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Branca de Neve e o Caçador
(Snow White and the Huntsman)
128 min - 2012 (Estados Unidos)
Releitura do conto de fadas. A rainha manda o caçador levar Branca de Neve, enteada dela, para a floresta e matá-la. No entanto, ele a libera e se torna uma espécie de mentor da garota, ensinando-lhe a lutar e sobreviver.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Rupert Sanders. Com: Kristen Stewart, Chris Hemsworth, Charlize Theron, Sam Claflin, Sam Spruell, Ian McShane, Bob Hoskins, Ray Winstone, Nick Frost, Eddie Marsan, Toby Jones, Johnny Harris, Brian Gleeson, Vincent Regan, Lily Cole.

Imaginem um filme que escalasse, para viver os anões do conto de Branca de Neve, um grupo composto por Ian McShane, Bob Hoskins, Ray Winstone, Nick Frost, Toby Jones e Eddie Marsan. Agora imagine que depois de conseguir este elenco formidável, a produção decidisse introduzi-los na história na metade da projeção, optando, em vez disso, por focar as aventuras de um triângulo amoroso composto por Bella Swan, Thor e o missionário amante de sereias de Piratas do Caribe 4. Imaginou? Pois é. (A propósito: Team Caçador!)

Escrito pelo estreante Evan Daugherty e reescrito pelos irregulares John Lee Hancock (Um Sonho Possível, Um Mundo Perfeito) e Hossein Amini (Conspiração Xangai, Drive), Branca de Neve e o Caçador já tem início com uma longa sequência que, narrada por Chris Hemsworth, abusa do off para colocar os personagens em seus devidos lugares antes que a ação possa de fato começar – e a ideia de trazer Hemsworth como narrador (função que ele abandonará posteriormente, diga-se de passagem) é uma maneira óbvia de compensar o equívoco estrutural de apresentá-lo ao espectador depois de meia hora de narrativa. E qual deveria ser a pressa? Ele é apenas um dos personagens-título, certo? Assim, quando os dois heróis finalmente se encontram, a história se transforma numa jornada que eventualmente envolverá os oito (ops) anões, uma feiticeira que quer arrancar o coração da mocinha em busca de vida eterna e sequências de combate emprestadas de centenas de filmes infinitamente superiores.

Não que a ideia de trazer uma versão sombria da fábula seja ruim; ao contrário, remete às suas origens alemãs que, compiladas pelos irmãos Grimm, eram infinitamente mais assustadoras que a produção que marcou a estreia da Disney nos longas de animação. Não, o problema é que, ao tentar fazer isto, os roteiristas criam uma salada de frutas indigesta que combina Joana D’Arc (a versão de Luc Besson, bem entendido), Crepúsculo, Indiana Jones e o Templo da Perdição, As Crônicas de Nárnia e os Teletubbies. Assim, Branca de Neve de repente vira uma jovem capaz de liderar exércitos e que, sendo “A Escolhida”, enfrenta uma bruxa capaz de parar o coração de seus inimigos com a mão em garra, sendo obrigada a fugir até ser abençoada por um animal mítico enquanto se divide entre dois galãs e passeia por um jardim ensolarado e esverdeado populado por fadas que poderiam ter uma televisão na barriga e gritar “De novo!” de cinco em cinco minutos. Faltou apenas uma mulher que se banhasse numa piscina de sêmen, como Cleópatra supostamente fazia, e teríamos uma experiência que só poderia ser apropriadamente apreciada quando acompanhada por LSD. (E, sim, eu sei que a “substância branca” não é identificada e parece ser leite, mas para bom entendedor um pingo é esperma.)

Eficiente do ponto de vista técnico, Bella de Neve e o Caçador acerta como espetáculo visual, desde os vestidos usados pela feiticeira Ravenna (Theron) até o figurino principal da protagonista, que homenageia apropriadamente aquele usado pela princesa da Disney ao mesmo tempo em que o drena de cor para adequá-lo melhor ao universo sombrio da história. Da mesma maneira, o design de produção emprega com competência os efeitos visuais para criar cenários imponentes que oscilam entre o realismo fantástico (o castelo) e o absolutamente fabulesco (a floresta com cogumelos que exibem olhos e animais cobertos de musgo). Nada, porém, se compara à ideia brilhante de trazer uma aldeia habitada por mulheres cujas cicatrizes faciais parecem ser o resultado de anos de atrito causado por lágrimas constantes – e quando a origem das marcas é explicada, confesso ter ficado desapontado pela justificativa pragmática para algo que poderia ser simplesmente um símbolo perfeito de sofrimento.

Contando com uma estrutura falha que já é denunciada pela narração posteriormente abandonada, o roteiro escrito a seis mãos evidencia também a falta de planejamento ao empregar incidentes constantes no lugar de uma construção narrativa cuidadosa: assim, depois da introdução, o longa se concentra nas ações de Ravenna apenas para se converter em um road movie assim que o Caçador entra em cena – e até mesmo o tom estabelecido pelo diretor estreante Rupert Sanders expõe a confusão dos realizadores com relação ao próprio material, já que subitamente, no meio do terceiro ato, transforma os anões em mero alívio cômico, buscando um humor até então absolutamente ausente da narrativa. Neste sentido, é como se o cineasta subitamente pensasse: “Ei, meu filme é cheio de anões e não tem graça? Mas anões são criaturas engraçadas!”.

Sanders, aliás, demonstra imenso potencial para se tornar um fracasso absoluto como diretor: além da atmosfera incerta da narrativa, ele dirige as sequências de ação como se estivesse sofrendo um ataque epilético durante as filmagens – e em certo momento, William (Claflin) é atacado por alguém durante um incêndio e o espectador não consegue sequer identificar quem era o agressor, já que a vila era habitada apenas por mulheres e Thor (perdão: o “Caçador”) se encontrava distante. Para piorar, Sanders é mais um a se entregar à “Escola J.J. Abrams de Flares e Outros Artefatos de Técnica Dispensáveis”, parecendo acreditar que isso o tornará um autor em vez de apenas um plagiador visual. E se elogiei o design de produção auxiliado pelos efeitos visuais, é importante apontar que até mesmo estes últimos falham de quando em quando – e o plano que mostra fadas saindo do corpo de pombos é digno de figurar em qualquer antologia “Fiz Sozinho no Meu PC”.

Há alguns prazeres espalhados pelo filme, claro – e a maior parte deles responde pelo nome “Charlize Theron”, que, numa atuação calculadamente over, faz o que os norte-americanos chamam de “devorar o cenário” com uma fome admirável (e qualquer espelho que aponte Kristen Stewart como “mais bela” que Theron deveria ser quebrado e ter seus pedaços convertidos em óculos escuros para cantores cegos). Por outro lado, é impossível não notar a inconsistência básica na concepção de Ravenna, que, embora seja movida por um ódio visceral contra os homens, acaba punindo um número bem maior de mulheres em seu cotidiano de vilã. Enquanto isso, Stewart, que no passado demonstrava potencial como intérprete, parece ter permitido que a série Crepúsculo expusesse todo o seu arsenal de muletas como atriz, da boca constantemente entreaberta à inflexão incerta das falas, passando pelos olhos constantemente marejados, o arrumar de cabelos e a expressão congelada na insegurança – e quando Branca de Neve faz um discurso para mover seu exército, eu só conseguia pensar: “Quem seria maluco de cavalgar ao lado de Bella Swan?”.

Os anões, claro. Os desperdiçados anões. Embora, convenhamos, eles provavelmente acabassem sendo desperdiçados mesmo que protagonizassem o filme; afinal, é duro perceber como até mesmo o anão cego vivido por Bob Hoskins parece enxergar na maior parte do tempo, não se furtando nem mesmo de soltar um hilário “Ninguém nunca viu isso antes” durante um encontro mágico. Pois eu, em seu lugar, perguntaria: “Se todos os meus companheiros foram curados por você, dona, por que eu continuo cego?”.

Estou certo de que Branca de Neve responderia mordendo os lábios, mexendo nos cabelos e exibindo os olhos marejados.

05 de Junho de 2012

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