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As aventuras de Agamenon, o repórter
(As aventuras de Agamenon, o repórter)
74 minutos - Comédia - 2012 (Brasil)
Data de Estreia no Brasil: 06/01/2012
Distribuidora: Paris Filmes
A trajetória do jornalista atrapalhado Agamenon Mendes Pedreira, sempre presente em eventos marcantes da historia, seus grandes furos jornalísticos e sua paixão eterna por Isaura.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Victor Lopes. Com: Hubert, Marcelo Madureira, Marcelo Adnet, Luana Piovani, Pedro Bial, Ruy Castro, Guilhermina Guinle, Luiz Carlos Miéle, Alcione Mazzeo e a voz de Fernanda Montenegro.

Há alguns dias, fui parar no hospital com fortes dores de cabeça e tive que fazer uma tomografia e uma dolorosa punção lombar. No caso do primeiro exame, é uma sorte que ainda não tivesse visto este As Aventuras de Agamenon, pois temo que as imagens revelariam graves lesões em todo o cérebro; quanto ao segundo, devo dizer que preferiria me submeter a uma dúzia de punções a ter que assistir a este longa mais uma vez. Aliás, Agamenon é um “filme” tão detestável (não apenas “ruim”, mas, repito, detestável) que todos aqueles que se envolveram direta ou indiretamente com sua realização deveriam se envergonhar. Incluindo os irmãos Lumière.

Imaginado como uma espécie de irmão estúpido de Forrest Gump, Agamenon é um repórter que, colunista de “O Globo”, cruza o caminho de figuras históricas, participando de incidentes importantes que vão desde a Segunda Guerra e o ataque a Hiroshima até a conquista do penta pela seleção brasileira. Não que haja uma história, já que os “roteiristas” Hubert e Marcelo Madureira parecem apenas juntar cenas que imaginaram isoladamente de qualquer maneira, sem qualquer lógica ou estrutura – e não que haja humor, já que a dupla parece acreditar que “piada” é a simples associação de um nome famoso à primeira tirada que vem à mente. Assim, Orson Welles aparece apenas para dizer “Rosebud”, Ronaldo surge com três travestis em um motel, Freud ouve alguém dizer que “Jung é um merda” e Einstein... bom, aparece peidando, pois seria demais pedir que um Casseta fosse capaz de criar alguma gag envolvendo Física.

Encarnações típicas daqueles tios chatos que em festas de aniversário esmagam as mãos dos sobrinhos julgando-se engraçadíssimos e que ainda usam expressões do tipo “foi vacinado com agulha de vitrola”, Hubert e Marcelo Madureira recheiam Agamenon com “piadas” (sempre entre aspas) envolvendo pessoas que “nasceram na Pindahyba" e com trocadilhos como o nome do médico Jacintho Leite Aquino Rêgo – que não apenas deixou de ter qualquer graça em 1953 como ainda nem pode se dar ao luxo de ser classificada como original, já que qualquer garoto de 7 anos de idade já a ouviu. Como se não bastasse, os dois Cassetas insistem em diálogos imbecis que já haviam torturado o espectador em bombas como A Taça do Mundo é Nossa!, já que são variações sobre dois temas: a redundância (“Ele andava disfarçado incógnito para não chamar a atenção”) ou a contradição (“Escrevia uma coluna diariamente, todos os domingos”) – ambas igualmente aborrecidas e jamais divertidas.

O que leva à pergunta inevitável: que Hubert e Madureira tenham escrito este “roteiro” já é assustador, mas as pessoas que aceitaram participar do projeto chegaram a lê-lo antes de se comprometerem legalmente? Pois como figuras como Caetano Veloso, Fernando Henrique Cardoso, Jô Soares e (Deus!) Fernanda Montenegro podem ter se envolvido com Agamenon se nem mesmo Hélio de la Peña, Reinaldo, Beto Silva e Cláudio Manuel, parceiros de décadas dos roteiristas, o fizeram? (E suspeito que Bussunda, o melhor dos Cassetas, tenha morrido apenas para evitar o convite.) Da mesma maneira, se a participação constrangedora de Luana Piovani (cada vez menos atriz e mais pin-up) já frustra, ver um comediante de imenso potencial como Marcelo Adnet preso a caretas e aos diálogos patéticos de uma dupla decadente configura imensa decepção – um sentimento que se aproxima da tragédia absoluta quando ouvimos Montenegro em uma rara performance embaraçosa enquanto é obrigada a dizer coisas como “Doe a bunda para o bem do Brasil”.

Adotando a estrutura do mockumentary de forma capenga, Agamenon é vergonhoso até nos quesitos mais básicos de produção: a direção de arte é pobre (a cabine do Titanic parece feita por amadores do teatro); a montagem não consegue conferir qualquer sentido à narrativa (em um instante, o protagonista se encontra com Ronaldo; no seguinte, com Kennedy); e até mesmo as imagens photoshopadas que trazem o repórter com figuras históricas surgem como o trabalho de um estagiário preguiçoso. De forma similar, as imagens de arquivo que ganham dublagens “engraçadinhas” não buscam nem mesmo trazer os personagens movendo os lábios, ao passo que os números musicais, como de hábito, se limitam a paródias dignas de um adolescente obcecado com as palavras “pinto” e “bunda”.

Pois em última análise, Madureira e Hubert são exatamente isso: adolescentes sem graça – e que pararam no tempo em algum momento da década de 60, já que ainda fazem piadas envolvendo “padeiros e leiteiros” ou trocadilhos como “que time é teu?”. Para piorar, ainda parecem estar perdendo a memória, já que chegam a repetir a mesma gracinha (“Ele não era mau; era péssimo”) duas ou três vezes durante os intermináveis 74 minutos de projeção. E se Agamenon merece desprezo como comédia, a coisa se torna ainda mais insustentável quando percebemos que os roteiristas tentam fazer piada com o 11 de Setembro, com a morte da princesa Diana e com o tsunami – e não sei se é pior que falhem pelo mau gosto ou que tenham que recorrer a incidentes tão antigos para compor sua história (e fiquei esperando uma piada com o zepelin Hindenburg e com a Peste Negra).

Lançado na primeira semana de 2012, As Aventuras de Agamenon já se estabelece como candidato imbatível a pior filme do ano. A boa notícia é que, por outro lado, agora estou certo de que os Maias estavam tentando nos avisar não sobre o fim do mundo, mas sobre o lançamento desta porcaria - e é uma pena que não tenhamos prestado atenção aos sinais.

13 de Janeiro de 2012

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