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O Abismo Prateado
(O Abismo Prateado)
83 min. - Drama - 2011 (Brasil)
Violeta é uma dentista de 40 anos, casada e com um filho adolescente, que está pronta para começar mais um dia em sua rotina. Até que recebe um mensagem desconcertante e embarca em uma jornada pelas ruas do Rio de Janeiro. Inspirado na música "Olhos nos Olhos", de Chico Buarque.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Karim Aïnouz. Com: Alessandra Negrini, Thiago Martins, Gabi Pereira, Otto Jr., Carla Ribas.

Inspirado na canção “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque, O Abismo Prateado busca retratar, ao longo de seus 83 minutos, as drásticas alterações de comportamento experimentadas por uma mulher cuja estabilidade emocional é comprometida quando, certa manhã, recebe uma ligação do marido e parte em uma microjornada pelas ruas do Rio de Janeiro. Embora curto em teoria, o filme acaba assumindo, assim, uma atmosfera quase épica em sua dimensão psicológica, o que representa um de seus grandes méritos – e é uma pena, portanto, que para isto dependa de uma autoindulgência que nem sempre o beneficia.

Escrito por Beatriz Bracher e Karim Aïnouz, o roteiro do longa é um mero ponto de partida para a abordagem narrativa do diretor, que aparentemente concebe o projeto como uma espécie de street movie ao trazer Violeta (Negrini) percorrendo as ruas da cidade enquanto interage com diversos tipos que, de maneira direta ou indireta, moldam sua experiência e seu caminho. Assim, a cada novo encontro descobrimos um pouco mais sobre a moça, cuja viagem interna se torna o foco do filme – algo que Aïnouz, um de nossos diretores mais talentosos, ressalta ao empregar uma profundidade de campo reduzidíssima que isola a protagonista do restante do mundo na maior parte do tempo, obrigando o espectador a se concentrar em seu rosto e em suas reações (ou falta de) ao que ocorre ao seu redor.

Responsável pelo ótimo O Céu de Suely e pela pequena obra-prima Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (para mim, um dos melhores filmes de 2009), Aïnouz é hábil ao evocar a angústia da personagem através não apenas de elementos externos (como os ferimentos no braço e na testa, que refletem sua dor interna), mas também graças à percepção subjetiva do tempo, que parece parar diante da ansiedade crescente da moça – algo que fica claro, por exemplo, na demora em uma simples viagem de elevador. Sem conseguir dormir ou permanecer muito tempo no mesmo lugar, Violeta insiste em estabelecer um objetivo para sua jornada que, sabemos, em nada mudará o resultado da ligação recebida, mas que, ao seu próprio modo, é a única maneira que encontra de manter um fiapo de sanidade e de evitar o desespero completo.

Neste sentido, aliás, a performance de Alessandra Negrini é fundamental para que acreditemos na trajetória da personagem – e a atriz mostra-se impecável do início ao fim, seja através de detalhes da ação, como ao usar um papel para pegar o celular a fim de evitar a contaminação de suas luvas cirúrgicas (ela é ortodontista), ou de sua composição, como ao demonstrar cuidado com a arrumação da casa ao pedir que o filho mova um objeto de lugar. Além disso, a angústia crescente de Violeta é palpável graças à expressividade da atriz, que demonstra com talento inegável como sua personagem simplesmente deixa de funcionar como pessoa ao ser atingida por uma notícia de caráter afetivo.

O curioso é que, por mais que admire a abordagem técnica e estética de Aïnouz e o trabalho de sua protagonista, não consegui admirar o filme em si. A razão para isto não é difícil de identificar: basta meia hora de projeção para percebermos como a jornada de Violeta se desenvolverá e para constatarmos onde (não) chegará – e, assim, embora aprecie a lógica da narrativa, torna-se complicado não ficar impaciente diante de sua previsibilidade e, consequentemente, de sua autoindulgência ao percorrer lentamente um caminho cujas curvas já antecipamos.

Com isso, O Abismo Prateado consegue se estabelecer como um exemplar raro de um filme cujo diretor toma todas as decisões corretas e que, mesmo assim, falha em função da própria premissa limitante. Não se trata de um fracasso, portanto, mas de um tropeço digno de admiração.

Crítica originalmente publicada como parte da cobertura da Mostra de São Paulo de 2011.

19 de Outubro de 2011

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