos novos conflitos e personagens que só fazem infantilizar a trama. Atrapalha bastante o aspecto apressado e a falta de melhor acabamento de algumas cenas e efeitos. Não é difícil perceber que o estúdio mira justamente os mais jovens. Nas lutas brutais e mortais não é vislumbrada uma gota de sangue sequer nas lâminas que se projetam das mãos de Wolverine. As próprias escolhas temáticas revelam esta tendência em agradar ao fã de última hora. Nos quadrinhos, Wolverine sofre de uma amnésia similar a do agente Jason Bourne, da série estrelada por Matt Damon. Sua origem e a razão pela qual perdeu a memória, mote deste longa do personagem, foram criadas relativamente há pouco tempo, para saciar a ânsia dos leitores em conhecer mais sobre o passado de seu herói favorito. Das sagas clássicas mesmo, WOLVERINE, o filme, só arranha a popular graphic novel ARMA X, que mostra como o mutante ganhou seu esqueleto e suas garras de adamantium (que no universo Marvel é o metal mais resistente do universo) numa experiência genética do governo. Buscar o público jovem é uma das estratégias do estúdio em compensar os revezes causados pela pirataria e pela gripe suína. A outra é disponibilizar o filme com cópias com finais alternativos, cada qual para um cinema diferente, de forma a incentivar o público a rever o filme diversas vezes. Tem alguma dúvida de que até o final de semana todos esses finais estarão no You Tube?