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Shame
(Shame)
101 minutos - Drama - 2011 (Reino Unido)
Sissy (Mulligan) é uma adolescente rebelde que vai passar um tempo com o irmão Brandon (Fassbender), um sujeito de 30 anos e que está tentando superar suas compulsões sexuais.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Steve McQueen. Com: Michael Fassbender, Carey Mulligan, Nicole Beharie, James Badge Dale.

No metrô, a bela mulher devolve seu olhar de interesse com um sorriso de flerte. Percebendo o desejo do homem à sua frente, ela cruza as pernas sugestivamente indicando estar ciente do que está ocorrendo enquanto espera uma abordagem mais direta. Aos poucos, porém, algo lhe ocorre: o sujeito não sorri ou demonstra qualquer sinal de registrar o prazer da sedução mútua, parecendo interessado apenas em estabelecer a possibilidade do sexo antes de fazer qualquer movimento. Subitamente, a situação se torna insuportavelmente desconfortável e a garota, sem compreender exatamente o que se passa na mente do homem, sai rapidamente do vagão por temer a avaliação fria daquele olhar.

Ocorrendo nos primeiros minutos de Shame, esta cena já pontua com firmeza a natureza do protagonista, Brandon Sullivan (Fassbender): absolutamente viciado em sexo, ele pensa constantemente no orgasmo, dedicando-se à busca por uma transa com o mesmo empenho com o qual se masturba, contrata prostitutas ou visita chats pornográficos – e se a expressão “viciado em sexo” parece estranha, já que normalmente não pensamos em dependência quando lidamos com algo que soa tão natural e prazeroso, é porque muitas vezes nos esquecemos de que esta é precisamente a natureza do vício: transformar o prazer em obsessão.

Escrito pelo diretor Steve McQueen ao lado de Abi Morgan (a mesma roteirista do pavoroso A Dama de Ferro), Shame volta a reunir o cineasta e o protagonista de seu perturbador Fome, Michael Fassbender, em um estudo de personagem complexo e triste que tem como centro um homem para o qual o orgasmo se converteu apenas numa dose de sua droga favorita. Não é à toa que Brandon encara sua paquera do metrô com a intensidade de um drogado: à sua frente encontra-se não uma possível fonte de prazer afetivo ou mesmo sexual, mas uma criatura que é ao mesmo tempo a fornecedora de sua droga de escolha e a droga em si – e ninguém romantiza um traficante.

Divorciado de qualquer ligação emocional, o protagonista do longa é um homem que manifesta seu apego à impessoalidade nas roupas sem vida que veste e no apartamento desprovido de decoração, fotos ou calor – e portanto, quando sua irmã caçula invade seu cotidiano trazendo seus adereços coloridos e uma natureza dependente, Brandon reage com raiva e confusão. No entanto, mesmo que a frágil Sissy (Mulligan) persiga ex-parceiros românticos com diligência similar à do irmão ao evitar qualquer traço de romantismo, ambos se apresentam como figuras profundamente machucadas e com pendor à autodestruição, compartilhando um passado certamente traumático cujas circunstâncias o roteiro não precisa expor para que compreendamos as cicatrizes psicológicas por elas deixadas.

Vivido por Fassbender como um indivíduo que encontra na rotina uma forma de colocar alguma ordem em sua vida, Brandon não hesita em cortar todo tipo de ligação emocional ainda na raiz – e mesmo que diga não acreditar na monogamia ou no casamento, o fato é que esta é apenas uma racionalização barata para aquilo que realmente teme: depender do afeto de outra pessoa. Aliás, não é difícil compreender sua visão, já que, além de seu passado obviamente inquietante, o exemplo mais próximo que tem de núcleo familiar vem de seu amigo e chefe, que, casado, não se cansa de buscar novas transas enquanto mantém uma dinâmica distante com o próprio filho através de conversas via Skype. Assim, quando é traído pelo próprio membro ao tentar ir para a cama com uma mulher que realmente lhe interessa, Brandon revela muito sobre si mesmo ao recuperar a ereção no momento seguinte com uma prostituta, já que sua impotência não é física, mas emocional.

Enfocado por McQueen e pelo diretor de fotografia Sean Bobbitt constantemente nos extremos do quadro ou mesmo partido pelos limites do campo, Brandon é literalmente representado pelo filme como um homem incompleto e acuado pela solidão – e, da mesma maneira, é preciso admirar a inteligência dos realizadores ao enfocarem os vários interesses sexuais do sujeito a partir de planos-detalhe que se concentram pontualmente em braços, pernas ou detalhes do rosto, raramente exibindo aquelas mulheres como figuras completas, já que, com isso, acabam despersonalizando-as exatamente como Brandon faz e enxergando-as apenas como pedaços de carne com um propósito claro de provocar prazer. E se em certo momento o protagonista parece se satisfazer em um ménage à trois, McQueen exclui qualquer traço de erotismo da cena ao enquadrar aqueles corpos e seus movimentos de forma mecânica e aflitiva, contrastando-os ainda à expressão complexa no rosto do sujeito, que parece experimentar um misto de dor e tristeza ao buscar mais um orgasmo.

Assim, seria um erro encarar Brandon como um “mulherengo”, já que, para ele, suas parceiras são apenas um acessório – e opcional – em busca da próxima ejaculação. Neste sentido, aliás, seria incorreto até mesmo defini-lo como hetero, homo ou bissexual, já que gênero é um conceito que não importa realmente para alguém que exige apenas o estímulo de uma cavidade – e acompanhar a trajetória deste homem rumo à possibilidade de uma conexão real é uma experiência que Shame executa com delicadeza através de longos planos que ressaltam o desconforto de um primeiro encontro ou sua triste constatação de que há um motivo para que sua irmã consiga transformar “New York, New York”, a mais desafiadora das canções, em um lamento triste e resignado, já que ambos já chegaram à cidade derrotados por seus passados e por suas dificuldades particulares diante do amor.

E mesmo que Brandon nos abandone sem livrar-se de seus demônios pessoais, o simples vazio melancólico de seu olhar já serve como indício, no mínimo, de uma percepção mais clara acerca de sua própria natureza. E como qualquer especialista em viciados pode afirmar, o reconhecimento de se ter um problema é o primeiro passo rumo à recuperação – o que, no caso do protagonista de Shame, seria a possibilidade de redescobrir que o orgasmo é mais do que uma sensação física no vácuo; é uma comunhão com o próximo.

03 de Março de 2012

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