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O Homem da Máfia
(Killing Them Softly)
100 min. - Crime, Thriller - 2012 (Estados Unidos)
O investigador Jackie Cogan investiga um assalto que ocorre durante um jogo de pôquer que acontece sob a proteção da máfia.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Andrew Dominik. Com: Brad Pitt, Scott McNairy, Ben Mendelsohn, Richard Jenkins, James Gandolfini, Ray Liotta, Vincent Curatola, Sam Shepard, Linara Washington.

Os Estados Unidos não são um país; são um negócio!”, exclama o matador profissional Jackie Cogan em certo momento de O Homem da Máfia, terceiro longa do neozelandês Andrew Dominik – e se considerarmos os esforços do cineasta para estabelecer uma conexão entre os eventos do filme e a crise econômica deflagrada no final dos anos 2000 graças à ganância e à falta de escrúpulos de Wall Street, é fácil perceber Cogan como um funcionário comum de uma empresa qualquer reclamando da falta de visão de seus chefes e, em contrapartida, os grandes banqueiros como versões em terno Armani dos violentos mafiosos que habitam as páginas policiais. Mais do que isso: temerosos em função do desastre financeiro provocado por seus colegas da bolsa, os bandidos retratados por Dominik estão longe daqueles gângsteres que atiravam notas de cem dólares no chão ou distribuíam gorjetas por um sorriso; em vez disso, aqui precisam regatear preços com assassinos profissionais ou consultar os superiores antes de aprovarem uma verba de mil dólares para uma armação qualquer.

Escrito pelo próprio diretor (responsável pelo ótimo Chopper – Memórias de um Criminoso e pelo magistral O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford) a partir do livro de George V. Higgins, O Homem da Máfia se passa em 2008, durante as eleições norte-americanas que culminariam na vitória de Obama – e ao longo da narrativa, frequentemente entreouvimos trechos dos discursos dos candidatos sobre a situação econômica do país enquanto os personagens discutem seus próprios problemas. E que problemas: depois que os pequenos marginais Frankie (McNairy) e Russell (Mendelsohn) assaltam uma casa de jogos repleta de indivíduos que ninguém são gostaria de irritar, os chefões mafiosos donos do estabelecimento enviam o matador Cogan (Pitt) para encontrar os responsáveis, usando o advogado interpretado por Richard Jenkins como contato intermediário.

Estabelecendo o tom tangencialmente alegórico da narrativa logo nos segundos iniciais, quando vemos Frankie caminhando em um bairro decadente da sofrida New Orleans enquanto a trilha dissonante e incômoda é intercalada com trechos de falas de Obama, o diretor parece menos interessado na trama do que nos personagens, investindo em longas cenas que acompanham conversas que pouco têm a ver diretamente com a história, servindo, em vez disso, para desenvolver aquele universo e seus habitantes patéticos e violentos. Assim, quando o pequeno aspirante a mafioso Johnny “Squirrel” Amato (Curatola) diz “Não somos os únicos espertos deste mundo”, é impossível deixar de perceber a falta de compreensão que o sujeito tem de sua própria estupidez e do fato de estar dando início a uma série de incidentes que dificilmente o deixarão vivo.

Neste sentido, os repugnantes Frankie e Russell são representantes perfeitos do mundo concebido por Higgins (também responsável pelo livro que deu origem ao ótimo Os Amigos de Eddie Coyle): enquanto o primeiro se apresenta como um perdedor clássico que não consegue nem mesmo ser um criminoso minimamente eficaz, o segundo é vivido pelo ótimo Ben Mendelsohn (que merecia prêmios por sua performance) como um drogado de mente constantemente embotada cujos esquemas grandiosos provocariam embaraço até mesmo no mais tolo dos bandidos – e Dominik retrata a frustração de se manter uma conversa com um sujeito mergulhado na química de sabe-se lá quantas drogas com perfeição, empregando um desenho de som enlouquecedor e planos distorcidos que levam o espectador a desejar esbofetear Russell para que ele acorde de seu estupor. Enquanto isso, o matador encarnado por James Gandolfini (que transformou sua respiração pesada de obeso em uma arte admirável em si própria) surge como um homem que, depois de décadas entregue ao crime, finalmente parece perceber que a única coisa que construiu com suas ações foi um futuro de solidão.

Assim, não é difícil, para o espectador, estabelecer certa identificação com o Cogan de Brad Pitt, já que, com seus métodos tradicionais (ele parece saído diretamente dos anos 70 e surge em cena ao som de “The Man Comes Around”, de Johnny Cash), ele parece ser a única criatura razoavelmente sã e inteligente naquele universo – o que não quer dizer, claro, que seja um homem com quaisquer princípios morais, já que, por exemplo, decide matar um homem inocente apenas por acreditar que aquilo será bom para os negócios de seus empregadores. Competente em sua brutalidade, Cogan é perfeitamente capaz de demonstrar preocupação genuína com o bem estar financeiro e psicológico de um colega apenas para, no instante seguinte, incriminá-lo por julgá-lo inconveniente e instável. De todo modo, ao longo de O Homem da Máfia o sujeito atinge dimensões icônicas em sua frieza e impessoalidade – algo que Dominik e o diretor de fotografia Greig Fraser ilustram de forma belíssima em um plano que traz o rosto gigantesco de Pitt superposto a uma paisagem nublada, fria e devastada pela miséria.

Hábil ao criar sequências tensas como a do assalto à casa de jogos e brutais como a do espancamento sob a chuva, Andrew Dominik ainda transforma a execução de determinado personagem em um espetáculo poético ao empregar a câmera lenta para mostrar as balas resvalando em gotas de chuva e o para-brisas de um carro partindo com o impacto da cabeça da vítima – e em vez desta estilização soar como uma glorificação da violência, acaba refletindo apenas a filosofia do matador de Brad Pitt expressa no título original e que envolve a execução “suave” de seus alvos com o objetivo de impedir sofrimento desnecessário e embaraço para o assassino em função de choros e pedidos de clemência. (E, neste aspecto, ela reflete bem a cena que dava título a O Assassinato de Jesse James.)

Por outro lado, se o diretor acaba exagerando na inserção de referências à crise econômica, parecendo não confiar totalmente em nossa capacidade de perceber suas intenções mesmo depois de incluir três ou quatro discursos de políticos, a verdade é que sua preocupação temática acaba sendo bem representada pela mentalidade corporativa manifestada pelo advogado vivido por Jenkins e, principalmente, pelo fantástico plano no qual o assassino encarnado por Gandolfini percorre o saguão de um aeroporto puxando sua maletinha como um executivo qualquer. Com isso, Dominik insere O Homem da Máfia no movimento temático iniciado pelo Cinema norte-americano do pós 11 de Setembro que constantemente (e com razão) enxerga as grandes corporações como vilãs de preferência em função da falta de caráter e humanidade de seus líderes e lobistas.

Comparados a Wall Street, os Corleone seriam amadores.

30 de Novembro de 2012

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