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Holy Motors
(Holy Motors)
115 min. - Drama - 2012 (França)
A trama acompanha 24 horas por dia Monsieur Oscar, personagem misterioso que viaja entre vidas diferentes e assume diferentes personalidades, que variam desde um assassino, executivo e homem de família, até uma criatura monstruosa.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Leos Carax. Com: Denis Lavant, Edith Scob, Kylie Minogue, Elise Lhomeau, Reda Oumouzoune, Jeanne Disson, Eva Mendes e Michel Piccoli.

Holy Motors é uma declaração de amor ao Cinema. Holy Motors é um suspiro de impaciência acerca do Cinema. Holy Motors é uma manifestação de desesperança diante do estado atual do Cinema.

Uma desesperança que a própria existência do filme se encarrega de suprimir.

Escrito e dirigido pelo francês Leos Carax, o longa é um daqueles projetos que – como Cidade dos Sonhos – parecem provocar no espectador um desejo intenso de decifrá-lo, de ler suas entrelinhas e delas extrair um significado maior que as sensações provocadas por suas sequências individuais. Porém, assim como ocorria na obra de David Lynch, não é essencial ser capaz de “compreender” Holy Motors para apreciá-lo, já que, como exercício narrativo, o trabalho de Carax é incrivelmente envolvente e satisfatório. Por outro lado, se é possível amá-lo pelo que é, igualmente intrigante é dissecá-lo para tentar compreender o que pode ser – e senti-lo e pensá-lo simultaneamente, então, representaria o melhor dos dois mundos.

Acompanhando o dia do camaleônico sr. Oscar (Lavant), Holy Motors inicialmente encontra o personagem enquanto este deixa uma mansão no início do dia e entra na limusine comandada pela bela septuagenária Céline (Scob). A partir daí, seguimos o sujeito enquanto este assume diferentes personas e vive estranhas situações, convertendo-se numa velha mendiga, num assassino profissional, num pai ressentido com a filha, num idoso à beira da morte e no senhor Merde já visto na antologia Tokyo!, entre outros. Retornando sempre para sua limusine a fim de consultar os arquivos que trazem os detalhes sobre seu próximo “compromisso” (o que cria um eco curioso com o igualmente estranho Cosmópolis), Oscar salta de um personagem a outro com fluidez, levando o espectador a se questionar sobre a natureza de sua profissão e a lógica que rege aquele universo.

Uma lógica cuja chave (literal e metafórica) é exibida claramente no prólogo da narrativa, quando vemos um homem despertar em um hotel ao lado de um aeroporto (embora os sons que o cercam remetam a um porto) e investigar a parede forrada com a imagem de uma floresta. Estendendo um dedo metálico que se revela uma chave, o sujeito abre uma passagem que o leva a uma sala de cinema em cuja tela surge uma garota olhando por algo que parece ser a escotilha de um navio (estabelecendo a conexão com o som da sequência), mas que descobrimos ser a janela de uma mansão cujas formas remetem a um transatlântico e da qual o protagonista sai no momento seguinte. Desta maneira, torna-se óbvio que estamos mergulhando em um filme sobre nossa experiência de mergulhar em um filme – e o fato de que o homem que desperta no hotel é o próprio diretor Leos Carax apenas ressalta sua condição de criador do mundo/sonho/filme que visitaremos a seguir (além disso, a chave que abre aquele universo cria uma rima narrativa elegante com outra que o encerrará).

Revelando uma visão pessimista acerca dos caminhos trilhados pelo Cinema contemporâneo, Carax já escancara sua desesperança ao abrir o longa exibindo uma sala de projeção ocupada por espectadores que dormem diante da tela – uma imagem que, infelizmente, encontra eco no perfil médio do público contemporâneo, que se satisfaz completamente diante de experiências audiovisuais vazias, aplaudindo produções como Transformers 3 e O Espetacular Homem-Aranha como se estas não se tratassem de projetos caça-níqueis que substituem conteúdo por efeitos visuais e sentimentos por explosões e diálogos expositivos (e não é à toa que, em certo momento, o sr. Oscar visita uma verdadeira fábrica de motion capture, denunciando o aspecto industrial de boa parte das empreitadas centradas apenas nos valores de produção). Comentando/lamentando também a morte da película e sua substituição pelo digital numa conversa envolvendo o ícone Michel Piccoli, Holy Motors aponta a artificialidade do Cinema não só através das cenas que trazem o protagonista removendo suas elaboradas maquiagens, mas também daquelas que o mostram sendo aquecido por uma lareira que se encontra num monitor e, claro, na fantástica coreografia que o traz simulando sexo com uma contorcionista em um estúdio de motion capture (um encontro simultaneamente estéril e sensual justamente pela impossibilidade da consumação do ato).

Carregado pela performance magistral do diminuto Denis Lavant, o filme comenta, em sua essência, a profissão do próprio ator, que salta de uma vida a outra enquanto reflete, em seus detalhes, a humanidade como um todo: a miséria e a riqueza, a saúde e a doença, a juventude e a velhice, o vigor e a morte. Neste aspecto, Lavant merece todos os prêmios do mundo – e suspeito que o próprio nome de seu personagem identifica a aspiração daqueles que se dedicam à arte de atuar. Hábil ao criar personas completamente distintas uma das outras através de um trabalho de expressão corporal e vocal impecável (observem, por exemplo, o contraste entre a voz grave do assassino, a fragilidade do timbre do idoso no leito de morte e os guinchos do sr. Merde), Lavant ainda cria um claro arco dramático para Oscar, tornando-o mais frágil e cansado ao longo da narrativa em função de seu desencanto com uma Arte que vem se tornando, ao seu ver, superficial e descuidada.

Enquanto isso, Carax demonstra seu amor pela História do Cinema através de referências apaixonadas a clássicos da filmografia francesa, desde Um Só Pecado e Os Guarda-Chuvas do Amor (ambos refletidos na sequência envolvendo Kylie Minogue como uma aeromoça) até Os Olhos Sem Rosto (através da máscara usada por Scob, protagonista daquele filme, no desfecho da projeção), empregando também técnicas tradicionais que, justamente por serem tão antigas, costumam chamar atenção para si mesmas (como fusões e a íris utilizada para identificar o bueiro no cemitério). Igualmente admirável, aliás, é a habilidade do cineasta de introduzir brevemente discussões periféricas sobre o mundo contemporâneo sem, com isso, soar superficial – e Carax sugere um mundo de ideias sobre a obsessão com a fama e a natureza das redes sociais ao enfocar lápides que trazem a inscrição “Visite meu website”, merecendo aplausos também ao trazer Eva Mendes como uma modelo cujas vestes são convertidas numa burca, mas que, ainda assim, acaba reinterpretando a pose da “Pietá” de Michelangelo ao oferecer o colo ao desnudo sr. Merde. Como se não bastasse, a cena que traz Oscar vivendo o assassino Théo enquanto este executa um sujeito chamado Alex (também vivido por Lavant) pode facilmente ser interpretado como um comentário de Carax sobre a morte do celuloide graças à popularização do digital – e não é à toa que as cicatrizes e a mancha na testa do primeiro (possíveis referências aos riscos e à “marca de cigarro” que identifica os fins dos rolos da película) são simulados na cabeça lisa do segundo – que, ainda assim, se encarrega de matar o outro (e vale lembrar que a Kodak pediu falência em 2012).

Ou talvez eu esteja apenas projetando uma interpretação inexistente nas intenções originais de Leos Carax – o que, claro, não a torna menos válida. Afinal, como o próprio cineasta aponta em um diálogo deste seu fantástico Holy Motors, “a beleza está nos olhos de quem vê” – e sua preocupação com a possível escassez de olhos (que ou ignoram o Cinema fora de Hollywood ou preferem “dormir” diante da tela) talvez seja um pouco apaziguada diante da constatação de que não serão poucos aqueles que considerarão este seu manifesto como um dos melhores filmes de 2012.

27 de Dezembro de 2012

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