Dirigido por Christopher Nolan. Com: Christian Bale, Heath Ledger, Michael Caine, Gary Oldman, Morgan Freeman, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhaal, Monique Curnen, Cillian Murphy, Chin Han, Nestor Carbonell, Eric Roberts, Anthony Michael Hall, William Fichtner.
Batman – O Cavaleiro das Trevas é um filme exaustivo. Ao sair do cinema, eu tinha a clara impressão de ter sido pisoteado e arrastado por uma manada de touros impiedosos, tamanha a demanda emocional cobrada pelo longa de Christopher Nolan. E ainda que tenha várias e eficazes seqüências de ação, o sentimento de exaustão não se originava destas, mas sim do intenso duelo psicológico protagonizado por seus personagens - afinal, não satisfeito com a idéia de simplesmente matar seus oponentes, o Coringa vivido por Heath Ledger exibe um propósito ainda mais cruel: o de destruí-los psíquica e emocionalmente, levando-os a abraçar o que de mais sombrio possuem em suas naturezas.
Escrito por Nolan ao lado de seu irmão Jonathan a partir de argumento concebido com David S. Goyer, O Cavaleiro das Trevas inicialmente nos apresenta a uma Gotham City que, aparentemente, encontra-se mais controlada do que aquela vista no filme anterior: ciente de que os marginais aprenderam a temer a figura justiceira de Batman, o tenente Gordon (Oldman) freqüentemente acende o bat-sinal apenas para inibir a ação dos bandidos, que imediatamente deixam as ruas ao suspeitarem que o herói encontra-se próximo. Ao mesmo tempo, a cidade (assim como a promotora Rachel Dawes, que troca o rosto de Katie Holmes pelo de Maggie Gyllenhaal) se encontra encantada com a figura galante e corajosa do promotor Harvey Dent (Eckhart), que, incorruptível, vem lutando para enjaular os mafiosos de Gotham. Em contrapartida, cidadãos comuns, inspirados por Batman, vêm se disfarçando de Homem-Morcego enquanto tentam fazer justiça com as próprias mãos – o que, é claro, acaba freqüentemente resultando em problemas. É neste cenário confuso que os chefes da Máfia, fartos de Batman e Dent, acabam dando carta branca para que um estranho que insiste em usar maquiagem de palhaço sobre suas profundas cicatrizes resolva seus problemas: o Coringa.
Buscando basear a história em um universo calcado na realidade (assim como ocorria em Batman Begins), Christopher Nolan mais uma vez se esforça para convencer o espectador de que, exageros à parte, a existência de uma criatura como Batman (ou o Coringa) não é algo de todo absurdo: cansado da dificuldade de movimentos provocada por seu uniforme, por exemplo, o milionário Bruce Wayne (Bale) trabalha ao lado de seu mordomo Alfred (Caine) e do cientista Lucius Fox (Freeman) para conceber uma nova roupa que lhe ofereça maior liberdade; e até mesmo a operação de captura de um bandido em terra estrangeira tem seus detalhes cuidadosamente planejados, não deixando nada ao acaso. Contribui, para este realismo, a insistência do diretor em evitar uma abundância de efeitos digitais, que são trocados por trucagens mecânicas absolutamente convincentes – e num dos raros momentos em que a utilização do computador se torna óbvia, durante uma manobra de Batman em sua moto, sentimos uma estranheza proveniente justamente da constatação de que aquilo não combina com a abordagem presente no restante da projeção.
Além disso, como os personagens soam humanos, distanciando-se das figuras unidimensionais presentes em projetos similares, nosso investimento emocional na história cresce exponencialmente, já que passamos a temer por seus destinos – e, mais uma vez, Nolan acerta em cheio ao mergulhar Gotham City num clima de medo e incerteza que certamente espelha os sentimentos de uma Sociedade cada vez mais oprimida pelo acaso da violência. Assim, da mesma maneira que os habitantes de Gotham experimentam o pânico provocado pelas constantes ameaças do Coringa, nós vivemos o choque causado por atos de indizível brutalidade cuja natureza aparentemente aleatória apavora justamente por ser imprevisível, sejam estes o assassinato de uma criança por policiais terrivelmente despreparados, a execução de três jovens por traficantes cúmplices de autoridades, a morte de civis iraquianos por militares norte-americanos ou (no caso dos ianques) o ataque de extremistas islâmicos em pleno coração de Manhattan. Neste sentido, aliás,