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Antes da Meia-Noite
(Before Midnight)
Romance - 2013 (Estados Unidos)
Continuação de Antes do Pôr-do-Sol que se passa na Grécia.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Richard Linklater. Com: Ethan Hawke, Julie Delpy, Seamus Davey-Fitzpatrick, Panos Koronis, Xenia Kalogeropoulou, Ariane Labed, Athina Rachel Tsangari, Walter Lassally, Yiannis Papadopoulos.

A trilogia composta por Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite se tornou, à sua própria maneira, uma versão da série britânica Up! para apaixonados: voltando à história do norte-americano Jesse (Hawke) e da francesa Celine (Delpy) a cada nove anos, os filmes de Richard Linklater nos apresentaram ao casal quando ainda tinham 23 anos de idade e rostos lisos, juvenis e repletos de sonhos e esperanças, voltando a encontrá-los aos 32 anos e, agora, aos 41, quando já exibem marcas de expressão, cansaço e se preocupam em gritar para que os filhos “não se afastem muito” enquanto brincam no mar.

Escrito pelo cineasta ao lado dos dois atores que protagonizam a trilogia, Antes da Meia-Noite é econômico ao já revelar, em um único movimento de câmera, o que aconteceu a Jesse e Celine desde que os víramos pela última vez no apartamento da garota em Paris. Agora casados e pais de pequenas gêmeas, eles se encontram na Grécia para as férias de verão – e ao se despedir do filho de seu primeiro casamento, que volta para a casa da mãe depois de algumas semanas ao seu lado, Jesse mergulha em uma pequena crise por se considerar um pai ausente, o que desperta uma série de discussões com Celine. Desta vez, porém, o longa também inclui extensas cenas que contam com a participação de outros casais – mais jovens e mais velhos que o principal -, oferecendo diferentes pontos de vista sobre o amor, o casamento e o romance.

Construído a partir de longos planos que permitem que os diálogos fluam com uma naturalidade que nos aproxima de seus personagens (uma abordagem já presente nos filmes anteriores), Antes da Meia-Noite se beneficia do envelhecimento/amadurecimento do casal de atores: agora um homem com abundantes linhas de expressão e a voz enrouquecida pela idade e pelo cigarro, Ethan Hawke surge como um homem que ainda exibe a jovialidade do passado, mas contrabalançada agora pelo peso do tempo, ao passo que Julie Delpy, com rugas e alguns quilos a mais (que ela exibe com o conforto que a autoconfiança proporciona), parece ainda mais linda como mulher do que era como garota. Assim, se antes discutiam sobre o futuro, suas ambições, receios e sonhos, Jesse e Celine passam a se concentrar nos equívocos do passado e nos problemas do presente, referindo-se ao futuro apenas como um hipotético cenário no qual se encontrariam no velório do parceiro.

E aí reside a genialidade de Antes da Meia-Noite: seria fácil construir um terceiro capítulo romantizado que atuasse como clímax dos encontros anteriormente adiados, mas optar por trazer Jesse e Celine já num contexto de casal amadurecido é algo que oferece um olhar adequado e natural sobre a experiência de um amor consumado. Ora, se antes os jovens se conheciam e reconheciam, desta vez se possuem com uma familiaridade que apenas a convivência traz, substituindo a idealização do passado por um conforto óbvio diante um do outro – e também por uma irritação subjacente perfeitamente compreensível. Por outro lado, se antes podiam apenas tentar adivinhar o que se passava na mente um do outro, agora Jesse e Celine possuem PhD em Celine e Jesse, respectivamente, conhecendo-se bem o bastante para se tornarem fatais em uma discussão por saberem exatamente onde acertar, que ferida espremer e que memória azeda do passado recuperar no momento propício.

Assim, é admirável como Linklater e seus atores expõem as pequenas rachaduras entre os personagens com uma sutileza que apenas os envolvidos conseguem perceber – como, por exemplo, no momento em que Celine faz uma brincadeira boba em sua superfície e cruel em seu subtexto e, segundos depois, olha rapidamente para Jesse a fim de avaliar o efeito do golpe. Da mesma maneira, embora tenham construído sua relação a partir de longas conversas, os dois reconhecem aqui já não trocarem ideias há anos por estarem sempre ocupados em discutir o cotidiano de pais e adultos num longo matrimônio – e quando Celine pergunta a Jesse se este a convidaria a descer do trem caso a conhecesse hoje, a hesitação do companheiro revela não a dúvida sobre o amor que sentiu e sente por ela, mas a dificuldade de voltar a imaginar o cenário no qual a esposa ainda era uma musa idealizada e perfeita. Além disso, como ocorre em todo relacionamento que acumulou anos e anos de machucados, memórias compartilhadas e brigas, Jesse e Celine possuem uma habilidade natural para reconhecer o subtexto dos comentários mais triviais feitos um pelo outro, transformando esta leitura em um incêndio difícil de apagar por se alimentar justamente das conversas usadas para enfrentá-lo – e uma observação feita com o propósito de apaziguar o parceiro pode, de formas inesperadas, despertar ressentimentos até então considerados mortos ou esquecidos.

Porém, se faço parecer que os jovens amantes de Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol agora se tornaram indivíduos amargurados de meia-idade, peço perdão: o encantamento de Antes da Meia-Noite se encontra justamente em nossa capacidade de reconhecer, no casal principal, os mesmos Jesse e Celine que desembarcaram em Viena num impulso juvenil há 18 anos. Ainda capazes de rir, brincar e de surpreender um ao outro, eles não são mais ou menos admiráveis e doces do que aqueles que encontramos anteriormente; apenas menos ingênuos. Além disso, justamente por contar com a experiência acumulada de vida do diretor e dos dois atores, que amaram, se frustraram, viveram e doeram ao longo das últimas duas décadas, o roteiro é hábil ao não tomar partido: ao longo das conversas mantidas pela dupla, somos capazes de compreender ambos os lados. Sim, Celine se mostra mais impaciente em boa parte do tempo, mas isto não torna as posições de Jesse acertadas por natureza – e não deve ser fácil tentar manter uma conversa séria e adulta quando o sujeito insiste em tentar diluir qualquer sinal de tensão com suas piadas constantes (muitas delas cruéis, mesmo que façam o espectador rir. Ou justamente por despertarem o riso.).

Em última análise, Antes da Meia-Noite é belo por reconhecer que mesmo histórias de amor com um início tão lindo quanto a vivida por Jesse e Celine são obrigadas, justamente por serem bem-sucedidas, a lidar com o desgaste imposto pela vida real que se seguirá. E talvez a história da sobrevivência ou do colapso deste romance ao longo dos anos de cotidiano seja a fábula de amor definitiva que deveríamos aplaudir ou lamentar no fim das contas, já que expõe o “felizes para sempre” como aquilo que é: uma fantasia doce, mas absurda.

Crítica originalmente publicada como parte da cobertura do Festival de Tribeca de 2013.

24 de Abril de 2013

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