
(Public Enemies, 2009, dir. Michael Mann)
Durante
a depressão causada pela quebra da bolsa de valores em 1929 nos Estados Unidos,
surgiram muitos bandidos, principalmente assaltantes de bancos (que já nessa
época concentravam as riquezas nas mãos dos banqueiros, sobretudo os membros da
família Rockefeller – quem assistiu ao documentário Zeitgeist sabe como eles
conseguem se manter ricos), como Bonnie e Clyde e John Dillinger. Estes
assaltantes foram chamados pelo primeiro diretor do FBI, J. Edgar Hoover
(vivido por Billy Crudup no filme), de Inimigos Públicos, fazendo uso do termo
utilizado em Chicago para descrever Al Capone e sua gangue.
O
bom filme Inimigos Públicos se passa em um recorte da história de alguns desses
assaltantes, optando por focar em John Dillinger (Johnny Depp), o mais famoso
dos personagens abordados na narrativa. Dillinger é um ladrão incomum, que
prefere permanecer de bem com o público a fazer parte de crimes mais “detestáveis”,
como seqüestros. Dessa forma, o ladrão se especializa em roubar dos banqueiros
e agir sempre com bom humor perto das pessoas comuns que, tendo que sobreviver à
amarga crise pela qual passa o país, tornam-se solidárias ao personagem, que
soa para elas como um Robin Hood moderno. Claro, Dillinger rouba dos ricos, mas
jamais doa aos pobres.
Johnny
Depp confere ao personagem um ar jovial durante boa parte da película, mas
ainda assim é capaz de transmitir o peso que os rumos de sua vida vão
adquirindo, tornando-se um pouco mais sério conforme a situação se agrava. O
ator faz parecer divertido ser John Dillinger, porém é capaz de nos fazer
sentir o drama de uma cena forte até mesmo estando de costas para a câmera,
como em um diálogo com o bandido “Red” sobre deixar sua amada. A belíssima
Marion Cotillard cria uma Billie apaixonante, que não tem outra opção senão
tornar-se a namorada de Dillinger. A atriz francesa surpreende em uma forte
cena com um policial perto do final do filme. Já Christian Bale interpreta um
tipo extremamente sério, cuja história não é abordada pelo roteiro, impedindo o
crescimento do personagem. Todavia, a voz excessivamente grave do ator,
característica de sua interpretação nos filmes do Batman, aparece sutilmente
aqui, o que pode irritar a alguns espectadores. Os demais membros do elenco
fazem atuações razoáveis, com pontas de atores famosos, como Leelee Sobieski e a
cantora Diana Krall.
A
direção de Mann é precisa, sobretudo na coordenação dos vários elementos técnicos
importantes na produção. Uma das cenas mais interessantes ocorre na fuga
inicial da prisão, quando John tenta salvar um amigo fugitivo, e a câmera
acompanha a mão do ator segurando a do bandido, enquanto o carro está em
movimento. Os tiroteios ao longo da projeção são todos coreografados com
estilo, e extremamente realistas, desde o design das armas, ao fogo que parece
sair delas ao disparar, passando pelos buracos por elas causados nos obstáculos
que as impedem de alcançar seus alvos e no som dos tiros, sempre perfeito nos
filmes do diretor. Entretanto, alguns cortes bruscos que parecem trabalho de última
hora tiram um pouco o brilho da montagem de Jeffrey Ford e Paul Rubell.
A
fotografia do experiente Dante Spinotti se destaca nos momentos em que
Dillinger é preso e os flashes e luzes dos repórteres se direcionam para ele. O
diretor de fotografia faz uso das luzes presentes na cena, e torna a imagem
envelhecida, como pode ser observado na chegada de um avião em Indiana ou na última
cena do personagem. Também impressiona a evolução do cinema digital nos últimos
anos: se em Colateral podíamos perceber que se tratava de um filme produzido
com essa tecnologia, as diferenças para a película em Inimigos Públicos são
sutis. O trabalho de arte é primoroso, nos carros usados pelos bandidos e pela
polícia, nas vestimentas e acessórios dos personagens, nos telefones, bares e
demais locações. A trilha sonora também é correta, tornando-se divertida nas
cenas de assalto a bancos, um recurso utilizado para auxiliar na identificação
dos espectadores com Dillinger, e sóbria conforme o personagem vai se tornando endurecido.
O
roteiro cumpre bem o seu papel, e o trecho da história escolhido para
pavimentar a narrativa é determinante para seu sucesso, acompanhando sobretudo
a crescente eficácia das técnicas do FBI e a vida amorosa de John e Billie. Aliás,
o casal protagoniza uma cena de sexo, que é muito bem aproveitada pelo diretor:
enquanto assistimos à cena, Billie narra sua história para John, com áudio
antecipado de uma cena posterior, para evitar a gratuidade do sexo. O filme
também conta com bons diálogos, como “Os ricos ligam para de onde vêm as
pessoas, mas o que importa é para onde elas vão”.
O
John Dillinger de Depp é uma figura ambígua: ao passo em que é um bom cidadão
aos olhos do povo, é também ladrão e responsável pelas mortes de inúmeros
policiais; apesar de dominar as situações com inteligência, tem seu destino
decidido por sua imprudência arriscada. Ao assistir Vencido pela Lei no cinema,
o personagem se sente corajoso e se identifica com a situação vivida por Clark Gable
no filme, como se antecipasse o que está por vir na cena seguinte e
reconhecesse o fato como um encerramento adequado para a sua história.
4 estrelas em 5