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Moby Dick (1956) - Moby Dick, 1956

Dirigido por John Huston. Com: Gregory Peck, Richard Basehart, Leo Genn, Harry Andrews, Frederick Ledebur, Joan Plowright e Orson Welles.

Ao longo de sua extensa e brilhante carreira, o cineasta John Huston comandou produções tão díspares quanto o noir Relíquia Macabra (seu excepcional filme de estréia), a aventura O Homem Que Queria Ser Rei e o musical Annie. Em muitos casos, ele criou verdadeiros clássicos, como o suspense psicológico O Tesouro de Sierra Madre ou o drama O Céu por Testemunha; em outros, realizou filmes insuportáveis (como O Pecado de Todos Nós, que nem mesmo o genial Marlon Brando consegue salvar) ou apenas corretos (como Os Desajustados, que traz Marilyn Monroe e Clark Gable em duas grandes atuações).

Já em 1956, Huston levou para as telas um projeto que desenvolveu por muitos anos, chegando a lutar contra grandes estúdios pelo direito de realizá-lo (algo relativamente comum em sua vida): orçado em 4,5 milhões de dólares (uma fortuna para os padrões da época), Moby Dick era uma adaptação relativamente fiel do livro homônimo de Herman Melville, mas acabou se tornando um fracasso de bilheteria graças, em parte, à escalação de Gregory Peck para o papel do Capitão Ahab, já que, até então, o público norte-americano estava acostumado a ver o ator interpretando papéis heróicos e de bom moço (algo que ele continuou a fazer pelo resto de sua carreira, apesar de ter dado uma tropeçada em 1978, quando viveu o nazista Josef Mengele em Os Meninos do Brasil). Assim, deve ter sido um choque, para seus fãs, vê-lo como um capitão insano que persegue irresponsavelmente a baleia que lhe arrancara a perna anos antes. Para complicar, Huston encontrou, em Ahab, a oportunidade ideal para desenvolver um tema recorrente em sua obra: o estudo das fraquezas humanas – e, em 1956, poucas pessoas estavam dispostas a aplaudir um Gregory Peck com falhas de caráter.

E isso é uma pena, já que Moby Dick traz John Huston em mais um de seus grandes momentos: sempre interessado em conferir veracidade aos seus trabalhos, o diretor pesquisou a fundo o cotidiano de um baleeiro e fez questão absoluta de retratar, no filme, detalhes do funcionamento deste tipo de embarcação no século XIX. Assim, vemos a tripulação do Pequod capturar uma baleia e depois parti-la em pedaços, armazenando sua carne e fabricando óleo com sua gordura. (Aliás, Huston filma estas seqüências de forma grandiosa, já que adorava qualquer tipo de caça. Porém, confesso que fiquei chocado ao ver as baleias sendo perfuradas por arpões e esguichando sangue.)

Outra excelente demonstração do talento do cineasta reside na forma com que ele cria um imenso suspense antes de apresentar os dois protagonistas do filme, Ahab e Moby Dick, fazendo com que os demais personagens os descrevam de forma vívida e marcante – uma técnica que Steven Spielberg também viria a utilizar em Encurralado e Tubarão (durante um bom tempo, o máximo que Huston permite é que ouçamos as batidas da perna de marfim – e não de pau – de Ahab no convés, durante a noite).

Com relação às críticas feitas ao trabalho de Peck, é preciso dizer que há uma grande dose de exagero: em alguns momentos, Ahab realmente se transforma em uma grande caricatura (especialmente graças à sua maquiagem, que o converte em um clone de Abraham Lincoln), mas o ator é bem sucedido ao retratar a insana obsessão do capitão pela captura da baleia, e, no final das contas, é isso que importa (além disso, a cena final de seu personagem é, sem dúvida, um dos momentos inesquecíveis do Cinema). Em contrapartida, Richard Basehart, que vive o narrador da história, cumpre seu papel de forma burocrática, desempenhando realmente a função de mero observador (e, assim, o destino de Ishmael se torna indiferente para o espectador). Muito melhor é a participação de Frederick Ledebur, como o índio Queequeg (e sua maquiagem, ao contrário do que ocorreu com Ahab, é fantástica). Pra encerrar, Moby Dick ainda traz Orson Welles fazendo o que mais gosta: usando pesada maquiagem enquanto faz um monólogo grandioso (aliás, o filme também marcou a estréia no cinema de Joan Plowright, que pode ser vista de relance na cena em que Welles faz sua pregação).

Já as cenas de ação são absolutamente impecáveis - algo que já seria de se esperar em um filme de John Huston (e, ao contrário das produções contemporâneas, Moby Dick é cruel até mesmo com seus personagens mais jovens, se isto for exigido pela história - o que aumenta, para o público moderno, o fator 'surpresa'). E para quem acredita que somente efeitos criados em computador são capazes de criar 'monstros' verossímeis, o personagem-título deste filme serve como um verdadeiro tapa de luvas (em contrapartida, o Pequod é visivelmente substituído por uma miniatura, em certo momento da trama).

Adaptado pelo próprio Huston e pelo renomado escritor Ray Bradbury (Fahrenheit 451), Moby Dick se concentra na busca de Ahab e ignora as viagens filosóficas existentes no livro original, o que se revela a solução ideal para o filme. Ainda assim, o roteiro mantém alguns longos monólogos que acabam permitindo que o espectador conheça o capitão um pouco melhor, embora quebrem o ritmo da ação.

Tenso e bem realizado, Moby Dick é um dos melhores exemplares do gênero 'homem-contra-feras-da-natureza', ao lado de King Kong (1933), Os Pássaros e, é claro, Tubarão.

19 de Maio de 2002

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