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Flores do Oriente
(Jin líng shí san chai)
146 min. - Drama - 2011 (China/Hong Kong)
Na devastada cidade de Nanjing, em 1937, o perigo das ruas fez com que um grupo inimaginável de refugiados se reunisse em uma igreja: um bando de crianças em estado de choque, algumas sedutoras e provocantes cortesãs e um renegado americano que se passa por padre para salvar a própria pele. Emboscados por saqueadores, ao longo dos próximos dias eles vão lutar não apenas para sobreviver, mas também para fazer o que parece ser impossível nestas circunstâncias - compreender e confiar um no outro.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Zhang Yimou. Com: Christian Bale, Ni Ni, Zhang Xinyi, Huang Tianyuan, Tong Dawai, Cao Kefan, Atsurô Watabe, Sun Jai, Li Yuemin, Bai Xue, Takashi Yamanaka, Shigeo Kobayashi, Paul Schneider.

Em 1937, durante a segunda guerra sino-japonesa, um dos maiores pesadelos perpetrados pela humanidade teve lugar na então capital chinesa de Nanquim, quando mais de trezentas mil pessoas foram massacradas pelo exército invasor em um espetáculo de crueldade que envolvia o estupro sistemático de mulheres frequentemente seguido pela execução das vítimas. É natural, portanto, que esta ferida na consciência nacional da China tenha gerado versões cinematográficas – mas se em 2009 o cineasta Lu Chuan comandou o impactante O Massacre de Nanquim, desta vez seu experiente colega Zhang Yimou realiza um filme que peca ao ouvir a expressão “espetáculo de crueldade” e conferir maior peso à primeira palavra do que à segunda.

Baseado em um livro de Yan Geling, o roteiro de Liu Heng (antigo colaborador de Yimou) tem início quando os japoneses praticamente já dominam Nanquim e se dedicam a derrotar os soldados chineses remanescentes e a aterrorizar a população local. Em meio à brutalidade e ao caos, o agente funerário norte-americano John Miller (Bale) tenta chegar a uma catedral a fim de enterrar o padre europeu que ali residia – e no caminho acaba encontrando duas estudantes do convento. Logo, a catedral se transforma numa espécie de santuário que abriga não apenas Miller e uma dúzia de jovens alunas, mas também um grupo de prostitutas lideradas pela forte Mo Yu (Ni). Aos poucos, aquelas pessoas se aproximam enquanto buscam encontrar uma maneira de escapar da cidade, tornando-se mais desesperadas quando os japoneses anunciam que as estudantes terão que comparecer a uma festa dos oficiais, o que provavelmente resultará no estupro e na morte das meninas.

Empregando sem pudor a tática de escalar um ocidental como protagonista a fim de tornar o longa mais “acessível” às plateias brancas espalhadas pelo mundo, Flores do Oriente compensa um pouco o cinismo da estratégia graças à excelente performance de Christian Bale, que, mesmo vivendo um arco dramático de redenção clássico (eufemismo para “clichê”), consegue conferir tridimensionalidade a John Miller ao retratá-lo como um homem que frequentemente se comove diante não do sofrimento, mas do altruísmo alheio – e em vários momentos o sujeito vai às lágrimas ao testemunhar atos de coragem dos quais provavelmente se julga incapaz. Por outro lado, é irritante perceber como o roteiro de Heng, não contente com a trajetória do personagem, insiste em tentar transformá-lo em uma figura triste através de uma tragédia pessoal mencionada quase que ao acaso em uma cena já no fim do segundo ato (uma revelação que soa quase tão artificial quanto o momento em que alguém diz para Miller que aquela “é sua última chance de escapar”).

E se os japoneses são retratados pelo filme como verdadeiros animais (uma caricatura que, considerando o que os soldados nipônicos fizeram em Nanquim, somos obrigados a aceitar como realidade, infelizmente), as personagens femininas, por outro lado, ganham contornos estoicos e nobres – o que não é de se estranhar em um longa de Zhang Yimou, que construiu sua carreira enfocando mulheres fortes e/ou dispostas a grandes sacrifícios, desde Amor e Sedução e Lanternas Vermelhas até o recente A Árvore do Amor, passando por O Caminho para Casa, O Clã das Adagas Voadoras e A Maldição da Flor Dourada. Aqui, porém, a fascinação do cineasta por suas atrizes acaba resultando frequentemente em uma abordagem teatral de adoração, já que as mulheres são enfocadas repetidas vezes em grupos e voltadas para a câmera em poses artificiais, quase como estátuas erigidas em homenagem às figuras que representam.

Impressionando com seu detalhista design de som (especialmente na sequência inicial, que se esmera ao reproduzir o ruído de cada peça de artilharia, desmoronamentos, passos e gritos) e com uma fotografia magnífica de Zhao Xiaoding (outro colaborador habitual de Yimou), Flores do Oriente é plasticamente admirável – o que, por incrível que pareça, acaba se tornando um problema. Sim, é fácil admirar a poeira em suspensão, a fumaça e mesmo a nuvem de farinha que tomam conta da tela em vários momentos do primeiro ato, mas o fato é que quando a obsessão estética do cineasta leva-o a enfocar uma chuva de cores durante a explosão de uma fábrica de papéis, começamos a perceber que sua maior preocupação talvez esteja na criação de um belo espetáculo, não na recriação de uma tragédia real – e, da mesma maneira, quando vemos uma bala atravessando um lindo vitral em câmera lenta e atingindo o pescoço de uma garota, somos quase levados a aplaudir a beleza daquela morte em vez de nos contorcermos pela perda de uma vida tão jovem.

Assim, enquanto meu lado cinéfilo aplaudia o virtuosismo do plano-sequência que acompanhava a perseguição de duas mulheres em meio a ruínas concebidas com perfeição pela direção de arte ou a elegância do plano em câmera lenta que ilustrava o sacrifício de uma fila de soldados chineses, meu lado humanista me fazia experimentar uma inegável culpa por celebrar a estética do filme quando deveria estar chorando pela tragédia ali representada. Como se não bastasse, Yimou demonstra certa covardia em um desfecho que evita encarar as consequências da decisão tomada pelas personagens, optando por um final emotivo, mas não muito verossímil.

Ao final, porém, resta ao espectador a lembrança da figura tocante de John Miller, que comove através de suas mentiras bem intencionadas e de sua capacidade de se emocionar com a bondade alheia. Seria apenas mais eficiente se esta sensibilidade não fosse afogada em uma chuva de cores bonitas que maquiam um mundo cuja feiura deveria estampar a tela sem enfeites, subterfúgios ou fantasias.

25 de Maio de 2012

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