Ouça-as.
Crianças da noite. Que música elas fazem!
Extraída do romance DRÁCULA, a citação se refere não
apenas aos vampiros, mas a todos os seres descarnados e sobrenaturais que
surgem com a noite, e ao fascínio perene que estes exercem nos pobres mortais. O
Lobisomem, o mais brutal destes monstros clássicos, ressurge agora nos cinemas.
Será noite de lua cheia?
Passado no fim do século XIX, uma era em que a religião
e a ciência (principalmente a da mente) apresentavam aspectos mais bestiais que
os do próprio paganismo, O LOBISOMEM (THE WOLFMAN, Inglaterra/EUA, 2010)
trafega por caminhos edipianos e pelo romantismo fatalista do período,
acentuado pelos violinos da partitura musical gótica de Danny Elfman. A trama
se aproveita não apenas da estrutura de conto de fadas do filme original, de
1941, como também de O LOBISOMEM DE LONDRES (1935) e das releituras da Hammer nos anos 1960 (faltou apenas um erotismo mais acentuado), que serviram de base também para Tim Burton e seu A
LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA, com o qual este O LOBISOMEM guarda muitas
semelhanças, visuais e temáticas.
Amaldiçoada foi a trajetória deste novo monstro para as
telas. Surgido como um projeto pessoal do ator Benicio Del Toro, fã do filme
original, parte do lendário ciclo de horror que fez a fama do estúdio, o novo O
LOBISOMEM perdeu seu diretor original, Mark Romanek (mais conhecido pelos
premiados videoclipes que por sua incursão no cinema, RETRATOS DE UMA OBSESSÃO),
três semanas antes do início das filmagens. No que foi substituído por Joe
Johnston, não estranho a este tipo de encargo de última hora. O realizador já
servira antes como estepe para Stuart Gordon e William Dear em,
respectivamente, QUERIDA, ENCOLHI AS CRIANÇAS (1989) e ROCKETEER (1991).
Johnston é um exemplo típico de uma categoria que ficou
relegada às sombras após a promulgação da Política dos Autores: o artesão. Ou
seja, aquele competente operário padrão hollywoodiano que dá conta do recado,
ainda que não apresente um toque especialmente particular que dê unidade a sua
obra. Nada de errado com isso. Grandes diretores da clássica Hollywood são
considerados “meros” artesões, como Robert Wise, Michael Curtiz e Mark Robson.
Johnston se inscreve nessa linha. É um realizador cuidadoso, com bom gosto para
design e iluminação, algo que fica claro em O LOBISOMEM, onde consegue
contornar muitos dos problemas resultantes do orçamento limitado (razão oficial
pela qual Romanek abandonou o projeto) e do prazo apertado. Fotografia, direção
de arte, figurinos e maquiagem são absolutamente convincentes na criação do
clima vitoriano.
Não quer dizer que O LOBISOMEM não tenha sofrido com a
guerra dos bastidores. As cicatrizes estão lá para quem quiser ver: alguns
efeitos digitais não funcionam, a história corre demais em alguns pontos
cruciais e é inegável que seria muito mais prazeroso para o cinéfilo ver uma
cena de transformação à moda analógica de UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES do
que o espetáculo CGI que temos aqui, ainda que este parcialmente dê conta do
recado. Mas é fato que Johnston teve de descascar um abacaxi. Assumir um
projeto alheio, com roteiro pronto, elenco já escalado e pré-produção finalizada
não é nada fácil, principalmente se você procura inserir algumas idéias
próprias no resultado final.
Assim, fica complicado saber a quem dar o devido
crédito pela bela estrutura circular que marca O LOBISOMEM. Desde o início, o
filme estabelece a Lua como marco conceitual. Todo o filme se constrói em cima
dessa idéia de ciclo, não só do lunar. Temos uma história de um filho, o famoso
ator shakespeariano Lawrence Talbot (Del Toro), que a casa torna por conta da
morte de um familiar, anos após abandoná-la por conta da morte de outro
parente. O filme tem início e fim na decadente Mansão Talbot (após uma grande
sequência em Londres), onde vivem o patriarca da família Talbot (Anthony
Hopkins, se divertindo com o aspecto sinistro de seu personagem), Gwen (uma
doce Emily Blunt), a cunhada de Lawrence, e o servo Singh (Art Malik). Ao
tentar desvendar o assassinato brutal de seu irmão, Lawrence sobrevive ao
ataque de uma misteriosa criatura, mas descobre-se condenado a se transformar
numa delas nas noites de lua cheia. Uma boa sacada do roteiro é colocar um
personagem real, o Inspetor Abberline (Hugo Weaving), como o principal
investigador dos crimes do monstro. Abberline, que ficou famoso investigando – sem muito
sucesso – o caso de Jack, o Estripador, já aparecera nas telas na pele de Michael Caine (JACK, O ESTRIPADOR, 1988) e Johnny Depp (DO INFERNO, 2001).
Finda a tragédia mostrada aqui, a maldição se insinua propícia
a outro ciclo sem fim. Pelo menos enquanto continuar o fascínio do público por
tais criaturas da noite.