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O Lobo Atrás da Porta
(O Lobo Atrás da Porta)
101 min - Drama - 2013 (Brasil)
A partir do misterioso sequestro de uma criança, são revelados os recantos mais obscuros dos desejos, mentiras e perversidades de um triângulo amoroso.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Fernando Coimbra. Com: Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabiula Nascimento, Juliano Cazarré, Emiliano Queiroz, Tamara Taxman, Thalita Carauta, Isabelle Ribas.

O Lobo Atrás da Porta, longa de estreia de Fernando Coimbra, é um animal estranho: em um momento, provoca o riso aberto em função do desespero de um personagem apenas, para no instante seguinte, despertar o horror no espectador quando aquele mesmo indivíduo age para resolver a questão que o perturba. Equilibrando-se com uma segurança invejável entre o drama, a comédia, o estudo de personagem e, nos dez minutos finais, o suspense, o filme envia o público para fora da sala com uma sensação de vergonha por ter rido quando a narrativa assim o quis.

Roteirizada pelo próprio diretor, a história tem início quando Sylvia (Nascimento) vai até a creche da filha pequena (Ribas) para buscá-la e descobre que a menina já havia sido apanhada por uma “vizinha”. Sem poder imaginar por que alguém sequestraria a garota, já que seus pais estão longe da riqueza, a desesperada mulher sugere que o marido pode ter uma amante – e logo o sujeito, Bernardo (Cortaz), confirma que manteve um caso com a jovem Rosa (Leal). A partir daí, o detetive responsável (Cazarré) interroga os três adultos, descobrindo, aos poucos, o que realmente ocorreu naquele dia.

Surpreendente por extrair humor de uma situação tão séria, o filme é beneficiado especialmente pelas atuações impecáveis de Leal, Cortaz e Nascimento: enquanto esta última denota não só a preocupação com a filha, mas também a impaciência com o marido durante os flashbacks nos quais começa a desconfiar do caso que este mantém, Milhem Cortaz consegue se desprender do tipo brutamontes/malandro que normalmente encarna ao transformar Bernardo num sujeito patético, fraco e desesperado, conseguindo simultaneamente fazer com o que o espectador ria de sua situação e compreenda a seriedade do que está ocorrendo.

Ainda assim, O Lobo Atrás da Porta pertence mesmo a Leandra Leal, que cria uma personagem cuja transformação ao longo da projeção impressiona, partindo do flerte descompromissado à obsessão absoluta, passando pela paixão contida, a frustração crescente e a raiva. Jamais perdendo de vista a trajetória emocional e psicológica de Rosa, a bela atriz impressiona particularmente numa cena em que, agredida pelo amado, se entrega às lágrimas e a um tremor nervoso que revela seu medo e sua dor diante do ocorrido. Leal sempre foi uma atriz admirável, mas aqui comprova merecer estar no topo da lista das grandes intérpretes do Cinema nacional (e percebam que nem cheguei a mencionar sua performance no terço final, que transforma a Glenn Close de Atração Fatal em Amélie Poulain sem jamais soar caricata ou artificial).

Fotografado pelo sempre competente Lula Carvalho de maneira claustrofóbica, com quadros quase sempre fechados que nos colocam colados aos rostos dos atores, o filme ainda traz uma paleta triste e sombria que se torna gradualmente mais sufocante. Além disso, a narrativa é beneficiada por planos que comunicam a atmosfera da história sem a necessidade de diálogos – e quando Bernardo surge no extremo esquerdo do quadro, olhando para fora de campo e parecendo encurralado enquanto Rosa o observa do fundo e à direita, percebemos a dinâmica entre aqueles dois indivíduos de forma inequívoca. Enquanto isso, Fernando Coimbra é hábil ao criar pequenos movimentos que, mesmo nas versões “alternativas” (melhor: incompletas) das histórias, demonstram os pequenos momentos de verdade sob a mentira – como, por exemplo, no hábito da hilária Betty de ajustar o top o tempo todo.

Da mesma maneira, é admirável como o filme sugere todo um subtexto familiar envolvendo Rosa ao trazê-la buscando uma garrafa de bebida oculta numa vasilha que guardava arroz – o que, associado ao personagem quase catatônico de Emiliano Queiroz (sempre um ator evocativo, mesmo mudo), aponta para uma família vitimada pelo alcoolismo do sujeito, o que poderia explicar, em parte, o desequilíbrio emocional da garota. Além disso, embora Rosa se revele obsessiva e perigosa, O Lobo Atrás da Porta não absolve Bernardo, que se mostra um homem egoísta ao mentir para a jovem sobre seu estado civil e envolvê-la num relacionamento sem futuro – um ato babaca que, no entanto, nem chega aos pés da atitude vil que ele toma tempos depois.

Sem fazer concessões em seu ato final, mantendo-se íntegro ao desenvolvimento inevitável de seus personagens, este é um filme marcante que apresenta Fernando Coimbra como um cineasta a ser acompanhado de perto.

 

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2013.

4 de Outubro de 2013

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