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O Mestre
(The Master)
114 min. - Drama - 2012 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 25/01/2013
Distribuidora: Paris Filmes
Homem carismático e inteligente, também conhecido como O Mestre, cria uma organização baseada na fé que se torna popular no início dos anos 50. O Mestre contrata o andarilho e alcoólatra Freddie Sutton como o seu braço-direito. Na medida em que a religião ganha adeptos, Sutton começa a questioná-la, bem como o seu fundador.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Paul Thomas Anderson. Com: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Jesse Plemons, Ambyr Childers, Rami Malek, Patty McCormack, Laura Dern.

L. Ron Hubbard era um escritor de ficção científica que, na década de 50, descobriu um modo infalível de enriquecer: fundar uma religião. Assim, com seu livro “Dianética: O Poder da Mente Sobre o Corpo”, ele deu o pontapé inicial em sua Cientologia, cercando-se de discípulos que devoravam seus métodos terapêuticos para libertar nossas almas das impurezas representadas pelos tethans alienígenas resultantes do genocídio promovido pelo maligno lorde intergaláctico Xenu, que, há trilhões de anos, decidiu...

... mas divago. Embora a Cientologia e Hubbard sejam tolices óbvias, não merecem ser mais ridicularizados do que outras crenças igualmente absurdas que ganharam aceitação em massa apenas por existirem há mais tempo (digamos... dois mil anos) – e é preciso apontar que, embora inspirado no início da religião criada pelo escritor (que aqui é batizada de “A Causa”), O Mestre tampouco procura condená-la diretamente, optando, em vez disso, por desenvolver sua narrativa como um intrigante estudo de personagens centrado na dinâmica entre Lancaster Dodd (Hoffman), uma versão clara de Hubbard, e o jovem problemático Freddie Quell (Phoenix). Em comum, os dois homens exibem uma profunda insatisfação com o mundo que os cerca, estabelecendo uma amizade inspirada mais na busca de uma alma similar do que no amor ou mesmo no respeito.

Escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson, o sempre imprevisível diretor de Jogada de Risco, Boogie Nights, Magnólia, Embriagado de Amor e Sangue Negro, este O Mestre já tem início estabelecendo o desajuste psíquico e emocional vivido pelo protagonista mesmo antes do fim da Segunda Guerra – e que só se intensifica à medida que ele tenta se ajustar à vida de civil. Alcoólatra e pensando continuamente em sexo (a ponto de “estuprar” uma escultura de areia feita pelos companheiros, cujas risadas iniciais são gradualmente substituídas por embaraço quando a “brincadeira” se prolonga indefinidamente), Freddie percorre o país enquanto salta de um emprego a outro até que acaba invadindo uma festa de casamento em um iate – o que o leva a conhecer o dono da embarcação e pai da noiva, Lancaster Dodd. Enxergando no rapaz uma possibilidade de testar seus métodos recém-desenvolvidos, Dodd praticamente o adota como membro da família, o que irrita sua controladora esposa Peggy (Adams) e altera o equilíbrio do núcleo central do culto.

Porém, dizer que o interesse de Dodd por Freddie é apenas motivado por interesses “científicos” seria reduzir o tema central de O Mestre à explicação mais simples; afinal, é justamente a base desta relação que se converte no mistério impulsionador da narrativa. Homem culto e sofisticado, Dodd inicialmente parece fascinado pela natureza impulsiva e bestial do jovem – e apenas aos poucos compreendemos que ele enxerga, em Freddie, elementos de seu próprio temperamento que busca manter sob controle. No entanto, à medida que tenta domar o rapaz, é o próprio “mestre” quem se deixa influenciar pelo outro: inicialmente, compartilhando a bebida preparada por Freddie a partir de solvente; mais tarde, entregando-se a impulsos de raiva potencialmente capazes de destruir a confiança de seus seguidores. E se a dinâmica entre os dois homens exibe indícios de um relacionamento entre pai e filho (algo recorrente na filmografia de Paul Thomas Anderson, vale apontar), eventualmente torna-se possível perceber um sutil contexto homoerótico – ao menos, por parte de Dodd.

Exibindo uma fachada de autocontrole, segurança e autoridade, Philip Seymour Hoffman encarna Lancaster como um homem cuja frustração crescente diante dos obstáculos torna-se aos poucos mais evidente – e é justamente por inicialmente apresentar-se tão sereno que suas explosões cada vez mais frequentes surgem assustadora e surpreendentes. Enquanto isso, Joaquim Phoenix compõe Freddie como um sujeito cuja natureza quebrada manifesta-se fisicamente em seus ombros encurvados e nas mãos que constantemente buscam apoio nos quadris. Empregando uma dicção pouco clara que reflete a dificuldade do personagem de expressar seus sentimentos e ideias, o ator ainda é inteligente ao manter os dentes sempre cerrados e metade da boca paralisada durante os diálogos, evocando um indivíduo tomado pela raiva e que usa a introspecção como mecanismo de autodefesa. Por outro lado, a Peggy Dodd vivida por Amy Adams não se entrega a subterfúgios ou disfarces, o que, de certa forma, a transforma na figura mais forte do longa. Surgindo como uma autêntica Lady Macbeth, ela mantém controle absoluto sobre o marido – e é interessante notar como, em certo momento, ela discute com Lancaster, que, datilografando o novo livro, parece simplesmente transcrever um ditado. Determinada a destruir os oponentes da Causa, Peggy é a primeira das fanáticas do culto, o que pode surgir por sua crença nos ensinamentos do companheiro ou simplesmente por reconhecer, ali, uma oportunidade de dinheiro e poder. Assim, quando ela surpreende o sujeito ao masturbá-lo no banheiro, o gesto não exibe qualquer conotação de amor ou tesão, mas sim de um esforço para mantê-lo sob controle – soando, neste aspecto, quase como uma versão menos radical de castração.

Admirável ao permitir que o filme desenvolva seus temas e personagens ao seguir em direções frequentemente inesperadas, Paul Thomas Anderson continua a demonstrar seu talento descomunal como cineasta tanto pela maturidade de seus temas quanto por seu preciosismo estético – e o paralelismo entre Lancaster e Freddie é constantemente ressaltado através de planos fabulosos como aquele que traz os dois em celas vizinhas: separados apenas por barras, os homens são um exercício de contraste, já que o primeiro se mantém impassível (na medida do possível) enquanto o segundo, como um animal, logo se encarrega de destruir os objetos ao redor.  

Embalado por uma trilha muitas vezes dissonante que, neste aspecto, repete a bem sucedida estratégia de Sangue Negro, Anderson também se diverte ao gradualmente flertar com sequências fantasiosas que, assumindo o ponto de vista de Freddie, trazem representações curiosas de suas fantasias, obsessões e inseguranças – desde uma cena notável na qual todas as mulheres ao seu redor surgem nuas (o que não impede Peggy, mesmo então, de olhá-lo com condenação) até outra na qual recebe um telefonema providencial. Além disso, seu aprendizado com Dodd, mesmo fadado ao fracasso, parece afetá-lo de forma atípica, o que pode ser observado em sua tentativa de repetir com uma parceira sexual o processo de interrogatório criado pelo outro.

Mas até isto é feito pelo rapaz sem qualquer seriedade ou empenho. Condenado à tragédia (posso facilmente imaginá-lo morrendo em uma briga de bar ou intoxicado por sua bebida caseira), Freddie mantém-se sempre em movimento para não morrer, como um tubarão – e talvez (apenas talvez) isto explique a imagem recorrente das águas agitadas deixadas para trás por um navio que cruza o mar com velocidade.

E se não aposto no simbolismo normalmente associado à agua – o de limpeza e purificação – é por acreditar que Freddie Quell não pode nem deseja se purificar. Como seu mestre, está condenado à própria natureza – e não há fantasia religiosa que consiga salvar estes dois homens.

25 de Janeiro de 2013

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