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Poder Sem Limites
(Chronicle)
84 min - 2012 (Estados Unidos)
Um filme de super-herói, criado e contado sob a perspectiva de um garoto de 17 anos, por meio de sua câmera. Todos sonham em ter superpoderes, mas o que acontece quando não se está preparado para lidar com eles? Neste filme, três adolescentes comuns, repentinamente, são capazes de fazer coisas que nunca imaginaram ser possível. No início, eles se divertem, mas quando as pegadinhas tornam-se perigosas, os três amigos terão de lidar com a responsabilidade que virão com estes poderes...
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Josh Trank. Com: Dane DeHaan, Alex Russell, Michael B. Jordan, Michael Kelly, Ashley Hinshaw, Bo Petersen, Anna Wood.

Não deixa de ser curioso que a decisão de contar sua história exclusivamente através de câmeras subjetivas, como em vários outros pseudocumentários, seja ao mesmo tempo a maior força e a maior fraqueza de Poder Sem Limites: por um lado, a estrutura adotada permite que a mais do que batida história ganhe certo frescor e originalidade; por outro, limita a narrativa quando esta encontra seu caminho por obrigá-la a sempre justificar a presença implausível de alguém filmando os acontecimentos. Ainda assim, ao combinar um filme de “super-heróis” com uma trama envolvendo um adolescente raivoso, o longa se torna interessante ao tornar-se uma mistura relativamente eficaz de A Bruxa de Blair, X-Men e Elefante.

Escrito por Max Landis (filho de John), o roteiro acompanha três adolescentes que certa noite encontram uma cratera/túnel e entram em contato com uma espécie de cristal luminoso, adquirindo poderes telecinéticos que, quando desenvolvidos, conferem a eles características de autênticos super-heróis. E pronto. Sim, “espécie de cristal luminoso” é a única explicação que o filme oferece para o que ocorre, mas ao menos esta justificativa é infinitamente mais aceitável do que aquela usada para explicar por que Andrew (DeHaan, sósia do jovem Leonardo DiCaprio) registra com sua câmera tudo que ocorre: “Agora estou filmando as coisas”. Mantendo o equipamento ligado mesmo quando sabe que isto irá lhe trazer problemas (como ao enfocar alguns encrenqueiros da vizinhança), o rapaz é também o protagonista da produção, o que é relativamente raro em obras do gênero, que costumam relegar o câmera à condição de “coadjuvante que será um dos últimos a morrer apenas porque seu fim também será o do filme”. Para contornar o fato de que normalmente não vemos o rosto de quem está por trás do equipamente, Poder Sem Limites logo introduz uma outra personagem que filma tudo ao seu redor porque (juro) “tem um blog”. (Suponho que o endereço seja “blogmaischatodainternet.com.br”.)

Aliás, não demora muito até que a necessidade de justificar a presença da câmera deixe de ser uma exigência narrativa e se transforme em distração desnecessária – e, assim, é impossível levar o filme a sério quando vemos a mãe do protagonista, em estado terminal e mal conseguindo respirar, segurando o equipamento para que vejamos o rapaz ou quando certa personagem continua a registrar tudo mesmo ao ser arrancada de um carro em queda livre. Já no ato final, o diretor estreante Josh Trank desiste de tentar manter qualquer coerência e exibe imagens registradas até mesmo por transeuntes em seus celulares – e, com isso, desejo boa sorte a quem tentar responder como todos os registros foram coletados na versão final do filme, já que até mesmo cenas captadas por câmeras destruídas e desaparecidas encontram-se ali.

Sem jamais encontrar uma maneira de justificar de fato a estrutura adotada, Poder Sem Limites parece ter sido construído assim apenas para conferir certo tom de novidade à história e também como desculpa para a fotografia descuidada e os diálogos rasteiros, já que, de outra maneira, seria inaceitável ouvir um personagem dizendo algo como “Hoje foi o melhor dia da minha vida. Tipo... até hoje, não gostei de nenhum dia como gostei deste”.

Dito isso, o filme tem boa parcela de acertos. Em primeiro lugar, é admirável que, sabendo estar lidando com adolescentes imaturos (e, neste caso, até mesmo tolos), o roteiro continue a retratá-los como babacas irritantes mesmo depois que se tornam poderosos, permitindo que amadureçam apenas gradualmente à medida que vivem certas experiências. Da mesma maneira, a transformação experimentada por Andrew é conduzida com sutileza e inteligência, começando com um ato impensado e impulsivo até chegar a uma postura mais fria e complexa.

Beneficiado ainda por um clímax que, distrações de estrutura à parte, mostra-se repleto de urgência e força, Poder Sem Limites finalmente parece encontrar uma pequena, mas autêntica desculpa para usar as câmeras subjetivas ao tirar o protagonista de trás do equipamento e passar a enfocá-lo apenas a partir do ponto de vista dos demais personagens, ilustrando o próprio distanciamento do espectador de uma figura que já não merece mais a nossa companhia e que tampouco a deseja.

Não é algo que resolva todos os inúmeros problemas provocados pela narrativa em pseudocumentário, mas é um consolo em um filme que merecia ter sido desenvolvido com mais cuidado.

02 de Março de 2012

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