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As neves do Kilimanjaro
(Les neiges Du Kilimandjaro)
90 minutos - Drama - 2011 (França)
Data de Estreia no Brasil: 06/04/2012
Distribuidora: Imovision
Casal vive feliz por três décadas, mesmo depois dele ter perdido o emprego. O grande choque vem da descoberta que um dos amigos que foi demitido junto com Michel planejou um violento assalto contra eles.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Robert Guédiguian. Com: Jean-Pierre Darroussin, Ariane Ascaride, Marilyne Canto, Gérard Meylan, Grégoire Leprince-Ringuet, Robinson Stévenin, Karole Rocher.

Se Periferic, que vi durante a Mostra de São Paulo exatamente antes deste filme, trazia indivíduos repugnantes levando tristes vidas, o contraste com este As Neves do Kilimanjaro não poderia ser maior, já que o longa de Robert Guédiguian enfoca pessoas essencialmente boas em situações que, mesmo ocasionalmente tristes, refletem a alegria construída através de suas ações – e mesmo que algum conflito surja durante a narrativa, sabemos que ao final elas irão tomar as melhores atitudes e se sairão bem de alguma maneira.

Citando o título do belíssimo conto de Ernest Hemingway embora nada tenha a ver com o texto ou com o filme que este inspirou em 1952, sendo na verdade uma adaptação de um poema de Victor Hugo, o roteiro de Guédiguian e Jean-Louis Milesi concentra-se no casal de meia-idade Michel (Darroussin) e Marie-Claire (Ascaride). Líder sindical, ele é demitido do emprego ao sortear o próprio nome em uma lista de cortes depois de se negar a receber tratamento especial e, velho demais para conseguir outro emprego, parece acomodar-se em uma aposentadoria precoce, passando os dias ao lado dos netos enquanto a esposa trabalha como diarista. Felizes e apaixonados, eles celebram 30 anos de casamento e recebem uma boa soma em dinheiro e passagens para férias na África, mas é então que, certa noite, são assaltados ao lado da irmã e do cunhado de Marie-Claire.

Trata-se, como é fácil perceber, de uma trama relativamente simples, mas repleta de implicações psicológicas: inicialmente, claro, há o abalo sofrido pela violência do assalto e que leva Denise (Canto) a um choro constante, seu marido Raoul (Meylan) a revoltar-se e a desejar vingança e Michel a uma leve depressão. Porém, ao descobrir que o crime foi cometido por um jovem demitido ao seu lado, o ex-sindicalista entrega-o à polícia apenas para, quase imediatamente, arrepender-se de tê-lo feito, já que o sujeito cuidava dos dois irmãos pequenos e era também um “trabalhador”.

Surgindo aqui sem os modos secos vistos no recente O Porto e sem a amargura exibida em Segunda-feira de Manhã, o ótimo Jean-Pierre Darroussin encarna Michel como um homem íntegro, alegre e carinhoso que, de certa forma, sente culpa pela vida pequeno-burguesa que leva na meia-idade e que criticaria na juventude. Mas não só isso: reconhecendo na ação do assaltante o desespero provocado pelo desemprego, Michel questiona sua própria responsabilidade no que diz respeito à atitude do outro. Enquanto isso, Ariane Ascaride confere calor humano e dignidade à Marie-Claire, parecendo feliz mesmo ao ser obrigada a arranjar um novo emprego como entregadora de jornais aos cinquenta e tantos anos de idade – e é admirável perceber o conforto de ambos como casal e a intimidade construída ao longo das décadas (algo que fica claro, por exemplo, nos sinais que trocam em um jogo de cartas).

Por outro lado, por mais que compreendamos as dúvidas de Michel, torna-se impossível, para o espectador, compartilhar de sua pena por Christophe, o assaltante – não apenas porque testemunhamos a violência de suas ações, mas também em função de seu cinismo ao ser confrontado pelo protagonista e por sabermos que já estava planejando outro assalto, o que nos leva a concluir que talvez ele não fosse a melhor das influências para os irmãos caçulas. E, neste aspecto, é tocante perceber a preocupação de Marie-Claire e do marido para com as crianças – o único elemento do poema de Victor Hugo (além da ideia principal sobre “a bondade dos pobres”) a ser diretamente refletido no roteiro.

Sabotando a narrativa com a utilização ocasional de uma canção absurdamente cafona e de uma trilha equivocada na maior parte do tempo, As Neves do Kilimanjaro é doce e caloroso como seus personagens principais, mas falho como seu jovem bandido.

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura da Mostra de São Paulo de 2011.

01 de Novembro de 2011

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