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Na Estrada
(On the Road)
137 minutos - Drama - 2012 (Brasil/França)
Adaptação do famoso livro de Jack Kerouac, um jovem escritor viaja por todo o país ao lado de um amigo e sua esposa.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Walter Salles. Com: Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Tom Sturridge, Kirsten Dunst, Amy Adams, Viggo Mortensen, Steve Buscemi, Elisabeth Moss, Terrence Howard, Alice Braga, Danny Morgan.

Considerado inadaptável para o Cinema por décadas, o clássico On the Road, de Jack Kerouac, ganha nas mãos do cineasta brasileiro Walter Salles uma versão que consegue a proeza de evocar nas telas a escala épica das perambulações geográficas e existenciais de seus inesquecíveis personagens, o que é admirável. Por outro lado, no processo o filme falha ao não deixar claro exatamente o que havia de tão especial na geração Beat – e o fato de não contar com as descrições e dissertações do autor acaba levando o espectador a conhecer suas duas figuras principais apenas através de suas ações, expondo suas características menos nobres sem, em contrapartida, elucidar o que tinham de mais atraente, tornando difícil que os apreciemos totalmente.

Escrito por Jose Rivera, que trabalhara com Salles no excepcional Diários de Motocicleta, o roteiro acompanha o aspirante a autor Sal Paradise (Riley), alterego de Kerouac, que em 1947 deixa o lar para viajar pelo país a fim de coletar as experiências que finalmente o levarão ao seu mais famoso livro - e a decisão de alterar sua motivação inicial, de um divórcio para a morte do pai, mostra-se acertada ao infantilizá-lo um pouco mais, ressaltando seu eventual crescimento. Ao lado do amigo Carlo Marx (Sturridge), ele acaba conhecendo o impulsivo Dean Moriarty (Hedlund), que parece oferecer a Sal um mundo desconhecido de paixões, riscos e insubordinação. (“Ele tinha passado um terço de sua vida nas mesas de bilhar, um terço na cadeia e um terço na biblioteca pública.”) Assim, ao longo dos três anos seguintes eles cruzarão com personagens como a jovem Marylou (Stewart), o escritor Old Bull Lee (Mortensen) e sua esposa Jane (Adams), a humilde Terry (Braga), a sofrida Camille (Dunst) e o músico Walter (Howard), além do próprio Carlo, entre outros – todos eles versões ficcionais de figuras reais como Allen Ginsberg, William S. Burroughs e outros conhecidos de Kerouac.

Adotando a mesma abordagem visceral e carregada de realismo que transformou Diários de Motocicleta e Central do Brasil em obras tão eficazes, Salles e seu diretor de fotografia Eric Gautier já iniciam a narrativa com a câmera na mão enquanto acompanham os passos do protagonista, usando a sequência de abertura para estabelecer o tom do filme ao focarem o prazer que Sal encontra na estrada através do contato com estranhos (figurantes de rostos sempre marcantes, nada glamourizados), do vento no rosto e da apreciação do céu estrelado e das paisagens que deixa para trás – e há algo de incrivelmente libertador ao se ouvir a pergunta “Está indo para algum lugar ou está apenas indo?” e poder responder com a segunda opção.

Beneficiado pelas locações marcantes que ilustram as viagens de Kerouac com cenários tão diversos quanto extensas plantações douradas ou pontes imponentes contra a rocha cinza, Na Estrada enxerga os Estados Unidos simultaneamente de forma idealizada e realista: da primeira, há a força e a alegria de um povo que permanece sorrindo e esperançoso mesmo diante do trabalho pesado e mal remunerado; do outro, a miséria que enfrentam e a falta de perspectivas. De maneira similar, se Sal, Carlo e Dean respiram e comem cultura, por outro lado são obrigados a sustentar este modo de vida impraticável com subempregos ou com o crime – mesmo que este surja na forma de pequenos furtos ou golpes quase perdoáveis que se adequam à filosofia Beat por manifestarem o desapego material dos jovens e sua irreverência diante do “sistema”.

O que encontra eco, claro, na trilha que acompanha não só suas experiências, mas o próprio filme: calcada no jazz livre, que parece buscar cada nota numa estudada espontaneidade, a música inspira não apenas o estilo de enxurrada da escrita de Kerouac, mas sua própria filosofia de vida, que não encontra espaço para o cálculo ou a repressão, optando, em vez disso, pelo sexo livre e pela entrega absoluta ao imediato – e, assim como nos vocais enlouquecidos de Slim Gaillard (que os rapazes testemunham em certo ponto da projeção), o tédio do cotidiano é afastado pela incerteza do que virá no segundo seguinte. Não é espantoso, portanto, que em um momento Sal pegue carona com um motorista bêbado e com o dedão do pé recém-amputado que, ainda assim, não hesita em conduzir um caminhão repleto de dinamite – apenas para, instantes depois, passar a noite bebendo ao lado de um músico que acabara de conhecer (e Walter Salles registra a humanidade e a doçura da experiência ao enfocar brevemente a esposa do sujeito sorrindo no quarto ao lado ao escutar as histórias do marido).

Porém, se é fácil admirar o espírito livre dos protagonistas e sua busca pelo intangível, por outro lado torna-se complicado ignorar que, no fundo, são também indivíduos profundamente egoístas, babacas e inconsequentes – e aqui falta ao filme a prosa de Kerouac para manter certo grau de magia em suas atitudes. Sim, é perfeitamente possível compreender o dilema constante de Dean, que se vê dividido entre o desejo pela liberdade e o reconhecimento de suas obrigações como marido e pai, mas na maior parte do tempo o sujeito (vivido com energia e carisma por Hedlund) soa apenas como um alcóolatra imbecil que usa seu carisma para aprisionar aqueles a quem explora. Com isso, torna-se quase impossível enxergar no rapaz a sabedoria e mesmo a “santidade” que Sal atribui ao amigo – algo que Old Bull Lee (Mortensen, na melhor passagem do longa) logo é capaz de apontar ainda que profundamente dopado. (A propósito: é divertido – ou “divertido”? - que o escritor surja praticando tiro em sua conversa com Sal, já que isto resultaria na morte trágica de sua esposa dois ou três anos depois em um acidente curioso.)

Mas se Dean (inspirado, claro, em Neal Cassady) surge como um ser patético no filme, Sal não fica muito atrás: encarnado por Sam Riley (Control) como um jovem passivo que praticamente se limita a seguir qualquer um que julgue interessante, o protagonista não é menos reprovável em seu hábito de sugar as experiências e a vida de quem encontra e seguir adiante – como, por exemplo, com a miserável Terry (Braga, tocante e bela) ou mesmo com o próprio Dean, eventualmente. Além disso, os riscos assumidos por Sal em seus anos de viagem não soam tão valentes quanto os de seus companheiros, já que não é difícil brincar de peregrino quando se tem a consciência de poder contar com o conforto de um lar abastado assim que as coisas se tornarem realmente difíceis (algo que Moriarty parece só perceber em seu encontro final com o amigo). Muito mais admiráveis que a dupla central, aliás, são figuras como Carlo “Ginsberg”, cuja integridade afetiva e artística jamais é posta em cheque; Marylou, que se vê patologicamente presa ao amante egoísta (e Stewart merece aplausos por diferenciá-la completamente da apática Bella, tornando a personagem comovente em vez de ridícula); e Camille, que é vivida por Kirsten Dunst com dor, paixão e sacrifício.

Enfrentando problemas de ritmo a partir da segunda metade da projeção, quando a rotina dos personagens parece se resumir a experiências vazias que se repetem de maneira entediante (pequenos roubos, incidentes na estrada, batidas em inúmeras portas), Na Estrada ao menos justifica esta estrutura ao evocar a longa passagem dos anos – e quando percebemos que cinco anos se foram desde o início da narrativa, sentimos a dimensão real da jornada de Sal e compreendemos sua melancolia (e também seu alívio) quando retorna ao ponto de partida.

Contudo, o que encanta de fato em Na Estrada é a forma com que retrata o impulso artístico de seus personagens e o prazer quase sexual que extraem de suas conversas, de seus projetos e de suas ideias – e qualquer um que trabalhe com a escrita reconhecerá o sorriso satisfeito de Sal ao perceber nas palavras que datilografa a fidelidade com que estas reproduzem os conceitos que existiam apenas em sua mente. Aliás, não é à toa que o sujeito atravessa a projeção carregando o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, já que, além da similaridade narrativa (ambos usaram figuras de seu cotidiano como inspirações para seus personagens), No Caminho de Swann retrata com energia a obsessão do escritor por seu ofício e o desejo de criar algo que o estabeleça como alguém digno das letras. (Este volume, diga-se de passagem, também foi a inspiração óbvia do momento mais belo de Ratatouille: o retorno de Anton Ego à infância graças a uma experiência sensorial.)

Desta maneira, Walter Salles alcança o que muitos julgavam impossível e, mesmo sacrificando certa fidelidade ao original, mantém-se fiel ao mais importante: o impulso criativo de Kerouac e sua convicção de que nada deveria colocar-se entre ele e sua Arte enquanto devorava experiências, sensações e pessoas a fim de regurgitá-las inesquecivelmente em sua magnífica obra.

12 de Julho de 2012

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