| Dirigido por João Falcão. Com: Gustavo Falcão, Mariana Ximenes, Paulo Altran, Prazeres Barbosa, Vladimir Brichta, Fabiana Karla, Wagner Moura, Lázaro Ramos, Val Perré, Aramis Trindade, Osvaldo Mil, Fernanda Beling.
É maravilhosa, a sensação de apaixonar-se por um filme. E foi isto que aconteceu quando saí da sessão na qual assistira a A Máquina: percebi que havia sido encantado de tal forma pela magia da história concebida por Adriana Falcão que, assim que cheguei em casa, não resisti à tentação de publicar o seguinte comentário em meu blog:
“A Máquina se tornará o primeiro longa brasileiro a vencer o Oscar (de Melhor Filme Estrangeiro).
Anotem aí: 21 de Março de 2006, às 23:40. Fui o primeiro a cantar a pedra.”
Em menos de dois dias, o comentário já havia gerado discussões não apenas no blog, mas nos fóruns do Cinema em Cena, no Orkut e havia até mesmo chegado aos ouvidos do cineasta João Falcão – e o que era para ser apenas uma entusiasmada declaração de amor acabou ganhando contornos de previsão amalucada e obviamente precipitada. Há muitos fatores que interferem numa premiação deste tipo – e nem todos dizem respeito à qualidade do filme: há a política da escolha de nosso representante; há o desafio de se ter uma distribuidora internacional disposta a gastar milhões de dólares; e há, finalmente, a necessidade imperativa de arquitetar uma campanha publicitária que atraia a atenção da Academia. Tudo isso por uma estatueta que, embora represente uma honra, é um mero detalhe na carreira de um filme brilhante como A Máquina, que será lembrado e admirado vencendo ou não o Oscar.
Dito isso, explico por que realmente o considero um forte candidato: com um roteiro inteligente e bem-humorado escrito por Adriana e João Falcão (a partir do livro da primeira), A Máquina conta uma história que, apesar de ter apelo universal (é, afinal, uma história de amor), traz um regionalismo inegável que lhe confere charme e o distingue de tantos outros que poderiam julgar-se similares. E, ainda mais encantador, o filme conta sua fábula através de trama e diálogos agradavelmente poéticos, mas jamais enfadonhos. Para explicar por que os habitantes da pequena cidade de Nordestina insistem em abandoná-la, a jovem Karina (Ximenes) justifica: “Porque aqui não tem recursos!” – ao que seu pai retruca: “E por que não mandam recursos para cá?”. “Porque tá todo mundo indo embora!”, é a resposta final da moça, numa lógica perversa, irônica e irrefutável.
Karina, como tantas moças sonhadoras do interior de um país miserável, sonha em ir para a “cidade grande” e tornar-se atriz de novela. Enquanto não atinge a maioridade que a libertará, ela ensaia pequenas cenas românticas ao lado de Antônio (Gustavo Falcão), que mal consegue conter sua paixão pela garota. Ele, no entanto, não tem o menor desejo de abandonar Nordestina e, para evitar que a amada parta, decide trazer o mundo até a cidadezinha – numa jornada que envolverá viagens no tempo, atrairá a atenção de toda a mídia sensacionalista e poderá lhe custar a vida. Aliás, a aventura de Antônio está situada, de fato, em um passado distante, já que acompanhamos sua trajetória através da narração de um homem já idoso (Autran) que, em um hospício, prende a atenção de seus companheiros internos através de sua fascinante narrativa – que, como toda prosa mitológica que se preze, começa lá atrás, na própria gênese do universo (aqui, conhecemos a “motivação” de Deus ao criar o mundo).
Demonstrando um imenso carinho pelas palavras, o roteiro jamais se cansa de demonstrar seu talento em utilizá-las como simples brincadeiras sonoras (“Que tempo era esse, ora essa?”), ironias semânticas (“Segurança era o cara que ganhava para deixar o outro camarada inseguro.”) ou mesmo para fazer incisivos comentários sobre uma cultura fragilizada pela obsessão com o sucesso imediato e efêmero (ao definir “clipe”, o narrador explica que eram “filmezinhos que ninguém precisava entender” e que “faziam sucesso no mês de setembro”, ou algo no gênero). Da mesma forma, A Máquina reforça esta crítica ao trazer Wagner Moura (obviamente inspirado em João Kléber) como o apresentador de um programa de tevê cujo conceito representa, ainda que de forma satírica, o objetivo absoluto de todas as produções do gênero: a busca ilimitada, sem preocupações éticas, pela maior audiência possível – algo que transforma a conseqüência (o “ibope” alto) em sua própria causa (os participantes têm um minuto para... aumentar o “ibope”).
Mas não são apenas os diálogos e as idéias de A Máquina que transformam o filme em uma experiência única; estes nada seriam se não encontrassem uma representação visual adequada – e, neste sentido, a direção do estreante João Falcão surpreende pela coragem. Para retratar Nordestina, por exemplo, o cineasta (auxiliado pelas brilhantes direção de arte e cenografia) cria um ambiente auto-contido que, assim como em Dogville, traz a cidade como um lugarejo que parece não ter nada além de seus limite externos, já que suas fronteiras estão sempre mergulhadas na escuridão ou tomadas por um azul intenso (dependendo do momento do dia), sem jamais revelarem indícios da existência de um mundo além da cidade, o que reforça seu isolamento total, transformando-a, como acredita Karina, em uma quase prisão.
E não é só: trabalhando ao lado de um dos melhores diretores de fotografia do país, Walter Carvalho, o diretor cria uma série belíssima de imagens, como o diálogo entre Karina e Antônio por trás de um relógio estilizado, vistos em contraluz, ou a cena em que dona Nazaré (Fabiana Karla, fantástica) tira uma foto com seus dois filhos caçulas, utilizando grandes retratos como substitutos de seus outros 11 filhos que já partiram de Nordestina. Além disso, A Máquina se mostra inventivo e inteligente mesmo nos momentos mais simples: quando o protagonista participa de um programa de tevê, acompanhamos seu discurso em uma montagem enquadrada por inúmeros aparelhos de televisão, o que, além de conferir dinamismo a uma cena que se limita a um longo monólogo, cumpre o importante propósito narrativo de ilustrar a audiência crescente atingida por Antônio.
Contando com um elenco impecável (desde o veterano Paulo Autran até o jovem Gustavo Falcão, passando por uma Mariana Ximenes adorável), A Máquina ainda vence o desafio auto-imposto de encontrar uma solução para o dilema fascinante de Antônio, que deve provar a ocorrência de uma viagem no tempo que parece jamais ter acontecido – e a resposta apresentada pelo roteiro é como o próprio filme: simples, mágica, contundente e linda.

24 de Março de 2006
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