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Pieta
(Pieta)
104 min. - Drama - 2012 (Coréia do Sul)
Pequeno delinquente tenta se redimir da vida criminosa quando descobre seu lado mais humano em uma sociedade corrompida pelo dinheiro.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Kim Ki-duk. Com: Lee Jung-jin, Jo Min-soo.

Em certo momento de Pietá, novo filme do sul-coreano Kim Ki-duk, um coelho que havia sido confiscado pelo protagonista como pagamento de uma dívida é libertado por uma personagem antes que acabe sendo abatido para consumo. Saltando alegre rumo à liberdade, o animal atravessa a rua diante do apartamento no qual era mantido preso e é triturado pelas rodas de um carro antes de alcançar o outro lado. Este é um instante que resume todo o longa, que não encontra espaço para fuga ou redenção em sua narrativa enquanto esta discorre sobre a natureza da vingança e a implacabilidade do capitalismo nas sociedades modernas.

Com roteiro do próprio diretor, Pietá gira em torno de Gang-Do (Jung-jin), que trabalha como coletor de dívidas para um agiota local. Atuando em sua vizinhança miserável povoada por pequenos comerciantes e operários soterrados em dívidas, o sujeito frequentemente contorna a falta de dinheiro dos devedores através de um método cruel, aleijando-os para coletar o seguro que ele mesmo providenciara para suas vítimas. Certo dia, porém, a rotina solitária do protagonista muda quando a sofrida Mi-Son (Min-soo) se apresenta como a mãe que o abandonou ainda bebê, levando-o a aceitá-la através de sua patológica insistência. No entanto, não demora até que o passado violento de Gang-Do decida cobrar também suas dívidas.

Sem fazer qualquer esforço para suavizar a natureza de seu personagem, Lee Jung-jin encarna o violento rapaz com uma frieza assustadora: em certo instante, por exemplo, um de seus devedores tenta evitar que sua idosa mãe o veja sendo agredido pelo bandido, que, então, faz a mais absoluta questão de esbofeteá-lo repetidas vezes diante dos olhos da velhinha. Da mesma maneira, é sintomático que Gong-Do faça questão de comprar animais vivos para só então abatê-los no banheiro de seu pequeno apartamento antes de cozinhá-los, como se precisasse sempre manter algum grau de destruição em seu cotidiano. Em contrapartida, Jo Min-soo acertadamente vai no caminho oposto ao retratar a mulher que entra na vida do protagonista, conferindo um estoicismo que beira o mais puro masoquismo, como se ela quisesse ser punida por seus erros – e, de certa forma, a dinâmica estabelecida pela dupla parece permitir que um se alimente da doença do outro.

Isto, claro, até que Ki-duk altere a lógica daquela relação, infantilizando o protagonista, que subitamente parece depositar toda a sua carência na mãe recém-descoberta, como se esta fosse finalmente capaz de conduzi-lo à redenção que ele nem sabia desejar (e o segundo ato certamente perturba ao aparentemente ilustrar os extremos que a mulher parece disposta a atingir para confortar o rapaz). Assim, quando o cineasta novamente move a narrativa, apresentando finalmente seus propósitos temáticos com clareza, Pietá encontra o foco que parecia lhe faltar até então, embora também acabe soando absurdo demais para funcionar completamente.

Da mesma maneira, fica patente que, além de contar uma história de vingança, Ki-duk tenta utilizar o projeto para transmitir alguma mensagem crítica sobre ganância e capitalismo – e não é à toa que as vítimas de Gang-Do são destruídas pelas próprias máquinas nas quais labutavam sem jamais deixar a miséria. Porém, ainda que um monólogo mais óbvio sobre a transformação inevitável da cidade pelos arranha-céus seja apresentado sem muita sutileza pelo filme, este subtexto temático permanece difuso demais para realmente provocar impacto ou inspirar reflexões mais profundas.

Com isso, o que resta no desfecho de Pietá é a angústia absoluta originada pela constatação de que a felicidade é impossível naquele universo – algo que a natureza da mancha deixada pelo caminhão no plano final expõe de forma impiedosa ao mesmo tempo em que tenta criar a metáfora derradeira de um discurso frágil como manifestação política, mas suficientemente eficiente como drama para impressionar o espectador.

6 de Outubro de 2012

Crítica originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2012.

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