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Amor Pleno
(To the Wonder)
Romance - 2012 (Estados Unidos)
Um americano viaja a Paris e começa um ardente caso com uma europeia. Quando retorna a Oklahoma, já casado com a moça, ele reacende um romance com uma garota da cidade, com quem teve uma longa história.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Terrence Malick. Com: Ben Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams, Javier Bardem, Tatiana Chiline, Romina Mondello.

Com apenas seis longas-metragens no currículo, Terrence Malick tornou-se um autor de estilo e temas facilmente reconhecíveis: interessado em investigar a jornada humana no planeta, com todos os seus tropeços sentimentais, psicológicos e de caráter, o cineasta constantemente usa a Natureza quase como uma narração sobre os personagens que retrata, ancorando-os em planos belíssimos nos quais a paisagem que os envolve é tão ou mais importante para apresentá-los do que qualquer coisa que possam dizer. Esta mesma abordagem narrativa, claro, surge em Amor Pleno – e mesmo que o filme apresente-se irregular, não se comparando a obras irretocáveis como Cinzas no Paraíso e Árvore da Vida, é suficientemente sensível e revelador para fazer jus à filmografia do diretor.

Escrito como de hábito pelo próprio Malick, o longa não é, claro, um filme sobre “trama”, mas sentimentos. Para isso, acompanha a trajetória da bela ucraniana Marina (Kurylenko), que, morando em Paris com a filha (Chiline), conhece Neil (Affleck) e se muda para os Estados Unidos para viver com o sujeito – um envolvimento que o cineasta retrata através de uma montagem fluida, criando recortes que ilustram a paixão crescente do casal e que, com isso, permitem que o espectador realmente sinta o surgimento daquele amor em vez de simplesmente ser informado por diálogos expositivos. Assim, quando vemos Marina caminhando à beira de um lago, temos não só a impressão de que a moça caminha sobre a água, indicando seu estado de espírito, mas percebemos também a instabilidade do terreno no qual ela pisa, sugerindo problemas futuros causados por um relacionamento construído sobre bases duvidosas.

Esta, aliás, é a beleza de Amor Pleno e do Cinema de Terrence Malick: a confiança que o cineasta deposita no espectador, acreditando que este terá a paciência e a sensibilidade suficientes para observar o que se encontra na tela a fim de compreender as pessoas ali retratadas. Não é à toa que os diálogos são relegados ao segundo plano – e, quando surgem, praticamente se resumem a fragmentos ilustrativos que, associados às paisagens, parecem mais sugerir do que informar. Neste sentido, vale dizer, a montagem (obra de cinco profissionais, algo raríssimo e que indica a natureza dinâmica do processo de Malick) merece créditos especiais pela complexidade narrativa que propõe, usando pontes sonoras criativas como transição entre cenas e conseguindo criar uma lógica facilmente compreensível mesmo que, a rigor, surja descontínua durante toda a projeção.

Mais uma vez fotografado pelo genial Emmanuel Lubezki, que vem se tornando parceiro habitual do diretor, o filme contrapõe planos de beleza inquestionável com outros nos quais o propósito é a ideia que querem evocar: assim, se num instante vemos amplas planícies douradas pelo sol, em outros testemunhamos a briga do casal principal através de um ângulo baixo que sugere o ponto de vista infantil e vulnerável da filha de Marina. Da mesma maneira, a composição de Ben Affleck, que encarna Neil como um tipo distante e frio, deve muito também à inteligência de Lubezki e Malick, que enquadram o sujeito quase sempre de costas ou com os olhos fora de campo, permitindo que vejamos apenas partes genéricas de seu corpo: braços, ombros, mãos e assim por diante – culminando num momento revelador no qual vemos Olga e a filha dançando felizes na sala mergulhada em cores quentes enquanto Neil as observa de fora da casa e oculto por sombras.

Como é recorrente no Cinema de Malick, que constantemente enxerga a figura feminina como um ideal da Natureza, a personagem de Olga Kurylenko é retratada como uma criatura espontânea, viva e que (como a personagem de Jessica Chastain em A Árvore da Vida) é logo vista caminhando descalça sobre a grama, remetendo à sua maior proximidade com o planeta (literal e metafórico) – o que também encontra reflexo no fato de Jane, personagem de Rachel McAdams, lidar com cavalos selvagens. Enquanto isso, Affleck surge como um ser quase tóxico que destrói as mulheres com as quais se envolve mesmo quando deseja agir com integridade – e não é coincidência que seu casamento com Marina tenha prisioneiros como testemunhas, sugerindo estar condenado desde o princípio.

Mas e Javier Bardem, cujo nome surge com proeminência nos créditos da produção? O fato de termos que fazer esta pergunta é um dos problemas graves de Amor Pleno: intercalando-se à história (“história”) principal, o padre vivido por Bardem surge vivendo uma crise espiritual ao ver-se diante de uma igreja esvaziada pela miséria e pela desilusão. No entanto, estas passagens jamais se encaixam no restante da narrativa e tampouco sobrevivem de forma independente, sugerindo que Malick parece querer exclui-las do filme (o que não é raro em seus projetos), mas hesita por acreditar ter encontrado algo de significativo ali – o que não acontece. Desta forma, a obra provavelmente teria se revelado mais coesa caso houvesse se mantido apenas ao lado dos dilemas do casal principal em sua tentativa de catar os cacos de uma relação quebrada (algo que Malick retrata quase literalmente em certo ponto da projeção).

Quando faz isso, o longa funciona muitíssimo bem – e quando testemunhamos uma briga particularmente violenta entre Marina e Neil enquanto, pela janela, a luz entra superexposta, percebemos a inteligência de um diretor que não precisa martelar seu público para expor a realidade de um mundo no qual constantemente o ódio e o ressentimento que envenenam famílias inteiras jamais são percebidos por quem vive ao lado. E são este isolamento e esta tristeza que, de maneira poética, conferem humanidade e, sim, beleza ao ironicamente intitulado Amor Pleno.

27 de Julho de 2013

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