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Na Terra de Amor e Ódio
(In the Land of Blood and Honey)
127 min. - Drama - 2011 (Estados Unidos)
Duas pessoas se conhecem e se apaixonam em plena Guerra da Bósnia, conflito que durou de 1992 a 1995.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Angelina Jolie. Com: Goran Kostic, Zana Marjanovic, Rade Serbedzija, Nikola Djuricko, Boris Ler, Alma Terzic, Vanesa Glodjo.

Eu admiro as convicções políticas de Angelina Jolie. Como estrela de Hollywood, seria muito fácil, para a atriz, doar fortunas para organizações e instituições beneficentes e encerrar por aí seu ativismo. Em vez disso, porém, Jolie frequentemente viaja para regiões miseráveis que enfrentam dificuldades climáticas ou provocadas por humanos (leia-se: guerras) a fim de sujar as mãos na poeira local com o objetivo de atrair a atenção do mundo para os problemas ali enfrentados. Assim, é compreensível que, ao estrear como roteirista e diretora, a moça tenha escolhido ambientar seu filme em um período e uma região que testemunhou atrocidades diversas; por outro lado, é difícil negar que sua abordagem artística alcança resultados apenas medianos.

Iniciando a projeção com letreiros que explicam o contexto histórico que levou às ações do exército sérvio durante a guerra na Bósnia, entre 1992 e 1995, Na Terra de Amor e Ódio logo nos apresenta à pintora muçulmana Ajla (Marjanovic) e ao policial sérvio e cristão Danijel (Kostic), que se conhecem num bar, certa noite, e claramente se interessam um pelo outro – até que uma explosão destrói tudo ao redor do casal, indicando o início do conflito. Meses depois, quando Danijel já assumiu a posição de oficial do exército, Ajla é trazida a um centro de detenção/campo de concentração ao lado de dezenas de outras mulheres que passam a ser estupradas – e a garota acaba sendo salva pelo ex-interesse românico, que passa a protegê-la enquanto um namoro atípico tem início.

Já de imediato, Jolie merece créditos por evitar a muleta que a maioria de seus conterrâneos empregaria, introduzindo um personagem norte-americano na história para estabelecer alguma identificação maior com o público. Em vez disso, ela busca transformar a dinâmica entre o casal principal no foco da narrativa, buscando revelar a natureza generosa de Danijel e a culpa que Ajla passa a sentir por literalmente dormir com o inimigo. Da mesma maneira, Jolie, ciente de que a maior parte do público desconhecerá os pormenores do conflito, emprega o general vivido por Rade Serbedzija para oferecer algum contexto através de um monólogo que explica a atuação dos sérvios ao longo dos séculos e a maneira com que estes foram tratados pelos mesmos muçulmanos que agora massacram – uma justificativa absurda, claro, mas que ao menos funciona para evitar que vejamos aqueles indivíduos como meros demônios sedentos de sangue.

Não que consigamos evitar esta impressão, já que Jolie não hesita em retratar o genocídio promovido pelos sérvios de maneira chocante, gráfica e impiedosa, já que, além de promover o estupro sistemático das muçulmanas, os sérvios parecem encarar qualquer civil como alvo, disparando contra qualquer um que saia nas ruas e utilizando mulheres como escudos humanos (e o destino de um bebê se mostra particularmente pavoroso). A diretora, diga-se de passagem, conduz estas sequências de violência e guerra com segurança admirável, sendo auxiliada pela fotografia cinzenta e melancólica de Dean Semler.

É uma pena, portanto, que Na Terra de Amor e Ódio se perca justamente ao tentar trazer alguma dimensão humana para a trama, já que, para isso, se concentra excessivamente na tola historinha de amor que tenta contar – e um dos problemas reside no fato de que jamais acreditamos verdadeiramente nos sentimentos do casal: Danijel parece frio demais e, além disso, claramente usa sua posição de poder para eventualmente levar a parceira para a cama (mesmo que ele não chegue a obrigá-la, que alternativa ela teria? Ser entregue aos oficiais estupradores?), ao passo que Ajla não parece se importar de fato com o destino do amante. Infelizmente, são estes dois que dominam a projeção em seus encontros e desencontros que tendem à repetição.

Ao final, Jolie parece acreditar que a angústia de Danijel diante de seus crimes será o bastante para transmitir algum tipo de mensagem política sobre a desumanização provocada pela guerra, mas isto, claro, é algo que faz parte da própria natureza de conflitos bélicos. E, assim, ficamos com a impressão de que a diretora estreante, em seu desejo de criar um filme-denúncia, se esqueceu de que seria recomendável investir em uma história eficaz que o fizesse funcionar como narrativa.

10 de Outubro de 2012

Crítica originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2012.

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