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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/09/2002 22/09/2002 3 / 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
92 minuto(s)

Uma Onda no Ar
Uma Onda no Ar

Dirigido por Helvécio Ratton. Com: Alexandre Moreno, Adolfo Moura, Babu Santana, Benjamim Abras, Edyr Duqui, Priscila Dias, Renata Otto, Hamilton Borges Walê, Tião D’Ávilla.

Uma Onda no Ar, novo trabalho do cineasta Helvécio Ratton, pode ser visto como uma espécie de `complemento` do excepcional Cidade de Deus, já que é um lembrete importante de que a favela não se resume apenas à violência e ao tráfico: ali residem, também, milhares de pessoas que lutam para sobreviver de forma íntegra, mas que, apesar disso, são vitimadas por um terrível preconceito por parte daqueles que, como diz o próprio roteiro do filme, `vivem no asfalto`.

Inspirado em fatos reais, Uma Onda no Ar gira em torno dos esforços de Jorge (Alexandre Moreno), um rapaz humilde, para criar uma rádio comunitária que atenda às necessidades dos habitantes do morro. Determinado a fugir dos ganhos fáceis proporcionados pelo tráfico, Jorge reúne um grupo de amigos dispostos a auxiliá-lo na difícil tarefa de comprar os equipamentos e colocar a emissora no ar, e, no processo, é obrigado a enfrentar os interesses de grupos poderosos que, lamentavelmente, contam com o respaldo de parte da polícia e até mesmo dos governantes (por vários anos, o Ministério das Comunicações negou a autorização para que a Rádio Favela funcionasse legalmente).

Infelizmente, apesar da bela história que se propõe a contar, o filme decepciona graças ao fraco roteiro. Utilizando o velho recurso do flashback, que aqui não demonstra possuir a menor utilidade, Uma Onda no Ar torna-se confuso ao não conseguir situar o espectador com relação às diversas épocas retratadas ao longo da história: em determinado momento, por exemplo, fui surpreendido ao descobrir que o período enfocado era o da ditadura militar, já que a trama parecia já ter chegado aos anos 90. Além disso, os personagens seguem estereótipos específicos, tornando-se figuras unidimensionais que servem apenas aos propósitos do roteiro e nada mais. Para completar, os diálogos são artificiais e, com isso, os protagonistas da produção parecem estar sempre discursando, pregando, e não conversando – o que enfraquece muito a mensagem do filme.

Enquanto isso, a montagem falha grosseiramente em momentos importantes, como na cena em que um policial liga um aparelho de rádio para confirmar suas suspeitas de que a Rádio Favela não estará no ar, já que Jorge encontra-se na sua frente: em vez de surpreender o sujeito (e o espectador) com a revelação de que tudo está funcionando normalmente, a edição arruina a brincadeira ao mostrar, de antemão, duas pessoas preparando-se para começar a transmissão. Como se não bastasse, o cineasta Helvécio Ratton jamais consegue incutir, em Uma Onda no Ar, o grau de veracidade que Fernando Meirelles conferiu a Cidade de Deus: as cenas que envolvem o tráfico, por exemplo, parecem meras simulações exibidas em noticiários da televisão, o que é uma pena. E o que dizer das duas cenas musicais que aparecem durante o filme e que soam de forma completamente deslocada?

Outra grave falha de Uma Onda no Ar reside em seu elenco, extremamente desigual: entre os protagonistas, há duas ou três boas atuações, mas o restante é incrivelmente fraco, destruindo ainda mais qualquer pretensão de realismo que o diretor quisesse transmitir. E, apesar de se destacar no papel principal, Alexandre Moreno também peca ocasionalmente ao alterar, sem explicações, o modo de seu personagem conversar, oscilando entre a gramática perfeita e o coloquialismo exagerado.

É realmente lamentável que Uma Onda no Ar não seja um filme melhor, já que a Rádio Favela indubitavelmente merecia ter sua história contada com perfeição: exercendo uma importantíssima função social ao chamar a atenção de todos para os problemas do morro, como o perigo de desabamentos, o preconceito e a falta de estrutura oferecida pelo governo, a emissora já recebeu até mesmo premiações oferecidas pela ONU, provando seu valor e coroando as boas intenções de seus criadores. (Aliás, a parte mais comovente de Uma Onda no Ar é justamente aquela em que vemos os verdadeiros rostos por trás da rádio – algo que acontece durante os créditos finais.)

A Rádio Favela merece, sem dúvida alguma, cinco estrelas. Já o filme - por suas boas intenções -, apenas três.
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19 de Setembro de 2002

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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