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O Exótico Hotel Marigold
(The Best Exotic Marigold Hotel)
124 min - Comédia - 2011 (Reino Unido)
Aposentados britânicos viajam para a Índia para morar no que acreditam ser um recém reformado hotel, mas o lugar não é tão luxuoso quanto parecia nos anúncios.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por John Madden. Com: Judi Dench, Tom Wilkinson, Bill Nighy, Maggie Smith, Penelope Wilton, Ronald Pickup, Celia Imrie, Dev Patel, Tena Desae, Lillete Dubey.

O Cinema costuma ignorar os idosos. Quando surgem em um filme, são coadjuvantes marcados para a morte ou sábios que distribuem conselhos e verdades do alto de sua experiência. Poucos são os longas que os trazem como centro da narrativa ou que os tratam como criaturas tridimensionais que não deixam de falhar apenas porque viveram mais do que aqueles que se lembrariam de seus erros passados. Infelizmente, se por um lado O Exótico Hotel Marigold merece créditos por enfocar o drama e a comédia da terceira idade, por outro não deixa de desapontar ao apostar num roteiro frágil cujos equívocos muitas vezes acabam sendo disfarçados simplesmente graças à qualidade de seu elenco formidável.

Baseado em livro de Deborah Moggach, o roteiro de Ol Parker acompanha sete indivíduos às voltas com a tristeza e o desapontamento de um epílogo distante daquele que haviam sonhado na juventude: Evelyn (Dench) é uma viúva recente que é obrigada a se desfazer de sua casa em função das dívidas deixadas pelo marido; Graham (Wilkinson) é um juiz aposentado que carrega a culpa de uma antiga omissão; Douglas e Jean (Nighy e Wilton) formam um casal falido depois de um empréstimo à filha; Muriel (Smith) é uma racista fragilizada por problemas de saúde; Norman (Pickup) é um homem em busca de uma última paixão; e Madge (Imrie) é uma mulher em busca de um último marido rico. Levados por diferentes circunstâncias, eles se mudam para o hotel do título, que, administrado pelo jovem Sonny (Patel), está longe de cumprir a promessa da brochura que os convenceu acerca da mudança – e nunca é um bom sinal quando o responsável pela hospedagem é obrigado a assegurar os hóspedes de que “a porta chegará logo”.

Criando um eficiente primeiro ato que nos apresenta àquelas pessoas de maneira direta e sensível, o roteiro é hábil, por exemplo, ao trazer o filho de Evelyn assegurando o advogado da família que sua mãe irá mudar para sua casa – uma decisão que ele aparentemente toma sem consultá-la, tratando-o como uma inválida incapaz de opinar acerca do próprio destino. Da mesma maneira, é duro perceber como um corretor de imóveis não hesita em dizer para Douglas e Jean como o apartamento que pretendem alugar permitirá a instalação de alarmes para o caso de quedas, sugerindo uma decadência física que eles certamente não têm a menor intenção de abraçar. São momentos como estes, aliás, que parecem sugerir uma sensibilidade temática que O Exótico Hotel Marigold lamentavelmente abandonará em prol dos clichês e de soluções fáceis.

É possível, diga-se de passagem, apontar o instante exato em que o filme despenca: assim que transporta sua ação para a Índia, o cineasta John Madden (Shakespeare Apaixonado) escancara um sentimento de superioridade alarmante em relação à cultura que pretende enfocar – algo que surge disfarçado por uma condescendência ofensiva e por piadas que beiram o insulto. Reparem, por exemplo, a elipse “cômica” que justapõe o comentário de Jean, que diz que aquele país parece “mais civilizado do que imaginava”, e o plano que traz os personagens perdidos em meio ao caos de ruas abarrotadas de pessoas, cores e sons: embora o propósito aparente seja o de fazer uma simples piada através do contraste, é impossível não perceber o julgamento do filme acerca daquela imagem, que trata o “exótico” (leia-se: o diferente) simplesmente como algo inferior. Além disso, não é à toa que praticamente todos os personagens indianos surgem como caricaturas, desde a mãe obcecada com honra e dinheiro até o rapaz cartunesco vivido por Dev Patel – que desde sua estreia em Quem Quer Ser um Milionário? viveu exclusivamente tipos unidimensionais.

Não que o projeto não tenha sua parcela de acertos: o design de produção de Alan MacDonald, por exemplo, consegue a proeza de transformar o Marigold em um lugar aconchegante e agradável ao mesmo tempo em que expõe sua decadência – e, da mesma forma, as locações conferem charme à narrativa, destacando-se aquela que só consigo descrever como “uma piscina cercada por antigas escadarias”. E há, claro, o elenco: mesmo presa a incidentes implausíveis (como sua personagens ser inexplicavelmente contratada como consultora cultural, alterando o roteiro de vendas dos funcionários de um call center sem ter qualquer preparo para isso), Judi Dench empresta densidade a Evelyn, evocando com sensibilidade a insegurança de uma mulher que pela primeira vez busca a independência. E se Penelope Wilton, Celia Imrie e Ronald Pickup encarnam estereótipos que oscilam entre o irritante e o tolo, Tom Wilkinson transforma Graham no indivíduo mais complexo da narrativa, expondo suas dores e arrependimentos de forma comovente (e aplausos também devem ser direcionados ao sempre confiável Bill Nighy, que é competente ao ilustrar a divisão de Douglas diante do negativismo da esposa e do frescor representado por Evelyn). Fechando o elenco, Maggie Smith faz um verdadeiro milagre ao conferir um mínimo de verossimilhança às mudanças experimentadas por Muriel, sendo capaz de comunicar muito mais com um olhar do que Dev Patel transmite com uma enxurrada de palavras.

Ao fim, no entanto, O Exótico Hotel Marigold sucumbe justamente por tentar amarrar de maneira bonitinha demais as suas subtramas e seus conflitos, apostando estupidamente em alterações bruscas de comportamento de certos personagens e em ações implausivelmente nobres por parte de criaturas que até então não haviam demonstrado qualquer possibilidade de redenção pessoal. Para piorar, a insistência em resumir as liçõezinhas de moral da história através da narração de Evelyn é uma decisão simplista, preguiçosa e artificial.

Ainda assim, há certa doçura inevitável na visão de homens e mulheres que, por baixo de rugas, cabelos grisalhos e manchas senis permanecem dispostos a encontrar mágica e amor no mundo. Muitos são aqueles que desistem depois de uma (ou mais de uma) desilusão, esquecendo-se de que nossos corpos podem envelhecer, mas ainda assim precisam do toque e do carinho do próximo – e abandonar esta busca é um indesculpável desperdício de oportunidades. “Nunca lamentarei envelhecer”, escreveu alguém. “Conheço pessoas demais que não tiveram este privilégio”.

E não devemos nos esquecer de que é um privilégio.

10 de Maio de 2012

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