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Pieta
(Pieta)
104 min. - Drama - 2012 (Coréia do Sul)
Data de Estreia no Brasil: 15/03/2013
Distribuidora: California
Pequeno delinquente tenta se redimir da vida criminosa quando descobre seu lado mais humano em uma sociedade corrompida pelo dinheiro.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Kim Ki-duk. Com: Lee Jung-jin, Jo Min-soo.

Em certo momento de Pietá, novo filme do sul-coreano Kim Ki-duk, um coelho que havia sido confiscado pelo protagonista como pagamento de uma dívida é libertado por uma personagem antes que acabe sendo abatido para consumo. Saltando alegre rumo à liberdade, o animal atravessa a rua diante do apartamento no qual era mantido preso e é triturado pelas rodas de um carro antes de alcançar o outro lado. Este é um instante que resume todo o longa, que não encontra espaço para fuga ou redenção em sua narrativa enquanto esta discorre sobre a natureza da vingança e a implacabilidade do capitalismo nas sociedades modernas.

Com roteiro do próprio diretor, Pietá gira em torno de Gang-Do (Jung-jin), que trabalha como coletor de dívidas para um agiota local. Atuando em sua vizinhança miserável povoada por pequenos comerciantes e operários soterrados em dívidas, o sujeito frequentemente contorna a falta de dinheiro dos devedores através de um método cruel, aleijando-os para coletar o seguro que ele mesmo providenciara para suas vítimas. Certo dia, porém, a rotina solitária do protagonista muda quando a sofrida Mi-Son (Min-soo) se apresenta como a mãe que o abandonou ainda bebê, levando-o a aceitá-la através de sua patológica insistência. No entanto, não demora até que o passado violento de Gang-Do decida cobrar também suas dívidas.

Sem fazer qualquer esforço para suavizar a natureza de seu personagem, Lee Jung-jin encarna o violento rapaz com uma frieza assustadora: em certo instante, por exemplo, um de seus devedores tenta evitar que sua idosa mãe o veja sendo agredido pelo bandido, que, então, faz a mais absoluta questão de esbofeteá-lo repetidas vezes diante dos olhos da velhinha. Da mesma maneira, é sintomático que Gong-Do faça questão de comprar animais vivos para só então abatê-los no banheiro de seu pequeno apartamento antes de cozinhá-los, como se precisasse sempre manter algum grau de destruição em seu cotidiano. Em contrapartida, Jo Min-soo acertadamente vai no caminho oposto ao retratar a mulher que entra na vida do protagonista, conferindo um estoicismo que beira o mais puro masoquismo, como se ela quisesse ser punida por seus erros – e, de certa forma, a dinâmica estabelecida pela dupla parece permitir que um se alimente da doença do outro.

Isto, claro, até que Ki-duk altere a lógica daquela relação, infantilizando o protagonista, que subitamente parece depositar toda a sua carência na mãe recém-descoberta, como se esta fosse finalmente capaz de conduzi-lo à redenção que ele nem sabia desejar (e o segundo ato certamente perturba ao aparentemente ilustrar os extremos que a mulher parece disposta a atingir para confortar o rapaz). Assim, quando o cineasta novamente move a narrativa, apresentando finalmente seus propósitos temáticos com clareza, Pietá encontra o foco que parecia lhe faltar até então, embora também acabe soando absurdo demais para funcionar completamente.

Da mesma maneira, fica patente que, além de contar uma história de vingança, Ki-duk tenta utilizar o projeto para transmitir alguma mensagem crítica sobre ganância e capitalismo – e não é à toa que as vítimas de Gang-Do são destruídas pelas próprias máquinas nas quais labutavam sem jamais deixar a miséria. Porém, ainda que um monólogo mais óbvio sobre a transformação inevitável da cidade pelos arranha-céus seja apresentado sem muita sutileza pelo filme, este subtexto temático permanece difuso demais para realmente provocar impacto ou inspirar reflexões mais profundas.

Com isso, o que resta no desfecho de Pietá é a angústia absoluta originada pela constatação de que a felicidade é impossível naquele universo – algo que a natureza da mancha deixada pelo caminhão no plano final expõe de forma impiedosa ao mesmo tempo em que tenta criar a metáfora derradeira de um discurso frágil como manifestação política, mas suficientemente eficiente como drama para impressionar o espectador.

6 de Outubro de 2012

Crítica originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2012.

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