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King Kong (III)
(King Kong)
187 min - Ação - 2005 (Nova Zelândia, Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 16/12/2005
Durante uma expedição a uma ilha tropical, uma equipe de filmagem encontra um gorila gigantesco e decide levá-lo para Nova York, onde prentende lucrar com sua exibição.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Peter Jackson. Com: Naomi Watts, Adrien Brody, Jack Black, Thomas Kretschmann, Colin Hanks, Andy Serkis, Evan Parke, Jamie Bell, John Sumner, Kyle Chandler, Frank Darabont, Peter Jackson.

King Kong pertence mesmo ao início do século – e um dos fatores que certamente comprometeram a refilmagem de 1976 foi (além do roteiro burocrático) a tentativa de vestir a história com roupagens mais modernas, incluindo mensagens ecológicas e referências ao movimento feminista (a mocinha acusava Kong de ser um `porco chauvinista`) que simplesmente não se encaixam ao tom fantasioso e inconseqüente exigido por uma trama que gira em torno de um gorila de 8 metros de altura que se apaixona por uma frágil loira. Assim, a decisão de Peter Jackson de ambientar sua tão sonhada refilmagem no mesmo ano de 1933 do original revela-se não apenas acertada, mas fundamental para o sucesso da empreitada: no mundo da clonagem de ovelhas e cães, um símio gigante é absurdo; já numa década ainda repleta de mistérios e beneficiada pela ausência do cinismo que mudaria a sociedade pós-bomba atômica, aceitar a existência de Kong assume uma perspectiva bem mais natural.

Mais uma vez acompanhando as aventuras da loira Ann Darrow (aqui vivida por Naomi Watts) na misteriosa Ilha da Caveira, onde a moça é ofertada ao personagem-título, esta produção de mais de três horas de duração representa uma jornada impressionante a um universo povoado por animais pré-históricos, criaturas gigantescas e humanos selvagens (a maquiagem dos nativos é assustadora ao mesmo tempo em que evita a caracterização racista do filme de 33). Depois da irregular hora inicial de projeção – que discutirei adiante -, o filme agarra o espectador e não volta a soltá-lo, atirando-o em meio a consecutivas seqüências de ação que impressionam por jamais afrouxarem o ritmo. Além disso, Peter Jackson volta a exibir o mesmo senso de humor divertidamente doentio de seus filmes iniciais, como Meet the Feebles e Náusea Total, criando momentos em que o riso vem como conseqüência do nervosismo ou do nojo, e não de uma piada ou outra – algo que pode ser observado no instante em que Ann e um T-Rex balançam sem controle em sentidos opostos enquanto o bicho tenta engolir a moça ou na cena em que os humanos são atacados por insetos anabolizados. E, ainda que os efeitos visuais não sejam dos mais realistas (o trabalho de composição deixa um pouco a desejar, especialmente na seqüência da debandada dos dinossauros), são eficazes o bastante para permitir que sejamos envolvidos pelo que está ocorrendo na tela.

Ainda assim, por mais que King Kong brilhe em suas inúmeras seqüências de ação, o filme funciona mesmo graças à interação entre seus protagonistas: Kong e Ann Darrow. Tomando emprestado o que a versão de 76 tinha de melhor (depois da beleza e da sexualidade gritante de Jessica Lange), Peter Jackson cria uma afeição recíproca entre os dois: inicialmente amedrontada pela criatura, Ann gradualmente percebe que sua segurança depende desta – o que resulta numa das cenas mais tocantes do filme, quando a moça, cercada por um T-Rex e pelo próprio Kong, caminha lentamente em direção ao último, finalmente compreendendo a verdadeira natureza dos sentimentos deste (por outro lado, o cínico que existe em mim não consegue deixar de pensar que a afeição de Ann por Kong representa a ocorrência mais famosa da Síndrome de Estocolmo já vista nas telas).

Seja como for, a decisão de Jackson em estabelecer afeto mútuo entre os dois personagens acaba `corrigindo` a única falha grave do original, já que Fay Wray não exibia simpatia alguma pelo animal, mas apenas pavor – o que não deve ser encarado como erro da atriz, mas sim como uma decisão do roteiro e dos diretores Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack. (Neste sentido, é curioso observar que, no filme de 33, Kong tira Ann Darrow de um prédio através da janela - exatamente o contrário do que ocorre nesta nova versão.) Além disso, o cineasta inclui uma cena absolutamente comovente e lúdica em um lago congelado, o que resulta num dos pontos altos da refilmagem.

E mais: graças aos avanços dos efeitos digitais, Peter Jackson pôde encontrar uma solução bem mais eficaz para criar Kong do que usar um homem vestido de macaco ou miniaturas animadas através de stop-motion: empregando a mesma técnica utilizada para trazer Gollum à vida, o diretor escalou o mesmo Andy Serkis para criar os movimentos e as expressões faciais do personagem-título, obtendo resultados impressionantes: ao longo do filme, Kong transforma-se não apenas em uma figura de carne-e-osso, mas em um ser com alma. Percebemos quando está divertindo-se, quando mostra-se curioso e quando está irritado, frustrado ou melancólico – e seu olhar triste estabelece uma conexão com Ann (e com o público) fundamental para a história. Ao lado de Gollum, Kong é, sem dúvida alguma, um dos personagens digitais mais bem realizados da história do Cinema – e não me refiro simplesmente a questões técnicas.

Enquanto isso, Naomi Watts surge como uma perfeita `dama em perigo` (que grito!), ganhando contornos mais complexos à medida que sua relação com o gorila vai se desenvolvendo e resultando em uma performance intensa, encantadora e admirável. E se Adrien Brody pouco pode fazer como o herói Jack Driscoll, Jack Black aproveita a oportunidade oferecida pelo filme para criar um de seus personagens mais complexos: o diretor Carl Denham é um homem egocêntrico e inconseqüente, sim, mas em vários momentos podemos perceber um certo auto-questionamento que o deixa mais humano e evita que ele se transforme em uma caricatura como o personagem similar vivido por Charles Grodin em 76 (e a descrição de Carl feita por Jack Driscoll é belíssima, tornando-o ainda mais trágico: `Ele tem um talento infalível para destruir as coisas que mais ama`.)

É verdade que o romance entre Jack e Ann jamais conquista o espectador (a relação vital do filme é aquela entre Ann e Kong; Jack é introspectivo demais para competir com o gorila) e que a primeira hora de projeção peca por demorar-se demais em alguns aspectos, revelando uma auto-indulgência perigosa por parte de Peter Jackson depois de seu sucesso com a trilogia O Senhor dos Anéis. Prejudicado por tentativas de humor infantis e tolas, o primeiro ato de King Kong certamente poderia ter uns 20 minutos a menos, já que Jackson inclui uma série de momentos com aspirações à grandiosidade envolvendo uma dispensável aura de inevitabilidade acerca do que acontecerá na Ilha da Caveira: ventos cortam a tela quando Ann está prestes a subir a bordo do S.S. Venture; a trilha torna-se sombria quando o nome da ilha é mencionado; a montagem investe no histerismo quando Jack datilografa as palavras em seu roteiro; e assim por diante. Além disso, o cineasta certamente precisa tomar cuidado com sua tendência a exagerar na quantidade de closes e planos em câmera lenta; usados com critério, estes recursos acentuam a dramaticidade, mas, em excesso, soam apenas como exercício de estilo.

De todo modo, o fato é que mesmo a primeira hora de King Kong funciona, ainda que apresente problemas, e o filme embala de vez depois que os personagens chegam à ilha. E mesmo os pecados estilísticos de Jackson merecem absolvição se considerarmos seu virtuosismo na seqüência no topo do Empire State Building, quando o diretor oferece uma espetacular visão aérea de Nova York, enfocando a ação a partir de vários ângulos, explorando ao máximo o potencial dramático da situação e salientando o ambiente vertiginoso no qual o embate ocorre.

E o mais admirável: em meio a tanta ação, o brilhante diretor ainda consegue criar uma história de amor verossímil entre um gorila de 8 metros de altura e uma frágil loira. Não dá pra exigir mais do que isso, não é mesmo?
``

22 de Dezembro de 2005

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