Crítica: Pagando bem, Que Mal tem?

Sunday, 31 May 2009 18:10 by Adriano Cardoso

  

 

Pagando Bem Que Mal Tem? (Zack and Miri Make a Porno, 2008)

Direção: Kevin Smith
Roteiro: Kevin Smith
Produção: Scott Mosier
Fotografia: David Klein
Montagem: Kevin Smith

Elenco: Seth Rogen, Elizabeth Banks, Jason Mewes, Katie Morgan, Craig Robinson, Traci Lords, Brandon Routh, Justin Long.

  

O novo filme de Kevin Smith tem seus momentos interessantes e engraçados, mas acaba caindo na vala comum sendo apenas mais uma comédia romântica bobinha

Zack e Miri (personagens que dão nome ao título original: Zack and Miri make a porno) são dois amigos que dividem um apartamento, e moram juntos desde o fim do colégio. Zack (Seth Rogen) trabalha na cafeteria Bean n gone e Miri (Elizabeth Banks) no shopping. Levam uma vida bem apertada fazendo grande esforço para pagar as contas. Certo dia eles se veem numa situação muito ruim, não tem dinheiro para o aluguel e os serviços de energia elétrica e água foram cortados devido a falta de pagamento.

A situação é caótica, chegando ao ápice de não terem aquecimento no apartamento e nem onde tomar banho. Eles queimam as contas vencidas em latões para poder se aquecer. Zack então, convence Miri de que a alternativa para eles saírem dessa vida seria produzir e estrelar um filme pornô. A príncipio Miri é relutante embora acabe aceitando... Mas quando ambos começam a se “empenhar” no projeto descobrem que talvez haja em ambos um sentimento mais forte que apenas amizade... 

Seth Rogen interpreta Zack como um sujeito imaturo, que vive desperdiçando dinheiro com coisas inúteis, chega ao cúmulo de utilizar o dinheiro que seria destinado ao aluguel pra comprar uma vagina de bolso pela internet. Ele sempre demonstra de maneira sutil seu afeto por Miri.  Está, interpretada de maneira apagada pela bela Elizabeth Banks, é um pouco mais responsável que Zack, e encara este como um “irmão mais velho”. 

A maioria dos personagens secundários do filme não é muito interessante, sendo marcados apenas por uma ou outra característica: como Stacey (Kate Morgan) uma atriz pornô burra e com belo corpo, Bublee (Traci Lords) dançarina e atriz pornô um pouco mais velha, e Lester (interpretado por Jason Mewes, habitual parceiro de Kevin Smith) cuja habilidade especial é a de ter uma ereção sempre que quer, e a qualquer momento.

Exceção feita ao “casal” Bobby Long (Brandon Routh) e Brandon (Justin Long), que protagonizam momentos bastante engraçados, pena que apareçam tão pouco no filme. E reparem no trocadilho do nome dos atores com o dos personagens, certamente uma brincadeira do diretor. 

O destaque no elenco fica por conta de Craig Robinson, interpretando Delaney, amigo e colega de Zack, e que sempre protagoniza cenas e diálogos engraçados, é dele a frase mais engraçada do longa: sempre pensei em ver qualquer merda enquanto estou fazendo uma, após ser convencido por Zack de que ao emprestar dinheiro para a produção do filme lucraria o suficiente para comprar dois televisores de plasma, podendo ter um no banheiro. 

O filme conta ainda com duas pontas interessantes: Gerry Bednob, vivendo Mr Surya, dono da cafeteria Bean n gone, numa discussão engraçadíssima com Delaney; e a do ator veterano em filmes B, Tom Savini, no papel de Jenkins, responsável por alugar aos protagonistas uma garagem para as gravações de seu filme.  

Como de costume nos projetos do diretor Kevin Smith o filme apresenta muitas referências à cultura pop e ao universo Star Wars (Zack e Miri resolvem filmar uma paródia do filme de George Lucas: Star Whores, algo como “Piranhas do espaço”) Aliás o processo de escolha para o título do filme deles conta com idéias muito interessantes como Fuck Back Mountain e Ass Pocalypse Now, fazendo referência a filmes de sucesso.  

Se até o segundo ato o filme caminha regularmente bem, com cenas engraçadas e diálogos interessantes, no terceiro ele derrapa, investindo no ciúme de Zack, e os sentimentos recíprocos de ambos, perdendo a oportunidade de explorar mais o elenco secundário, e dar mais profundidade ao destino final do filme pornográfico que estavam produzindo. 

No fim das contas Pagando Bem, Que Mal Tem? acaba sendo um filme regular, mas poderia ter sido muito mais se o foco da narrativa não fosse o relacionamento entre Zack e Miri 

PS: Existem cenas finais após os créditos     

Adriano Cardoso

 

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Crítica - A Mulher Invisível

Thursday, 28 May 2009 05:08 by Bruno Sanchez

 

 

Direção: Claudio Torres
Roteiro: Claudio Torres
Elenco: Selton Mello, Luana Piovani, Vladimir Brichta, Maria Manoella.

Se Clube da Luta fosse uma comédia romântica ele seria A Mulher Invisível. Ok, esta comparação pode ser exagerada (muito exagerada, eu sei), mas é também um belo elogio a esta produção nacional, a qual, surpreendentemente, conquistou minha simpatia.

No filme escrito, produzido e dirigido por Claudio Torres (do excêntrico Redentor), acompanhamos Pedro (Selton Mello), um romântico fervoroso que entra em depressão após ser abandonado pela esposa. Sua sorte muda quando Amanda (Luana Piovani), a mulher mais espetacular do mundo, bate à sua porta: ela é deliciosa, inteligente, gosta de futebol, não tem ciúmes e transa feito uma deusa. O único defeito da moça é não existir.

Eu costumo torcer o nariz para filmes “made-by-Globo”; produções (em sua maioria, comédias) que trazem os vícios estéticos da tevê para a tela grande. Em A Mulher Invisível não é diferente: os closes em excesso estão lá, a direção de arte é típica das séries globais e sua mise en scène é pobre e pouco valorizada. Em contrapartida, o diretor Claudio Torres utiliza a trilha sonora de forma muito interessante, abusando da percussão e de sons lúdicos, conferindo a produção um clima de fantasia, o que faz toda a diferença para abraçarmos a história.

No entanto, o grande destaque do filme não é nenhuma técnica ou recurso visual. É gente. É Selton Mello. O talentoso ator, que sempre mostrou dom para a comédia (vide O Auto da Compadecida e Os Aspones), faz um hilário Pedro, que abusa da expressão corporal para arrancar risos da plateia, como na sequência em que Carlos (o bom Vladimir Brichta), seu melhor amigo, o segue até descobrir que Amanda não existe. Outro destaque do elenco é Fernanda Torres que, em participação especial e com ótimos diálogos, rouba a cena sempre que aparece.

No fim das contas, talvez o que mais me incomode em A Mulher Invisível seja seu roteiro, que perde força no terceiro ato, graças às – muitas – reviravoltas. Se fosse mais curto, marcaria um golaço (por mim, o filme deveria acabar na cena da banheira; preste atenção). Ainda assim, é uma comédia nacional acima da média, com bom elenco, despretensiosa, romântica e bastante divertida.

Tyler Durden que se cuide, porque Amanda está na área.

Nota: 7,5

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De repente, um erro

Tuesday, 26 May 2009 11:42 by Achilles de Leo

Em junho, chegará ao Brasil o belo longa-metragem "Shelter", de Jonah Markowitz. Na desesperança, já que não havia previsão de estréia aqui no Brasil, acabei baixando o filme na internet. E escrevi sobre ele neste post do meu blog pessoal. Recentemente, porém, surgiu uma boa notícia: "Shelter" estréia em São Paulo dia 05 de junho (se não me engano, nos cinemas Unibanco (Augusta e Shopping Frei Caneca) - no Rio e em outras cidades, a estréia será duas semanas depois. Mas também apareceu um problema: por que cargas d'água decidiram traduzir o filme como "De repente, Califórnia"?? Okay, o título original e sua tradução literão não são as melhores opções, mas... "De repente, Califórnia"? Ah não, assim não vale.


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Crítica - Um Ato de Liberdade

Monday, 18 May 2009 17:54 by Rafael S

 

Um Ato de Liberdade (Defiance, 2008)

 

Direção: Edward Zwick
Roteiro: Clayton Frohman e Edward Zwick
Elenco: Daniel Craig, Liev Schreiber, Jamie Bell, Alexa Davalos, George MacKay

Com algum atraso, o mais novo filme do diretor Edward Zwick (Tempo de Glória, O Último Samurai) chegou sem muito alarde aos cinemas brasileiros, sufocado pela onda de blockbusters que invade os cinemas a partir de maio.

 

Um Ato de Liberdade conta a história dos quatro irmãos Bielski – Tuvia (Craig), Zus (Schreiber), Asael (Bell) e Aron (MacKay) – e sua luta por sobrevivência nas florestas da Bielorrúsia em plena Segunda Guerra Mundial. Com o resto da sua família morta pelos nazistas, os irmãos no começo só contam um com o outro para sobreviverem nesse ambiente selvagem, mas aos poucos vão encontrando e acolhendo outros sobreviventes judeus pela região, e assim o grupo vai crescendo, até se estabelecer como uma grande comunidade bem no meio da floresta.

 

Os quatro irmãos possuem personalidades bem distintas, e com isso os quatro atores ganham a oportunidade de se saírem muito bem em seus papéis. Apostando numa interpretação contida, mas com um carisma natural (afinal Tuvia rapidamente se destaca como líder da comunidade), Daniel Craig se desassocia do papel de James Bond e entrega um bom trabalho – a cena em que ele confronta o delator de seus pais aos nazistas é especialmente marcante, assim como a amargura que toma conta do seu personagem logo em seguida. O pequeno George MacKay representa o bem o choque da infância com os horrores da guerra (a cena da vala de corpos é impactante), Jamie Bell traz vigor ao jovem Asael, e o cada vez mais requisitado e em ascensão na carreira Liev Schreiber faz de Zus o personagem mais intrigante da trama: irredutível em suas convicções, introspectivo, mas que não hesita em fazer sacrifícios para proteger aqueles por quem preza.

 

E não surpreende que quando Zus se afaste da trama principal, o filme caia de rendimento, ao insistir apenas em focar na dinâmica do acampamento, com seus inúmeros coadjuvantes manjados de produções do gênero (o inteligente, mas desajeitado; a garota bonita que vira interesse romântico; o baderneiro que tentará desestabilizar o grupo; o integrante mais velho sempre com comentários sábios, etc). O diretor também não consegue se livrar de vícios de suas obras anteriores, como a dramatização excessiva em vários momentos, mas se sai melhor do que em seu filme anterior, Diamante de Sangue.

Embalado pela bela trilha (indicada ao Oscar) do James Newton Howard, o longa ganha muita força também as locações escolhidas. Aproximadamente 80% do filme se passa dentro de uma floresta, e além de ser um colírio aos olhos, acaba ditando o ritmo da trama – a passagem dos meses e estações dos anos no local reflete claramente nos acontecimentos – e se tornando um personagem tão importante quanto os irmãos. Sendo assim, nada mais adequado que  diálogo que encerra o filme.

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Lutando até o fim

Monday, 18 May 2009 07:27 by Rafael Carvalho

O Lutador (The Wrestler, EUA, 2008)

Dir: Darren Aronofsky

  

Antes de mais nada, o novo filme de Darren Aronofsky não é sobre lutas, nem sobre vencer na vida, algo já bastante desgastado em filmes do gênero. É sobre um homem e suas limitações, e principalmente a persistência de ser manter o que sempre foi: um lutador. Mickey Rourke parece ser o ator ideal para o papel. Além da intensidade da interpretação, sem exageros, ele próprio possui um passado de decadência. Aqui, ele ressurge das cinzas.

Rady “The Ram” (Rourke), como era conhecido, é esse homem cujo passado foi de sucesso e grandes vitórias no ringue de luta livre, mas atualmente participa de lutas fajutas e arranjadas, em que os oponentes decidem previamente quem vai ganhar e como, enquanto uma pequena platéia de loucos sádicos brada a plenos pulmões, querendo sangue.

Mas Ram já sente o peso da idade e das limitações de seu corpo. Quando ele é levado para o hospital ao passar mal depois de uma luta, o médico o alerta que está na hora de parar, tanto com as lutas quanto com as drogas. Se antes ele já se mostrava decadente, endividado, e precisava fazer bicos como carregador de mercadorias, agora ele precisa de um outro rumo na vida, evidenciado por um trabalho como atendente na delicatessen de um supermercado.

A relação dele com a prostituta Cassidy (Marisa Tomei, ótima) é uma das coisas mais acertadas do longa. Ela já não é tão novinha como suas colegas e começa a se ver rejeitada pelos clientes. Assim como Ram, depende do seu corpo para o benefício de continuar seguindo o trabalho, e o sustento de um filho. Nesse ponto, eles são parecidos e uma possível aproximação é ensaiada embora o filme não caia na facilidade de unir os dois personagens, apesar da grande vontade disso acontecer. Mas não é tão simples assim.

Fácil também não é a relação de Ram com a filha Stephanie (Evan Rachel Wood), há anos separados e, a despeito de seus problemas de saúde, resolve procurá-la. Logo vemos uma explosão emocional, já que ela tanto foi marcada pela ausência do pai. Mas o filme também não facilita essa relação, mesmo com a possibilidade de se reconciliarem. Ram continua sendo o mesmo homem solitário, não parece estar pronto para ter responsabilidades com outra pessoa, por mais que ele queira tentar.

Agraciado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado, O Lutador não é um filme de fazer alarde. Surpreende bastante a sobriedade de Aronofsky, deixando de lado as pirotecnias visuais dos filmes anteriores que dividiram tanto as opiniões. Com câmera na mão, sem chamar muita atenção para isso, ele acompanha seus personagens com interesse e distanciamento. Até a música, do sempre ótimo Clint Mansell, está mais discreta. O destaque vai para os rocks metálicos dos anos 80. As ótimas atuações são outro atrativo.

Interessante notar como esse brutamontes desaba diante da pressão emocional, algo com o qual não estava acostumado a lidar. Mas no final das contas, ele ainda não desistiu. A vida dele é lutar, é isso que ele sabe fazer. A cena final é a síntese disso. Mesmo sentindo o coração (re)clamar, ele continua na batalha, independente das consequências. Fighters fight, não? Até o fim.

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Título

Wednesday, 13 May 2009 17:01 by Rodrigo Reis
Super-Homem virou Superman. Guerra nas Estrelas virou Star Wars. Agora Jornada nas Estrelas é Star Trek. Tudo bem são os títulos originais e muitas vezes torcemos que esses títulos se mantenham em quase todas as produções. Afinal, se não tem uma tradução legal, deixa em inglês mesmo! Mas não é assim. Alguns títulos se encaixam perfeitamente como os três citados. Como querer que associem os episódios novos com a primeira trilogia jedi? E como associar a série clássica com o novo filme? Realmente trata-se de um reboot, mas para mim é bem desconfortante. Os novos filmes são realmente para pessoas novas. Os títulos também.

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Fight Club e a Filosofia - Uma análise.

Wednesday, 13 May 2009 12:09 by João Paulo Barreto

Em determinada cena do filme Clube da Luta, o anônimo personagem interpretado por Edward Norton, vê imagens publicitárias de modelos masculinos vestindo apenas roupas de baixo e indaga Tyler Durden, personagem vivido por Brad Pitt, se é aquilo a representação do “ser um homem”. A réplica: “Auto-desenvolvimento é masturbação. Agora, a auto-destruição...” e a  resposta é deixada no vazio, acompanhada por um riso irônico de Durden e por um olhar de percepção (quase um insight) por parte do anônimo Norton. O riso irônico de Tyler Durden é a representação do domínio do conhecimento; sua consciência de que a sabedoria é mais importante que seu corpo. Em outro momento do filme, Tyler brada que “apenas após perder tudo, é que você estará livre para fazer o que quiser. Nada é estático. Tudo está desmoronando. Esta é a sua vida. E ela está terminando um minuto por vez”. Com tal frase, ele confirma a certeza de que, sim, ele sabe do que está falando. Ele reconhece o caminho que a sociedade consumista e capitalista está seguindo. Seja no culto ao corpo perfeito ou na dedicação do preenchimento do vazio da vida com objetos comprados no shopping, ele sabe para qual buraco fétido a sociedade caminha. Mas, o mais importante, é que ele está fazendo o que pode (e ele pode muito!) para resolver tal situação. “Apenas após perder tudo e estar em equilíbrio consigo, é que você estará livre para fazer o que quiser” complementa enquanto exibe a mão queimada e cicatrizada por lixívia.

O anônimo Norton é a representação do modo de agir e pensar da atual sociedade capitalista. Fechada num mundo particular de consumismo e falsa segurança, ela é habitada em cada um de seus componentes por Tylers escondidos e loucos para sair. Aproxima-se do conceito platônico de conhecimento intimo na maiêutica: o conhecimento habita cada um; basta percebê-lo. Zenão de Cítio traz em sua doutrina o equilíbrio humano separando o corpo da razão. É como se Tyler representasse a figura de Zenão no século XXI: alguém ciente da necessidade de perder as amarras que o prendem ao mundo no sentido de alcançar o foco de sua própria sapiência. A partir da violência consciente (diferente totalmente dos atos de vandalismo praticados por certos grupos urbanos), os homens do Clube perderam suas amarras. Alcançaram o ideal de perceber o quanto suas mentes merecem ser valorizadas. “Vejo aqui reunidos os mais bravos e inteligentes homens do mundo. Uma lástima o fato uma geração inteira estar servindo mesas, enchendo tanques, entregando pizzas”, lamenta-se Tyler em determinado monólogo. E complementa fazendo um paralelo à nossa sociedade: “A mídia nos faz correr atrás de empregos inúteis para comprar coisas que não queremos, que não precisamos. A televisão nos fez acreditar que um dia seremos astros do Rock ou milionários. Mas não seremos. E estamos, aos poucos, percebendo isso e ficando muito, muito zangados”.

O estoicismo pregado por Zenão de Citio trazia em sua essência o desprendimento de tudo o que é inútil (incluindo nisso a importância que seu próprio corpo possui) para alcançar o equilíbrio do espírito. Nesse desprezo ao material, mesclou-se (ou confundiu-se) o conceito pregado por Jesus Cristo, onde o martírio e o sacrifício podem levar ao equilíbrio do conhecimento. Negado pelos cristãos como uma influência para sua religião, o estoicismo é encarado pelos seguidores de Jesus como um desprezo do homem por si mesmo e pelo mundo. Nada mais do que um desespero do ser humano ao constatar, no mundo e na sua própria existência, a ausência de um Deus por ele rejeitado. Impossível não relacionar esse fato a uma outra declaração de Tyler Durden: “Deus foi incluído em nossas vidas como um modelo de nossos pais. Se eles (os pais) nos abandonaram, Deus fez a mesma coisa. Somos os filhos indesejados de Deus. Provavelmente, ele nos odeia”.

Contrário ao estoicismo, surge Epículo e sua declaração de que o homem foi feito para a felicidade. O epicurismo traz, em seu conceito, limites para os exageros da vida. Para Epículo, a doença que acomete uma pessoa é um aviso do corpo. Um aviso de um exagero cometido. A parcimônia (para usar um termo adequado ao conceito estudado) é a chave para a felicidade pregada pelo epicurismo: o homem deve buscar o prazer na medida de sua felicidade. A análise do epicurismo, relacionada à sociedade atual do século XXI, possui uma libertação interna do homem capitalista preso ao modo de vida imposto pelo trabalho. Cita-se o professor de Filosofia Davidson Sepini, da Puc de Poços de Caldas, em artigo1 publicado on-line:

 

Epículo acreditou em uma felicidade que flui de dentro do homem e, portanto, edificada a partir de um processo de libertação interior que exclui da vida, o medo e a dor causados, muitas vezes, pelo ritmo da sociedade atual. Isso faz do epicurismo uma teoria atual. Vivemos presos, temos medo e sentimos dor. Estamos impossibilitados pelo tempo e pelo espaço. A vida atual nos remete a uma “morte” diária, como disse João Cabral: ‘de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de  fome um pouco por dia’. Velhice causada pelos preconceitos, pelo trabalho alienado; emboscada que é própria da sociedade capitalista, que oferece todas as possibilidades e ao mesmo tempo exclui; de fome de entendimento, de aclaramento em relação ao que acontece no mundo e de fome de mudança, de transformação.

 

Nesse paralelo da doutrina de Epículo com a sociedade atual, encontra-se uma relação, ao invés de contrária entre este e Zenão, complementar. Vendo por esse modo, o epicurismo e o estoicismo se completam dentro de seus conceitos e limitações. O homem da sociedade atual, vaidoso em seu culto ao corpo e desmedido na busca pelo prazer (seja ele relacionado ao dinheiro ou ao sexo), transforma sua vida em um ciclo vicioso, onde a conquista de pequenos prazeres lhe traz uma satisfação pessoal que logo é suprimida pela necessidade de querer mais. Nesse raciocínio, o conceito de Epículo cai por terra, pois tal felicidade é volátil e sem substância. O homem precisa alcançar o equilíbrio mental e ter consciência de que sua felicidade é plena. Somente assim, ele estará seguindo o conceito epicurista. “Você precisa saber, não temer, o fato de que um dia você morrerá. Até o momento em que você souber disso, você é um inútil”, profetiza Tyler em uma frase que remete ao conceito de Epículo sobre a morte

A partir desse domínio do equilíbrio mental, volta-se a analisar a relação de Zenão com Tyler Durden. Para este último, o equilíbrio mental não está vinculado a nenhuma posse ou poder aquisitivo. Para Durden, o que importa não é o conteúdo de sua carteira ou o carro que dirige. O que interessa realmente é sua massa encefálica; é a sua razão; é o seu discernimento. É neste ponto que se conclui a relação de Zenão na Antigüidade e Tyler como representante do homem da época atual: o primeiro,entregou-se a todos os prazeres esquecendo-se do corpo e visando seu equilíbrio mental; o segundo, após ter conquistado tudo o que o mundo atual pôde oferecer de posse material, percebeu que nada daquilo importava. Na busca pelo conhecimento pessoal, encontrou, de forma inconsciente, o estoicismo e, a partir dele, conseguiu se salvar. Um claro exemplo a ser seguido pelos consumistas do século XXI.

 

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Crítica - Divã (2009)

Wednesday, 13 May 2009 10:37 by rodrigocarreiro

Divã

nota: 5

direção: José Alvarenga Jr.
elenco: Lília Cabral, José Mayer, Alexandra Richter, Cauã Reymond, Reynaldo Gianechinni
país: Brasil
gênero: drama/comédia
ano: 2009

Com uma temática extremamente feminista, “Divã” tem feito sucesso por dois motivos: justamente por essa temática ele agrada as mulheres e o lado cômico do filme se encarrega de fisgar os homens. No entanto, a história não consegue se manter pertinente do começo ao fim, tendo o roteiro que se ancorar diversas vezes na comédia para seguir em frente, e abandonar o tema mais “sério” em contrapartida.

“Divã” conta a história de Mercedes (Lília Cabral), uma mulher com um casamento tradicional que passa a rever os conceitos do matrimônio com Gustavo (José Mayer). Nesse questionamento, ela vive outros romances e revê diversos aspectos de sua vida.

O filme adota inicialmente quase um tom de conversa com o público. Sentada no divã de um consultório de analista, Mercedes passa a contar sua vida diretamente para a tela, mesclando assim uma metalinguagem (já que ela “conversa” com as mulheres da platéia) e uma narração. Esse recurso, aliás, é muito perigoso em qualquer filme e se não for bem feito vira muleta do roteiro. E é justamente o que acontece aqui. Quando o roteiro desgasta determinado assunto, logo volta para o divã e Lília Cabral passa a descrever outras tantas peripécias de sua personagem, embora nem sempre esses relatos sejam pertinentes. A atriz, como é usual, está muito bem no papel, conseguindo se equilibrar entre a comédia e o drama.

O problema do personagem dela, e de todo o longa, é a extrema semelhança com a teledramaturgia da Rede Globo. Pode parecer chato ficar repetindo isso, mas uma infinidade de filmes nacionais padecem desse pecado: copiam o modelo de novelas da globo em sua concepção técnica e estrutural. Até as roupas de Mercedes são pinçadas de novelas-água-com-açúcar de Manoel Carlos. As tomadas? Igualmente roubadas de grandes diretores da TV, como Daniel Filho e Marcos Paulo. Não é à toa, aliás, que o diretor de “Divã” seja José Alvarenga Jr., tarimbado na arte televisiva. Não só isso, mas “Divã” também sofre com piadas muitas vezes recicladas, mas que fazem rir pela repetição. Assim como em “Sim, Senhor”, de Jim Carey, "Divã" apresenta piadas que naturalmente farão rir, porque mexem com estereótipos enraizados na nossa cultura, a exemplo de situações envolvendo gays afetados e quedas. É “batata”.

Lá em cima eu disse que o filme é extremamente feminista, e isso parece claro até para as mulheres. Tratando o homem como um eterno mulherengo, insensível e fã de futebol, o longa faz uma separação maniqueísta dos dois gêneros, para que dessa forma a personagem que “sofreu” a vida toda (embora ela admita que nem foi tanto assim) possa se emancipar das garras do casamento com um marido chato e sem sensibilidade. E toma-lhe lições de moral quanto a traição, amor, união, carinho e amizade. Algumas falas chegam a saltar aos olhos de tão “certinhas” que são, claramente pinçadas da obra de Marta Medeiros, que deu origem ao filme. “Divã” ainda tem uma reviravolta completamente sem sentido, quando o filme ia para uma direção oposta e, sem maiores explicações, como que querendo dar uma guinada na história de qualquer jeito, a história tem um fato trágico para dar sentido a algumas “verdades” do roteiro.

Mesmo interpretando bem a protagonista, Lília Cabral não pode fazer milagre e é muito inverossímil, como todos já viram no trailler, uma mulher daquela ser cobiçada por galãs como Cauã Reymond e Reynaldo Gianechinni – e não me venham dizer que esse último já foi casado com Marília Gabriela, porque a situação é bastante diferente. Entrando num mundo que não conhece, Mercedes muda muito rapidamente de lado, digamos assim, passando de uma total inerte, para uma mulher descolada e ciente de seus atributos sexuais (até nua aparece, não frontal, mas de relance).

Para completar a obra, uma trilha sonora extremamente sem noção, com músicas tão óbvias quanto uma mangueira que dá manga. Pior: no final dá uma bela lição de moral para os espectadores, como se todos ali fossem pouco inteligentes e não tivessem sacado o filme desde as primeiras cenas (dá até para entender tudo vendo apenas o trailler, de tão “profundo” que é o filme).

 

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Boas vindas

Wednesday, 13 May 2009 09:38 by Pablo

Ao longo dos últimos anos, perdi a conta do número de alunos que passaram pelo meu curso de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica. Cada turma tem suas particularidades, seus humores, seus talentos especiais - e sempre, confesso, fico encantado com a fome dos alunos por Cinema, por aprender, por enxergar esta Arte maravilhosa de forma diferenciada, embasada e aprofundada.

Porém, sempre senti que faltava algo ao curso: uma forma de acompanhar as explorações posteriores dos alunos. Além disso, como eu poderia incentivá-los a manter a prática da observação, da análise?

Foi aí que me veio a idéia: por que não criar um blog no qual os alunos pudessem não apenas publicar suas impressões sobre os filmes aos quais assistiam, mas que também servisse como um fórum para a discussão (entre eles mesmos e também com os leitores)?

Daí este Primeiro Plano. Usem com sabedoria.

Um grande abraço e bons filmes!

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