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O Palhaço
(O Palhaço)
Drama - 2011 (Brasil)
Data de Estreia no Brasil: 28/10/2011
Benjamim e Valdemar formam a fabulosa dupla de palhaços Pangaré e Puro Sangue. Benjamim é um palhaço sem identidade, CPF e comprovante de residência. Ele vive pelas estradas na companhia da divertida trupe do Circo Esperança. Mas Benjamim acha que perdeu a graça e parte em uma aventura atrás de um sonho.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Selton Mello. Com: Selton Mello, Paulo José, Giselle Motta, Larissa Manoela, Álamo Facó, Cadu Fávero, Erom Cordeiro, Hossen Minussi, Maíra Chasseraux, Thogun, Bruna Chiaradia, Renato Macedo, Tony Tonelada, Fabiana Karla, Tonico Pereira, Moacyr Franco, Teuda Bara, Jorge Loredo, Ferrugem, Danton Mello.

Em apenas dois longas metragens como diretor, Selton Mello conseguiu se estabelecer como um dos nomes mais promissores do cinema brasileiro contemporâneo – e digo isso não só por admirar imensamente ambos os trabalhos, Feliz Natal e este O Palhaço, mas também por constatar como são profundamente diferentes entre si tanto em estética quanto em temática: se o primeiro era um angustiante estudo de personagens, o segundo se apresenta como um road movie que, mesmo melancólico de modo geral, revela uma doçura inegável no tratamento do universo que cria e de seus habitantes.

Escrito por Mello ao lado de Marcelo Vindicato, o filme acompanha as viagens do pequeno circo Esperança e de sua trupe encabeçada pelos palhaços Puro Sangue (José) e Pangaré (Mello). Pai e filho fora do picadeiro, eles tentam manter o espetáculo vivo através da vivacidade de seus artistas, já que, sem contar com leões, elefantes ou girafas, dependem de números menores calcados na imaginação e na alegria das performances. Percorrendo o interior do país em apresentações para platéias reduzidas mas encantadas, os integrantes da trupe se desdobram em várias funções, correndo do picadeiro para os bastidores e também vendendo paçoca e outras guloseimas para os espectadores nos intervalos. Tanta correria, porém, tem um preço – e quando a projeção tem início, percebemos como Benjamin (o verdadeiro nome de Pangaré) encontra-se exausto e em busca de algo que ele não sabe exatamente o que é, mas que de certa forma é representado pelo refresco proporcionado por um sonhado ventilador.

Com uma sensibilidade que deixaria Wes Anderson orgulhoso e que inclui até mesmo vários planos que trazem os personagens centralizados na tela e voltados para o espectador, Selton Mello demonstra um comovente carinho para com todos os integrantes daquela pequena família, que, ao longo do filme, ganham destaque quase similar ao conferido ao protagonista – e não é para menos, já que a dinâmica entre aquelas pessoas desempenha papel fundamental na vida de Benjamin. Apaixonados pela vida no circo apesar de todas as dificuldades, os artistas do Esperança são retratados pelo diretor com sorrisos de felicidade mesmo quando desempenham as tarefas mais técnicas durante as apresentações, como apontar um holofote para quem está em cena ou ajudar um colega a trocar de roupa – e este amor é fundamental para que compreendamos por que insistem numa rotina obviamente tão desgastante e financeiramente pouco recompensadora.

No entanto, a narrativa também explora a estrutura de road movie para apresentar o público a uma galeria de personagens cujas composições se revelam quase tão circenses quanto a imagem de um palhaço, desde os gêmeos vividos pelo sempre ótimo Tonico Pereira até o vendedor de mapas encontrado na beira da estrada. Assim, o filme acaba sendo construído a partir destes breves e significativos encontros que oscilam entre o tocante (como aquele envolvendo Jackson Antunes em um monólogo que ressoa ao longo de toda a história) e o hilário (como a cena que traz Moacyr Franco como um delegado apaixonado por seu gato). Além disso, a simples escalação do elenco diz muito sobre os propósitos do cineasta, que evoca sentimentos específicos apenas ao trazer figuras como Ferrugem e Jorge Loredo em participações menores, mas não menos importantes para o desenvolvimento da narrativa.

Conferindo importância à garotinha Guilhermina (Manoela) ao constantemente enfocar sua reação aos acontecimentos e assim sugerindo que aquela é, de certa forma, sua história (e é), O Palhaço ainda é beneficiado pela presença sempre mágica de Paulo José, que, mal de Parkinson ou não, continua a ser um ator fascinante e expressivo – e basta observar sua reação à chegada de determinado personagem, na cena final, para constatar isto. Para completar, o próprio Selton Mello surge eficaz como Benjamin, não deixando que o clichê do “palhaço triste” seja apenas isto, uma convenção, ao criar um homem que, mesmo caminhando com os braços estendidos para baixo em uma postura cansada, é capaz de enxergar a magia ao seu redor.

Dominado pelo peso de seu cotidiano e das pequenas tarefas que o acompanham (fazer uma carteira de identidade, encontrar um sutiã para uma artista, etc), Benjamin parece incerto de ter nascido para aquela vida, temendo talvez ter herdado uma profissão que não representa suas próprias aspirações – e ao subverter o clichê da criança que foge com o circo ao percorrer o caminho inverso, o sujeito sai em busca de um alívio para sua angústia constante, de algo que o faça sorrir e experimentar o mundo com frescor (e novamente o símbolo do ventilador surge relevante).

Com um trabalho fabuloso de direção de arte realizado por Claudio Amaral Peixoto, O Palhaço cria um universo ao mesmo tempo realista e fabulesco: por um lado, há o próprio circo Esperança, com sua atmosfera decadente ainda que agradável (“Não atire nos músicos”, diz uma plaquinha sobre os instrumentistas), que surge como um espaço reduzido e com arquibancadas diminutas; por outro, ambientes como a delegacia comandada pelo personagem de Franco, com suas paredes descascadas e janelas de madeira fechadas, que dizem muito sobre o sujeito enquanto criam um tom claustrofóbico apropriado à cena. E como não aplaudir o conceito da loja de autopeças que, representando um objetivo do protagonista, traz hélices de motor na parede remetendo aos ventiladores que simbolizam sua busca?

Recheado de ótimas gags em cenas autocontidas que empurram a história para frente mesmo que funcionando quase como esquetes independentes, o longa demonstra a competência de seu diretor ao jamais soar episódico, criando uma narrativa que flui orgânica e continuamente – e igualmente admirável é perceber a inclusão de pequenas rimas visuais (como os dois planos que trazem Paulo José desfocado e alguém que se despede ao fundo, através da janela de um carro) e também sua condução da atmosfera do filme, bastando observar como a energia do espetáculo final é claramente diferente daquela presente no inicial. Além disso, até mesmo artefatos de técnica acabam sendo empregados pelo cineasta e pelo diretor de fotografia Adrian Tejido como elementos cênicos, como o belo e evocativo flare que surge na tela durante o plano que encerra o filme.

Exibindo inteligência na construção da narrativa, que se mostra enriquecida pela estrutura circular (reparem o papel desempenhado pela bela moça que, trabalhando na lavoura, surge nos extremos da projeção), o roteiro de Mello e Vindicato ainda estabelece um arco dramático tocante e eficaz para Benjamin, que, através de suas experiências, aprende a enxergar o belo ao seu redor e redescobre o prazer de sorrir do prosaico.

Ainda assim, a eficiência de O Palhaço reside mesmo em sua capacidade de levar o espectador a amar seus personagens e a se emocionar diante da emoção destes. E por este motivo, sou profundamente grato a Mello e sua equipe por terem me convidado a visitar este universo e a conhecer aquelas figuras tão comoventes e adoráveis.

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio de 2011.

18 de Outubro de 2011

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