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13 Assassinos
(Thirteen Assassins)
126 min - Ação - 2010 (Japão/Reino Unido)
Treze assassinos se juntam em uma missão suicida para matar um senhor do mal.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Takashi Miike. Com: Kôji Yakusho, Tsuyoshi Ihara, Takayuki Yamada, Masachika Ichimura, Gorô Inagaki, Yûsuke Iseya, Hiroki Matsukata, Mikijiro Hira, Takumi Saitô.

Talvez um dos adjetivos mais usados ao se discutir a obra do cineasta japonês Takashi Miike seja “prolífico”. Com mais de 40 longas lançados nos últimos 17 anos, o diretor mantém uma média superior a dois filmes por ano – e embora tenha realizado obras fantásticas como Ichi the Killer, infelizmente a qualidade de seus projetos sofre diante da quantidade, rendendo bombas como Ninja Kids! ou esforços apenas medianos como Sukiyaki Western Django. Assim, é um alívio assistir a algo como 13 Assassinos e reencontrar sinais do brilhantismo do qual Miike é capaz, já que aqui consegue combinar uma abordagem mais clássica, tradicional, aos toques de violência bizarra típicas de sua filmografia.

Refilmagem de um longa dirigido em 1963 por Eiichi Kudo (que não vi), 13 Assassinos tem início com o haraquiri cometido por um samurai em protesto às crueldades promovidas pelo meio-irmão do shogun, o cruel Lorde Naritsugu (Inagaki). Sem saber como lidar com o sujeito, que está prestes a se tornar o principal conselheiro do irmão, o influente Sir Doi (Hira) decide contratar o samurai Shinzaemon (Yakusho) para assassinar o rapaz. Levando uma vida pacata e, portanto, sem sentido desde que seus serviços deixaram de ser necessários em um mundo dominado pela paz, Shinzaemon salta sobre a oportunidade de voltar à ativa e escala nove outros samurais e dois ronins para auxiliá-lo na tarefa impossível, encontrando um último e improvável membro para sua equipe na figura de um maluco descoberto no meio da floresta. Ciente de que o samurai responsável pela proteção do Lorde é o experiente Hanbei (Ichimura), com quem treinou no passado, Shinza estabelece uma estratégia arriscada a fim de tentar compensar sua inferioridade numérica através do elemento surpresa.

Escrito por Daisuke Tengan, o roteiro emprega a primeira metade da projeção para, entre outras coisas, estabelecer a vilania de Naritsugu através de flashbacks que revelam sua psicopatia – e a performance de Gorô Inagaki assusta justamente pela maneira contida com que o ator encarna o personagem, evitando qualquer excesso e apostando em olhos sempre frios e numa expressão congelada que, vez por outra, dá lugar a um sorriso leve de prazer diante do sofrimento alheio. Aliás, é interessante como, em certo ponto da narrativa, ouvimos os pensamentos de alguns personagens em off até que finalmente Miike revela o Lorde, criando a expectativa de que também teremos acesso ao que atravessa sua mente apenas para que o silêncio tome conta da trilha, mantendo suas ações sem qualquer justificativa e tornando-o, assim, mais assustador.

Mas Tengan emprega a primeira hora também para apresentar o público aos heróis, focando com mais cuidado, claro, alguns em particular: além de Shinzaemon (vivido com dignidade e inteligência por Kôji Yakusho), conhecemos também seu sobrinho, o bebum irresponsável Shinrouko (Yamada), que viverá um dos arcos dramáticos mais bem definidos da narrativa. E se o ronin Hirayama surge como o guerreiro mais vigoroso e perigoso do grupo (seu intérprete, Tsuyoshi Ihara, lembra o jovem Jack Palance), o divertido Koyata é encarnado por Yûsuke Iseya quase como um Bobo de Shakespeare, não só comentando a ação, mas também protagonizando alguns de seus momentos mais divertidos. E por mais que a insistência do roteiro em trazer Shinza citando o número de guerreiros já reunidos soe tola e expositiva, isto é compensado pela dinâmica tensa e complexa estabelecida entre o líder dos heróis e seu rival Hanbei, que parece defender seu Lorde muito mais por tradição (um samurai deve morrer por seu mestre) do que por realmente respeitar o patrão.

Resgatando temas clássicos dos filmes do gênero como “sacrifício”, “honra” e “coragem”, 13 Assassinos claramente enxerga seus heróis como figuras grandiosas, trazendo-os cavalgando com expressão nobre sob a chuva e constantemente enfocando todo o grupo em planos-conjunto que expõem a força que exibem pela união. Além disso, Miike claramente se diverte ao ilustrar as estratégias criadas por Shinzaemon para surpreender os numerosos rivais, culminando na extensa sequência final da batalha, que, durando incríveis 40 minutos, é um exercício narrativo admirável e um dos melhores momentos da carreira do cineasta, que inicia a ação numa madrugada dominada pelo cinza e pela neblina e a encerra sob a luz do sol, sugerindo um esforço de horas por parte dos heróis. No entanto, o mais notável é perceber como o diretor estabelece com segurança a geografia da batalha, evitando a câmera convulsiva que se tornou clichê nas cenas de ação contemporâneas e mantendo o espaço e a mise-en-scène sempre claros para o espectador.

O vilarejo que abriga a batalha, aliás, representa um belíssimo trabalho de design de produção, surgindo como um complexo labirinto de madeira e diferenciando com talento um ponto do outro, permitindo, assim, que saibamos exatamente onde cada samurai se encontra em dado momento. Porém, se há algo que merece destaque em 13 Assassinos é seu design de som, sendo notável perceber como Miike sugere a maior parte da violência através de ruídos que se encontram fora de campo (como já podemos perceber na cena de abertura ou no assassinato de um jovem marido), usando-os também para estabelecer diferenças cruciais no espaço da ação (como no canto de pássaros que é ouvido quando uma determinada barreira é cruzada, quase ao fim da projeção). Para finalizar, o cineasta não decepciona os fãs, já acostumados com sua sensibilidade bizarra, e inclui algumas imagens incrivelmente perturbadoras na história, desde touros correndo em chamas até uma vítima do vilão que... bom, é preciso vê-la para constatar o grau de morbidez alcançado pelo diretor.

Contudo, o mais surpreendente em 13 Assassinos é perceber como Miike ainda consegue incluir um comentário quase metalinguístico acerca de sua fascinação (e do público) pela violência ao trazer Naritsugu observando com deleite o que ocorre à sua volta e decidindo retornar aos tempos da guerra apenas para prolongar o derramamento de sangue – o que reflete justamente nossa postura de espectadores hipnotizados pelo massacre orquestrado pelo diretor. É um momento sutil e breve que poderia ter saído de uma obra de Michael Haneke e que comprova que Miike poderia criar uma filmografia infinitamente mais admirável se se preocupasse em fazer menos longas, dedicando-se, em vez disso, a planejar cada projeto com o mesmo cuidado que devotou a este ótimo trabalho.

18 de Julho de 2012

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